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sábado, 21 março, 2026
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Trump quer sufocar Cuba, mas povo é resiliente, diz Frei Betto; saiba como ajudar

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Por Chico Alves

Estrangulada pelo boicote dos Estados Unidos, especialmente com a suspensão do envio de petróleo da Venezuela, Cuba vive o momento mais delicado desde o início da revolução. Há poucos dias um apagão deixou praticamente toda a ilha sem energia elétrica, há pouco combustível para manter o sistema de transporte, faltam remédios e a comida é escassa.

A situação crítica obrigou o presidente Miguel Diaz-Canel a negociar com o governo Trump, ao mesmo tempo em que o presidente dos Estados Unidos diz que pode fazer o que quiser com o país por causa de sua “posição fragilizada”.

Em meio a esse cenário desolador, Frei Betto cumpre a mesma agenda que repete há décadas, de levar solidariedade ao povo cubano e divulgar aos brasileiros as conquistas do modelo de justiça social implantado no país. Atualmente ele assessora o governo cubano e a FAO no Plano de Soberania Alimentar e Educação Nutricional.

Nesta entrevista ao ICL Notícias, ele detalha a situação de escassez de energia que encontrou em Cuba, fala do estado de espírito da população e comenta a negociação de Diaz-Canel com Washington.

“Trump decidiu tentar eliminar Cuba pelo sufocamento, seja na falta de energia, seja na falta de alimentos”, Diz Frei Betto. “Em 67 anos de revolução, nunca o bloqueio dos Estados Unidos causou tantos problemas à população do país. Mas, por outro lado, é uma população resiliente”.

A quem quiser ajudar o povo cubano com recursos para a compra de medicamentos ele sugere contribuições ao Instituto Cultivar: “Para caracterizar que sua contribuição é destinada à compra de medicamentos para Cuba, qualquer depósito deve trazer, na casa dos centavos, 01. Ex: R$ 100,01”, explica.

Os dados são os seguintes: Instituto Cultivar: Caixa Econômica Federal – CNPJ e Chave PIX: 11.586.301/0001-65 . Em caso de dúvida entre em contato com:cultivar@institutocultivar.org.br

Apagão em Cuba. AFP
Apagão em Cuba. Foto: AFP

Situação delicada

A situação de Cuba nesse momento é bastante delicada. A energia cubana depende basicamente do petróleo importado, porque Cuba só consegue produzir uma parcela do petróleo que consome. A demanda é de 100 mil barris/dia. Cuba consegue produzir de 30 mil a 40mil. Hoje a rede fotovoltaica, paineis solares, eólica, enfim, energias alternativas é bastante significativa, mas não o suficiente para cobrir as necessidades do país. Isso, sobretudo graças à solidariedade chinesa. Porém, com as ameaças recentes do Trump. cria-se uma dificuldade maior, porque países que enviavam petróleo para Cuba, como México, por receio do aumento das tarifas, deixaram de fazer isso.

Esses países têm sido muito solidários porque têm enviado medicamentos, insumos, material escolar, enfim, sobretudo uma série de alimentos, uma série de fatores que ajudam na crise que Cuba enfrenta devido à asfixia energética. Ou seja, o Trump decidiu tentar eliminar Cuba pelo sufocamento, seja na falta de energia, seja na falta de alimentos. Se vai conseguir, o tempo dirá. O fato é que é uma pressão muito grande. Em 67 anos de revolução, nunca o bloqueio dos Estados Unidos causou tantos problemas à população do país. Mas, por outro lado, é uma população resiliente.

É um povo que já se acostumou a enfrentar muitas dificuldades para defender a sua independência e a sua soberania. Lembre-se que Cuba enfrentou a invasão da Baía dos Porcos, em 1961. No início da revolução, enfrentou a crise dos mísseis, quase ocorreu uma guerra nuclear entre a União Soviética e os Estados Unidos. Enfrentou o período especial depois da queda do Muro de Berlim, entre 1900 e 1995, e agora enfrenta esse bloqueio bastante cruel que o Trump adota, inclusive incluindo Cuba, na lista dos países promotores de terrorismo. E se há um país que sempre combateu o terrorismo, muito antes de se falar tanto nessa palavra, ou nesse fenômeno, é Cuba. Cuba sempre foi um país pioneiro no combate ao terrorismo. Basta ler o livro do Fernando Moraes, “Os cinco heróis”.

