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quinta-feira, 12 fevereiro, 2026
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um bem precioso da sociobiodiversidade amazônica — Brasil de Fato

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“A farinha e as panelas estão separadas. As redes e cordas também. Os jamanxins já foram colocados na canoa. O carote com o combustível, o facão, a lona, o pé-de-bode e a espingarda já se encontram no jeito. Tudo pronto para seguirmos viagem amanhã cedo rumo ao castanhal”, disse Herculaninho, da Reserva Extrativista Riozinho do Anfrísio, na Terra do Meio, no Xingu/Pará, quando vivi uma das experiências mais incríveis da minha vida: estar e sentir a vida e o trabalho pulsando no interior de um castanhal no coração da floresta Amazônica. Quem apenas consome a castanha-do-pará comprada facilmente em supermercados, feiras, mercados populares ou até em lojas de conveniência não faz ideia do percurso que este fruto precioso atravessa até chegar aos nossos lares. Também quase ninguém imagina as circunstâncias em que se dá essa atividade, desenvolvida por extrativistas. Neste contexto particular da unidade de conservação em comento, a jornada dura entre 8 e 15 dias por coleta, mas esse tempo é sempre muito relativo, pois depende de uma infinidade de fatores. A organização dos grupos familiares, pois saem juntos para o castanhal, e as condições do tempo, são exemplos dos fatores que influenciam no trabalho de coleta do fruto singular da sociobiodiversidade.

A ida ao castanhal é um acontecimento. Vejamos. Todo um planejamento é feito, envolvendo quase sempre alguns grupos familiares que se articulam para estar juntos durante os dias de coleta. Esposas, crianças, cachorro, papagaio, macaco, ninguém fica para trás. Viajando horas a fio pelo rio, passando por igapós e furos, ao chegarem nos barracões estabelecidos entre a beira do rio e a entrada da floresta, cada equipe vai se ajeitando por ali. Essas moradias temporárias são como casas construídas de modo rústico, com alguns esteios fincados no chão e cobertos de palha, e sem divisões de cômodos. Aos homens, resta a missão de coletar os ouriços, reservando um espaço de tempo para caçar e pescar. Afinal, as mulheres e crianças ficam nos barracões e todos precisam de proteína, oriunda da caça e da pesca, abundantes na região. Às mulheres são conferidas as tarefas de cuidado das crianças, preparo da comida e vigilância dos barracões. Brincar, correr, jogar bola, tomar banho no rio são as atividades prediletas desses seres que encantam a floresta com a alegria da infância. Elas próprias e suas mães não acessam o ambiente hostil da mata. Serpentes, onças, seres sobre-humanos e todo o tipo de perigo poderiam estar em seu encalço.

No castanhal o trabalho começa pela procura dos ouriços esparramados pelo chão. Com o jamanxim preso às costas e fixado na cabeça por meio de uma tira de fibra vegetal, e o pé-de-bode na mão, os protagonistas saem capturando as “bolas de castanha” com o apetrecho, soltando-as diretamente no jamanxim. Quando o cesto fica cheio, caminham até o local de ajuntamento para despejar tudo, formando aquela montanha de ouriços. Em seguida, depois de acomodar muitos ouriços, vão abri-los com ajuda de um facão. A tarefa é dura e arriscada, pois a casca do fruto é muito resistente e, a qualquer lapso, um acidente pode mutilar a pessoa. As araras e cutias, entretanto, são exímias arrebentadoras de ouriços, que os partem com maestria e celeridade.

Tiradas as castanhas do ouriço, estas são colocadas dentro de sacos plásticos de 60 kg. Após essa etapa, os sacos são carregados para o rio a fim de que as castanhas sejam devidamente lavadas e, depois, secadas ao sol. Todo esse trabalho penoso acontece debaixo do calor úmido da floresta, sob os aperreios das picadas de formigas, carapanãs e outros insetos perturbadores que não dão sossego aos ribeirinhos-castanheiros. Também é crucial saber o momento certo de busca desse rico alimento da natureza, pois, caso um ouriço atinja a cabeça de um coletor ao cair de uma altura impressionante do dossel da floresta, pode ser fatal. Castanhas são apanhadas no chão da floresta e não retiradas das árvores. Quem manda é o tempo da natureza, não o do homem.

