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Em meio a sussurros diplomáticos e manchetes estridentes, uma pergunta paira sobre o tabuleiro geopolítico global: qual ordem mundial está se desenhando ou, mais precisamente, se redesenhando? A resposta, longe de ser um mero exercício de futurologia, parece se materializar em tempo real, com contornos grotescos e um protagonista que desafia qualquer roteiro previsível. No centro desse furacão, com seu topete dourado quase putrefato, e um rastro de caos, está Donald J. Trump, o homem que personifica a crise e a contradição de uma era.
Contudo, para além das análises macroeconômicas e dos tratados internacionais que se esfarelam, quero aqui traçar breves notas sobre a trajetória do bravateiro, imperialista e trambiqueiro, Donald Trump. Entender a sua ascensão e, mais espantosamente, a sua resiliência, é mergulhar nas entranhas de um sistema que o produziu e que, por sua vez, é por ele devorado. Trump não é um acidente de percurso, ele é a consequência lógica, a febre que expõe a infecção purulenta do capitalismo financeiro norte-americano, um sistema que se alimenta de “crimes perfeitos” – e quase sempre impunes.
A sua carreira é um manual de como operar nas zonas cinzentas da legalidade, transformando a especulação em arte e a fraude em modelo de negócio. Desde os seus primeiros dias como um jovem e ambicioso empreiteiro em Nova York, a marca Trump foi construída sobre uma base de meias-verdades, hipérboles e uma agressividade predatória. A cidade que nunca dorme foi o seu laboratório, onde aprendeu a manipular o mercado imobiliário, a explorar a mão de obra e a tecer uma teia de influência que o protegeria de incontáveis processos e investigações. A figura de seu advogado e “faz-tudo”, Michael Cohen, que confessou ter pago pelo silêncio de atrizes pornô a mando do chefe, é apenas um vislumbre do modus operandi que se tornaria a sua assinatura: terceirizar a ilegalidade, manter as mãos limpas e, acima de tudo, nunca admitir a derrota.
Os trambiques em Nova York são lendários. A Trump Organization foi condenada em 2022 por um esquema de fraude fiscal que durou mais de uma década, uma operação meticulosa para sonegar impostos e enriquecer a família às custas do erário público. Mais recentemente, em 2024, um juiz o condenou a pagar centenas de milhões de dólares por inflar fraudulentamente o valor de suas propriedades para obter empréstimos mais favoráveis, uma prática que, segundo a Procuradora-Geral de Nova York, Letitia James, foi a base de seu império por anos. E, no entanto, cada condenação, cada revelação, parecia apenas polir a sua imagem de anti-herói para uma base de seguidores que via na sua impunidade a realização de um sonho americano distorcido.
Como já sabemos, o ápice da desfaçatez, a demonstração mais cabal de sua visão de mundo ocorreu no último dia 3 de janeiro de 2026. Em uma operação noturna que chocou o mundo, Trump autorizou o sequestro de um presidente latino-americano em seu próprio país, transportando-o para os Estados Unidos para ser julgado em um tribunal americano. A captura de Nicolás Maduro, da Venezuela, sob acusações de “narcoterrorismo”, foi um ato que remete não apenas às complexidades do direito internacional, mas à brutalidade do antigo Império Romano, onde a vontade do imperador-deus era a lei suprema.
Especialistas em direito internacional foram unânimes em classificar a ação como um “ato claramente ilegal e criminoso”. Sem um tratado de extradição, sem autorização do Congresso e em violação direta da soberania de uma nação, a operação foi a materialização da Doutrina Trump: a força bruta como único argumento. A justificativa, articulada em um memorando da administração, de que os Estados Unidos estariam em um “conflito armado” com cartéis de drogas, foi uma reinterpretação radical das leis de guerra, uma carta branca para intervenções militares unilaterais sob o pretexto de segurança nacional, nem o cadáver do temido “vida loca” Pablo Escobar está a salvo.
Este episódio não é um ponto fora da curva, mas a continuação de uma longa história de intervencionismo americano na América Latina, uma história que a “Doutrina Monroe”, em seus 200 anos, ajudou a legitimar. Originalmente concebida para afastar a colonização europeia, a doutrina foi distorcida ao longo dos séculos para justificar inúmeras invasões, golpes de estado e a imposição de regimes favoráveis aos interesses de Washington. Trump, contudo, despiu essa política de qualquer verniz diplomático. Ele é a Doutrina Monroe em sua forma mais pura e selvagem: o “Big Stick” de Theodore Roosevelt, mas sem a fineza, apenas a força.