Diante dessa situação, tem havido alguns apagões. No último um ano e meio, ocorreram seis apagões de âmbito nacional. O último na segunda-feira, eu já estava aqui em Cuba, em Havana, e não se sabe a causa. Mas logo as termoelétricas passaram a funcionar e aos poucos a energia foi recuperada.

Povo cubano entre o cansaço e a esperança

Claro que a população de um lado está cansada de enfrentar tantas dificuldades, como falta de energia, perda de alimentos na geladeira (porque as vezes o apagão dura 10 horas, 15 horas, 20 horas), falta de transporte por carência de combustível. Mas é curioso: eu não sinto aqui aquilo que a imprensa de fora tanto retrata, um certo desespero, um certo desalento. Não sinto isso. Eu estou trabalhando com agricultores e agricultoras, gente do campo que está comprometida com o plano de soberania alimentar e nutricional do país. E essas pessoas falam das dificuldades, mas falam com otimismo e ao mesmo tempo, acreditando que se houver qualquer agressão bélica dos Estados Unidos, de alguma forma esse povo procurará se defender dentro das suas possibilidades, dos seus recursos.

Mas a esperança é de que, enquanto ocorre a guerra dos Estados Unidos com o Irã, um atoleiro no qual a Casa Branca se meteu, não há o risco de nenhuma agressão bélica. E, por outro lado, também a história mostrou que os Estados Unidos são mestres em derrubar governos, mas não derrubar povos. Perderam a guerra do Vietnã, perderam a guerra do Afeganistão. Porque são povos resilientes. Povos que defenderam com muita decisão a sua soberania e independência. Então, eu não saberia dizer como é que vai terminar essa história. Eu só sei dizer o seguinte: a dificuldade é real, a crise é real. Mas há uma negociação entre Cuba e Estados Unidos nesse momento, já refletindo em aberturas econômicas. Mas não creio que a revolução cubana vai admitir significativas mudanças políticas.

O povo cubano é um povo muito alegre, muito festeiro, um povo que de qualquer coisa da vida faz uma ironia, faz uma piada, enfim. E o que as pessoas dizem aqui? Pelo menos nesse grupo de camponeses e camponesas que eu me encontro e os trabalhadores aqui do setor de serviço que nos servem o almoço, lanche, as moças que trabalham na limpeza, eu tenho conversado com eles. Olha, eles dizem o seguinte: “O Trump também ameaçou tomar a Groelândia e não aconteceu nada. Ameaçou ocupar todo o Golfo do México, que ele ia mudar até o nome e não passou nada. Ameaçou ocupar o Panamá e não passou nada”. Então, sabe, eles não levam a sério o Trump.

Reflexos da escassez

Por outro lado, há aqueles que dizem : claro que a gente fica preocupado porque sabe que nós não temos condições de enfrentar uma guerra com os Estados Unidos. Eles têm um poder bélico superior a qualquer outro país do mundo. Talvez só mesmo a Rússia, a China, pudessem enfrentá los em condições mais ou menos de igualdade. Mas não estão levando muito, muito a sério. Não é uma coisa que faça as pessoas sentirem medo, ficarem aflitas, tirar o sono. A vida continua, dentro das dificuldades. Como eu já disse, as dificuldades são reais. As pessoas caminham muito por falta de transporte, mas as escolas funcionam porque tem ônibus próprio. O sistema de saúde, que é totalmente gratuito, também funciona porque existem todo um sistema de viaturas próprias para atender a parte da saúde, Enfim. E os trabalhos burocráticos, praticamente 30% dos funcionários comparecem. Os demais trabalham online ou vem uma ou duas vezes por semana. A gente nota esse decréscimo muito grande de pessoas no centro de trabalho.

Outro fator é a redução drástica dos turistas, porque várias empresas aéreas suspenderam seus voos pra Cuba, porque Cuba não tem como reabastecer as aeronaves. Mas outras mantêm. Encontrei aqui um grupo de turistas franceses e também turistas chineses, turcos e russos eu não encontrei, mas soube que estiveram aqui há um mês atrás. Mas há muitos hotéis fechados, seja por falta de turismo, seja pelo problema energético, então não estão funcionando. Em suma, eu tenho uma sensação curiosa que o temor do que Trump possa fazer hoje com Cuba é maior no exterior do que aqui mesmo na própria Cuba. Eu diria que entre aspas, a vida segue normal e ninguém está olhando para o céu para ver se vem um drone, se vem o míssil, as pessoas estão cuidando do dia a dia da vida.

