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sábado, 13 junho, 2026
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Trump não é o primeiro a sequestrar uma Copa

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Donald Trump não é o primeiro a usar a Copa do Mundo para fins políticos e nem mesmo o primeiro a sequestrar o evento. Seu antecessor, porém, guarda estranhas semelhanças em relação ao atual líder americano.

No Mundial de 1934, na Itália, a Fifa cedeu ao fascismo, permitindo que os italianos desenhassem o calendário de jogos e até escolhessem os árbitros.

Benito Mussolini entendeu que o evento poderia ser um instrumento eficiente de sua propaganda fascista. Nada melhor que um torneio de dimensões internacionais como veículo para demonstrar ao mundo as identidades nacionais e seus valores.

Il Duce não disfarçava: queria mostrar ao mundo uma “nova Itália”, corajosa, vigorosa, fisicamente atraente e, acima de tudo, superior a todos os demais países. Para isso, passou a controlar cada obra e cada detalhe do torneio. Por ordens suas, não apenas a Jules Rimet seria entregue pela Fifa ao campeão, mas também uma segunda taça, a Coppa Del Duce, bem maior, mais espetacular e mais brilhante que o troféu da Fifa.

O envolvimento do italiano no torneio foi tão grande que até o presidente da Fifa naqueles anos, Jules Rimet, chegou a dizer que quem estava organizando a Copa não era a entidade, “mas Mussolini”.

O time italiano não era o melhor do mundo, e o ditador sabia disso. Antes de a Copa começar, Roma “importou” os jogadores argentinos vice-campeões do mundo de 1930 e que tinham origem italiana. Por verdadeiras fortunas, Mussolini levou de Buenos Aires o capitão Luisito Monti, Raimundo Orsi e Enrico Gaita. A seleção argentina, assim, chegaria esfacelada ao torneio. O Uruguai, campeão de 1930, sequer faria a viagem até a Europa como forma de protestar contra a decisão da Itália de boicotar o evento quatro anos antes em Montevidéu

A Fifa, que se viu refém de um líder fascista, teve de aceitar até mesmo que o italiano selecionasse os árbitros das partidas envolvendo a Azzura. O caso mais polêmico foi a escolha do jovem juiz sueco Ivan Eklind para a partida entre os italianos e a Áustria, o melhor time do mundo na época e sensação do torneio.

O Wunderteam não só não tinha rivais como ainda contava em campo com o “Mozart do Futebol”, Mathias Sindelar. Mas o time da casa acabaria vencendo com um gol impedido e foi lançado à grande final.

Num estádio nacional em Roma convertido em palanque fascista, Mussolini via seu sonho se realizar. No dia 10 de junho de 1934, a Itália enfrentaria a Tchecoslováquia e, para a surpresa da Fifa e dos adversários, o mesmo árbitro sueco que garantiu a vitória dos italianos contra os austríacos, Eklind, seria o juiz da partida decisiva.

Mas nem assim seria fácil. O tempo regulamentar terminaria empatado em 1 x 1. Na prorrogação, Angelo Schiavio marcaria o gol do título. Quando o apito final soou, um país comemorou a conquista e, nos camarotes, Mussolini viu sua estratégia funcionar. Enquanto a seleção campeã recebia os troféus, o estádio era tomado pela “Giovinezza”, o hino fascista. No dia seguinte, um dos jornais italianos trazia em suas páginas uma manchete reveladora da instrumentalização da Copa: “Il Duce congratula os jogadores italianos pela conquista”

Quatro anos depois, na Copa na França, um episódio foi revelador. A Azzura estreou em Marselha contra a Noruega e, ao entrar em campo, foi alvo de uma estrondosa vaia. Ela ganhou ainda mais força quando, perfilados, os jogadores fizeram a saudação fascista. Numa demonstração de que não iriam se intimidar, o treinador italiano Vittorio Pozzo gritou do banco de reservas quando o hino terminou: “Salute!”. E os jogadores voltaram a estender o braço ao ar, desafiando a multidão.

Nos jogos seguintes, os protestos continuariam, inclusive com a presença nos estádios de dissidentes italianos que, diante do fascismo, tinham fugido para a França.

Mas seria nas quartas-de-final que a Itália mandaria seu recado ao mundo democrático. O jogo seria contra os franceses, os anfitriões. Pelas regras, os donos da casa jogariam com seu uniforme oficial, o azul. Caberia aos italianos usarem a camisa branca.

Mas uma ordem enviada de Roma pelo próprio Mussolini ditou que a Itália entraria em campo com a Camicia Nera, a camisa negra.

Não era por acaso. As camisas negras vestiram os primeiros esquadrões fascistas, os Squadre d’Azione, criados em 1919 para atacar os socialistas, republicanos, católicos e sindicalistas. Centenas de pessoas foram mortas à medida que essas milícias aumentavam em número e dominavam as ruas.

A cor e a camisa — sem nada mais sobre ela — eram mais que apenas um uniforme. Faziam parte de um culto da morte. Era o reconhecimento de uma força paramilitar intransigente. Foram as marchas dos Camisas Negras que, armados, catapultaram Mussolini ao poder e, em 1923, foram oficialmente transformados em uma milícia nacional.

Era aquilo que estava em campo, em 1938. A seleção fascista venceria a França por 3 a 1, e passaria para a semifinal, justamente para superar também o Brasil e caminhar para seu bicampeonato.

Trump, quase cem anos depois e com sua popularidade em níveis extremamente baixos, sabe que o Mundial chega em um momento crucial para que ele possa desviar a atenção de uma economia abalada pela inflação e de uma guerra polêmica.





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