Enquanto o mundo assistia atônito ao sequestro de um chefe de estado, a memória de outros crimes e contravenções de Trump vinha à tona. A sua relação com o financista e predador sexual Jeffrey Epstein, por exemplo, é um capítulo sombrio que a história ainda luta para digerir. Documentos e testemunhos revelam uma amizade de longa data, com festas, viagens em jatos particulares e uma proximidade que o próprio Epstein se gabava. O nome de Trump aparece centenas de vezes nos registros de Epstein, um lembrete incômodo da elite predatória com a qual ele sempre circulou, onde a exploração e a objetificação de mulheres eram a norma.
Some-se a isso a exploração sexual, a sonegação sistemática de impostos, a manipulação de informações e, finalmente, a tentativa de golpe no Capitólio em 6 de janeiro de 2021. Aquele dia foi a culminação de seu projeto de poder, a sua recusa em aceitar a realidade da derrota e a sua disposição em incendiar as instituições democráticas para se manter no comando. O ataque ao coração da democracia liberal americana, incitado por suas mentiras sobre uma eleição roubada, foi classificado por múltiplos observadores, incluindo o Comitê da Câmara e centros de estudo sobre golpes de estado, como uma “tentativa de golpe”.
E ainda assim, ele foi reeleito. Este é o fato mais desconcertante, o que nos obriga a olhar para além do homem e a encarar o espelho que ele representa. A reeleição de Trump não é apenas um fenômeno político; é um diagnóstico cultural. Ele é a encarnação do “espírito (branco) americano” em sua forma mais crua e inescrupulosa. Muito mais do que a Doutrina Monroe, ele é o bangue-bangue do Velho Oeste, a ética do pistoleiro que resolve disputas na bala, sem se preocupar com leis ou moralidade.
Ele é a jogatina de Las Vegas, a aposta alta e arriscada, a crença de que a fortuna favorece os audazes, mesmo que a audácia seja sinônimo de fraude. Ele é a exploração e a objetificação das mulheres, a cultura do “grab ‘em by the pussy”, a visão da mulher como um objeto a ser conquistado e descartado. Ele é a especulação imobiliária que transforma lares em ativos financeiros e cidades em playgrounds para os ricos. Ele é o ódio aos negros, latinos, aos imigrantes, a todos que não se encaixam em sua visão de uma América branca e hegemônica.
Em suma, isso sempre foi Trump. Ele não mudou. O que mudou foi a disposição de uma parcela significativa da sociedade americana em abraçar essa visão de mundo sem máscaras. A sua ascensão e permanência no poder revelam uma verdade incômoda: o “monstro” não estava à espreita nos portões, ele sempre esteve dentro de casa. Trump apenas abriu a porta e o convidou para a sala de estar.
Ora, a nova ordem mundial que se desenha sob a sombra de Trump é, portanto, não uma desordem, mas um caos calculado e de longa data, o caos da razão predatória do horror capitalista. É a legitimação da lei do mais forte, o desmantelamento das instituições multilaterais e a celebração do nacionalismo mais tacanho. É um mundo onde a verdade é relativa, os fatos são negociáveis e a força é o único árbitro. O sequestro de Maduro é um prenúncio sombrio do que está por vir: um planeta onde a soberania nacional é um privilégio, não um direito, e onde qualquer líder que desafie a hegemonia americana pode acordar em uma cela em Nova York, a cidade que no fim das contas é de Trump e representa a história de horror que ronda o capitalismo.
O espetáculo (no sentido que lhe atribui Guy Debord) do topete imperial, com suas bravatas e seus trambiques, continua. A questão que permanece é se o mundo assistirá passivamente a este redesenho caótico ou se encontrará algum caminho para construir uma ordem baseada na cooperação, no respeito e na justiça. A trajetória de Donald Trump nos ensina que a complacência é o caminho mais curto para aquilo que de fato é a ordem mundial: a barbárie como regra. A sua impunidade é um insulto à decência e um perigo para todos. A crônica de nosso tempo está sendo escrita, e o seu protagonista é a síntese assustadora de nossas próprias contradições. Ignorá-lo não é uma opção. Compreendê-lo, em toda a sua complexidade e perversidade, é o primeiro passo para resistir à noite que ele representa.
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