Diante dessa situação, pode ser que amanhã haja uma catástrofe. Pode ser que se passe aqui o que eu imagino que já passou em Hiroshima e Nagasaki, Guernica. Cidades que tinham uma vida absolutamente normal e foram tragicamente surpreendidas por bombas, bombas atômicas no caso das cidades japonesas lançadas pelos Estados Unidos. Por isso que sempre eu caracterizo os Estados Unidos como país mais terrorista da história da humanidade. Nenhum ato terrorista supera o que a Casa Branca promoveu em Hiroshima e Nagasaki. Nem mesmo o ato terrorismo da derrubada das Torres Gêmeas em Nova York.

O presidente Lula com o Presidente da República de Cuba, Miguel Díaz-Canel Bermúdez – Palácio da Revolução – Havana – Cuba Fotos: Ricardo Stuckert / PR

Negociação de Cuba com os EUA

Eu recebi como vocês aí no Brasil receberam: pela imprensa. Díaz-Canel deu uma entrevista de duas horas falando da abertura das negociações, mas não sabemos ainda todo o teor dessas negociações, quando elas começaram e quando vão terminar. Mas é positivo, não? O fato de haver negociações de canais diplomáticos e não agressão dos Estados Unidos a Cuba. Agora há uma expectativa em Cuba que os países da América Latina sejam mais solidários. Na situação que o país está vivendo aqui, a solidariedade mais notória agora é do Brasil e do México. Os demais países ou têm uma solidariedade manifestada timidamente ou deram as costas para Cuba, como muitos do Caribe e Honduras, Guatemala, que retiraram os médicos cubanos que atuavam ali. Então, é um momento difícil. É o momento de setores progressistas mobilizarem a população em favor da revolução cubana e contra a agressão dos Estados Unidos.

Petróleo russo a caminho?

Fala-se na vinda de um petroleiro russo para Cuba, mas nada confirmado. Eu creio que não se confirma para não criar mais animosidade nas relações ou nas iniciativas diplomáticas de conversações entre Estados Unidos e Cuba. Isso porque, de certa maneira, todos sabemos que Putin jamais foi criticado pelo Trump de alguma forma. O Putin mantém o Trump sob coleira a ponto de o presidente dos Estados Unidos ostensivamente apoiar a posição russa na guerra da Ucrânia. Então, talvez seja melhor, nessa circunstância, Trump fazer vistas grossas para o navio petroleiro que estaria em direção a Cuba. Por outro lado, o governo cubano também é muito hábil em não noticiar algo que ainda não aconteceu. Então, acho que estão aguardando. Eu não posso confirmar a veracidade dessa notícia, mas os indícios que tem aqui é que há, sim, um navio petroleiro russo rumo a Cuba.

Ataque dos EUA à Ilha

Eu não sei qual será o futuro de Cuba. Tudo vai depender de quando e como termina esta tensão. O que sei é que o povo cubano está psicologicamente preparado para agressões mais fortes do que aquelas que já vêm ocorrendo. Não digo belicamente preparado. Mas não vai ser fácil o governo dos Estados Unidos ocupar a ilha, dominar e inclusive mudar a composição do atual governo cubano. O governo cubano vem fazendo concessões na área econômica, Mas o que me passa aqui muito fortemente é que jamais fará concessões na estrutura política. Ou seja, a hegemonia do Partido Comunista perdurará, com o Díaz-Canel na Presidência. Enfim, eu creio que nisso não vai se alterar.

Todos dizem aqui que depende muito do desenrolar da guerra do Irã, que possivelmente os Estados Unidos não farão um ataque bélico a Cuba enquanto durar essa guerra. Por outro lado, os Estados Unidos sabem muito bem que a proximidade de Havana com a Flórida é grande. Eu não tenho a menor ideia que tipo de armamentos possuem os cubanos, se poderia facilmente Atingir a Flórida, atingir até mesmo a residência do Trump em Mar-a-Lago. Então, eu acho que os Estados Unidos vão ter que pensar muitas vezes.

Uma notícia que corre aqui é que, descaradamente, a embaixada dos Estados Unidos em Havana pediu ao governo licença para importar combustível. Evidente que o governo, além de rir na cara deles, falou: engraçado, vocês querem preservar até os seus combustíveis, mas a população cubana, não, né? Evidente que não permitiu. Que venha combustível dos Estados Unidos. Mas ou vem para todos ou não vem para ninguém. É claro que o governo possui uma reserva estratégica e é isso que está permitindo mover algumas alguns setores da vida cubana, que continua em aparente normalidade, como saúde, educação e a própria máquina burocrática do Estado.





ICL Notícias

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