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domingo, 26 abril, 2026
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Tiros na ‘Cena’: O espetáculo da violência americana

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Quando o som seco dos disparos interrompeu a pompa da cena do jantar com correspondentes da Casa Branca, obrigando a evacuação apressada do presidente Donald Trump, o mundo reagiu com o habitual choque protocolar. O suspeito-atirador, Cole Allen, um professor californiano de 31 anos, foi rapidamente classificado pelas narrativas oficiais como mais um “lobo solitário” – um desvio estatístico em uma democracia consolidada. No entanto, a repetição coreografada deste roteiro exige que abandonemos o conforto do jogo de cena. O último atentado contra Trump não é uma anomalia, mas a engrenagem perfeitamente lubrificada da reificação de uma sociedade das armas, cuja marca de formação é a própria violência.

A história norte-americana é um vasto cemitério de presidentes e candidatos, um fato que desmente a tese do lobo solitário como um acidente de percurso. Desde que as pistolas de Richard Lawrence falharam contra Andrew Jackson em 1835, a bala tornou-se o principal instrumento de veto político nos Estados Unidos. Quatro presidentes em exercício tombaram assassinados: Abraham Lincoln (1865), no apagar das luzes de uma guerra civil fratricida; James A. Garfield (1881), vítima de um cargo negado; William McKinley (1901), abatido pelo por Leon Czolgosz; e John F. Kennedy (1963), cuja morte em Dallas permanece como o grande trauma televisivo da nação. Outros tantos, de Theodore Roosevelt a Ronald Reagan, carregaram no próprio corpo o chumbo de uma sociedade que resolve suas contradições pelo cano de uma arma. Reduzir esses eventos a patologias individuais é ignorar que a violência política é o mote estrutural da história dos Estados Unidos.

Apesar do verniz institucional e da retórica da “cidade sobre a colina”, a história da violência interna nos Estados Unidos é a sua própria certidão de nascimento. A democracia americana, tão incensada globalmente, sempre foi um clube fechado para alguns poucos eleitos, estruturada sobre a exclusão sistemática da maioria. O “Destino Manifesto”, ideologia que justificou a marcha para o Oeste, foi a racionalização teológica para o genocídio e a expulsão forçada de milhões de indígenas, cujas terras e corpos foram o primeiro combustível do motor americano. Da mesma forma, a prosperidade da nação foi erguida sobre os ombros da escravidão negra e mantida pela segregação, pelos linchamentos e pelo encarceramento em massa. Hoje, essa mesma máquina tritura corpos latinos nas fronteiras e nas periferias urbanas. A violência não é uma falha do sistema, ela é o sistema.

Quando os Estados Unidos romperam definitivamente seu isolacionismo na Segunda Guerra Mundial, assumindo o manto de polícia do mundo, eles nunca deixaram de ser violentos. Apenas exportaram sua lógica de nascença. O imperialismo americano é a expansão global da mesma violência estrutural que dizimou os indígenas e escravizou africanos. A Doutrina Monroe e, mais tarde, a Guerra Fria, serviram de pretexto para uma série ininterrupta de intervenções militares e mudanças de regime, especialmente na América Latina. A derrubada de Jacobo Árbenz na Guatemala (1954), o apoio ao golpe militar no Brasil (1964) e o sangrento patrocínio ao regime de Augusto Pinochet no Chile (1973) são ecos externos da mesma mentalidade que resolve conflitos internos à bala. A exportação da “democracia” americana foi, na verdade, a exportação de sua violência formadora.

O atentado contra Donald Trump, portanto, não pode ser lido no vácuo. Quando o ex-presidente exige, após os tiros, a construção de um salão de baile blindado de milhões de dólares na Casa Branca, ele ilustra a resposta crônica da América à sua própria criação: mais muros, mais armas, mais isolamento. O lobo solitário é apenas o produto final de uma linha de montagem cultural que sacraliza a arma de fogo e fetichiza a força. A violência que tenta abater o presidente é a mesma que sufoca o negro sob o joelho da polícia, a mesma que encarcera o latino, a mesma que financia golpes de estado ao sul do Equador e a mesma que patrocina as guerras no Oriente Médio.

A sociedade americana – talvez todo Estado Nacional na modernidade – é uma serpente que morde a própria cauda. Enquanto a narrativa oficial continuar buscando explicações em manifestos de atiradores perturbados, ignorará o elefante na sala: uma nação forjada no sangue e expandida pelo império não pode esperar que seus conflitos internos sejam resolvidos com palavras. O tiro que ecoou na “Cena de Corresponsais” está longe de ser um ato isolado, foi apenas mais um tique-taque no relógio catastrófico da máquina da violência americana. Não nos iludamos, a democracia americana sempre foi a grande força e farsa do Capitalismo contemporâneo. Tudo está – incluindo Trump como “perigoso presidente”- em seu devido lugar.

“O assassinato do presidente Lincoln no Teatro Ford, em Washington D.C., em 14 de abril de 1865. Fonte: Currier & Ives (americana, ativa em Nova York, 1857–1907). A litografia acima registra o momento chocante em que Abraham Lincoln foi baleado por John Wilkes Booth. Como ator famoso, Booth tinha livre acesso ao Teatro Ford e havia ido lá buscar sua correspondência em 14 de abril, quando soube da intenção do presidente de assistir a uma peça naquela noite. Booth era o líder de um grupo de conspiradores pró-Confederados determinados a impedir a derrota do Sul e, quando Robert E. Lee se rendeu a Ulysses S. Grant em 9 de abril, eles decidiram matar Lincoln e outros líderes importantes da União, na esperança de desestabilizar o esforço de guerra e permitir que os exércitos confederados ainda em campo se reagrupassem.” Fonte: https://www.metmuseum.org/art/collection/search/430813.

 





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