A castanheira (Bertholletia excelsa) é uma espécie vegetal de relevância inconteste, tanto diretamente para a humanidade, quanto para os processos ecológicos da floresta. Poucos devem saber, mas existe uma espécie de sapo (Adelphobates castaneoticus) que só se reproduz no interior do ouriço cujas castanhas foram consumidas por araras ou cutias, ou retiradas pelos extrativistas. Esses ouriços vazios criam um ambiente úmido, com reserva d’água, favorecendo assim um cantinho propício para o casal dar continuidade à história de sua espécie. Sem o ouriço na mata, o que seria desse sapo? São as cutias que, ao enterrarem as castanhas em buracos na floresta a fim de escondê-las para comer depois, acabam ajudando na sua dispersão, pois ao estocarem tantos frutos, acabam por esquecer onde guardaram tudo. Os castanhais são ainda um reflexo primoroso do manejo humano, que moldou a paisagem amazônica num processo antigo e cheio de beleza, dada a importância desse elemento da biodiversidade para as populações ameríndias. Foi o processo de domesticação que nos deixou como herança esse alimento único.

Sendo um fruto do inverno amazônico, sua safra é rápida e intensa. A produção pode diferir de região para região. No Pará, a safra vai geralmente de janeiro a abril. A floração ocorre entre os meses de setembro e fevereiro. As árvores podem chegar até 50 metros de altura, destacando-se por sua beleza e imponência. Cada gigante dessa produz em média 30 ouriços por ano, e cada ouriço pode gerar cerca de 16 castanhas; portanto, por ano, cada castanheira produz aproximadamente 500 castanhas. A frutificação inicia-se entre 8 e 12 anos, a depender de condições diversas na natureza. Dada sua importância, é uma espécie protegida por lei, principalmente no Brasil, Bolívia e Peru.

Conhecida por muitos como carne vegetal, é rica em proteína, possuindo de 12 a 17% desse nutriente. Apresenta nutrientes essenciais como gordura saudável, ferro, cálcio, zinco e grandes quantidades de metionina. Entretanto, destaque deve ser dado ao selênio, um mineral que ajuda a prevenir câncer e combater vários tipos de vírus, além de fornecer energia. Entre seus usos alimentares, podemos citar sorvetes, cremes, farinha, leite de castanha usado em diversas receitas, doces, bombons, óleos, e mesmo para o consumo in natura ou torrada. Cozinheiros e chefs têm criado receitas incríveis usando esse componente da sociobiodiversidade amazônica; contudo, as receitas dos povos e comunidades tradicionais continuam presentes no cotidiano das famílias. Macaco capelão ao leite da castanha ou um suco de taperebá misturado ao líquido branco extraído do fruto são alimentos que não correm risco de desaparecer, pelo menos por enquanto, nos territórios de povos indígenas e comunidades tradicionais.

Por último, não poderia deixar de destacar a “identidade” da castanha-do-pará. Apesar de ela estar presente em diversos estados da Amazônia brasileira e países pan-amazônicos, não prosperou a ideia de retirar desse fruto seu nome amplamente difundido no Brasil e no exterior. Essa nomenclatura remonta ao Brasil colonial, quando o Grão-Pará, por meio do porto de Belém, se tornou o principal exportador desse fruto para a Europa e outras regiões do Brasil. Hoje o estado do Amazonas é o maior produtor desse bem valioso.

Podendo chegar a mais de 500 anos de vida, esperamos que as autoridades ambientais brasileiras continuem a proteger essa nobre gigante. Mais que isso, que não negligenciem os castanheiros-extrativistas e seus territórios produtivos. São eles, por meio de suas sabedorias ancestrais, que ajudam a preservar essas árvores, gerando renda, segurança alimentar e nutricional, remédio, e colaborando com o equilíbrio climático global e processos ecológicos locais.

Flávio Bezerra Barros é professor associado da UFPA e Bolsista de Produtividade em Pesquisa do CNPq (Nível C – Antropologia)

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Fonte: Brasil de Fato

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