O governo dos EUA precisa de uma vitória de Flávio Bolsonaro não apenas para tirar do poder um governo que busca autonomia diante dos interesses da Casa Branca. Os cálculos norte-americanos apontam que, para além do destino político do Brasil, a eleição é fundamental para o plano de Washington de estabilizar e perpetuar o poder nas mãos da extrema direita em Buenos Aires, Quito, Santiago, Assunção e no restante da região.
Ainda que o Hemisfério esteja sendo governado em grande parte por forças conservadoras e submissas aos EUA, a realidade é que muitos dos líderes vivem situações delicadas, uma população dividida e uma profunda queda de popularidade.
O temor da Casa Branca é de que esse suposto controle sobre a região seja efêmero e que não haja tempo suficiente para permitir que a hegemonia americana seja restaurada, na dimensão que pretendem os EUA.
O que nota, em diversos países, é um despontar de forças progressistas que, nas próximas eleições, podem desafiar os aliados de Trump.
O cálculo que se faz, portanto, é que uma vitória de Flávio Bolsonaro ajudaria a desmontar a pressão sobre os demais líderes da região, já que forças de oposição e progressistas deixariam de contar com o apoio do governo brasileiro.
Neutralizar a oposição na América Latina passa, portanto, por impedir que Lula tenha mais quatro anos no poder.
Com o petista, a preocupação é de que, a cada eleição na América Latina, forças progressistas poderiam ser mobilizadas para voltar a governar. O resultado seria o esvaziamento de acordos que foram assinados entre americanos e capitais da região.
Queda de popularidade de Milei, Kast
Na Casa Branca, apesar do discurso de que “controla” a região, observadores são cientes das dificuldades que seus aliados atravessam.
Javier Milei, na Argentina, vive uma situação especialmente delicada. Sua taxa de popularidade, no mês de julho, foi de apenas 31,4%, o menor nível desde setembro de 2025. O que mais chama a atenção de observadores em Washington é que Milei, apesar do apoio explícito de Trump, continua vendo sua popularidade despencar.
O ritmo da queda tem se intensificado. Em fevereiro, tua taxa de aprovação era de 45%. Mas logo caiu para 38,5% em março, 32% em maio e, agora, pouco mais de 31%.
Não por acaso, a viagem de Milei para apoiar Flávio Bolsonaro, há poucas semanas, foi vista não apenas como um gesto de solidariedade em relação a um nome da extrema direita latino-americana. O argentino também sabe que precisa de uma derrota de Lula para que, internamente, tenha maior oxigênio e reciprocidade de um eventual governo do PL para enfrentar a oposição progressista.
No Chile, a situação de José António Kast não é das melhores tampouco. 54% dos chilenos indicaram que seu governo está pior do que se esperava em termos de segurança pública, sua principal bandeira de campanha. Depois de atingir uma taxa de 50% de aprovação em março, seus índices despencaram e hoje não passam de 35%.
No cado da Colômbia, o cálculo é diferente. Apesar da recente vitória da extrema direita na eleição presidencial, nunca as forças progressistas tiveram tantos votos e tanto apoio como agora.
Abelardo de la Espriella terá de governar diante de um movimento político liderado pela esquerda, o Pacto Histórico, que se transformou na maior força no Congresso. Além disso, o candidato derrotado, Ivan Cepeda, recebeu 12,7 milhões de votos, um recorde para os movimentos progressistas.
Em Washington, o governo sabe que essa realidade fará com que a oposição tenha força política e social para barrar reformas do novo presidente.
Mesmo na Venezuela, o temor é de que uma recuperação lenta da situação econômica leve uma parcela da população a questionar os acordos estabelecidos entre os ex-líderes chavistas e Trump.



