Por Carolina Ferreira
As tensões entre Estados Unidos e Venezuela escalaram nos últimos meses. Desde agosto, quando Washington anunciou o envio de navios e aeronaves militares para o sul do Caribe, as forças estadunidenses têm realizado ataques a embarcações próximas à costa venezuelana sob a justificativa de combater o narcotráfico. Ao menos cinco barcos foram afundados desde 2 de setembro, resultando na morte de 27 pessoas.
Na semana passada, o conflito ganhou um novo capítulo. A confirmação de que Donald Trump autorizou a CIA a conduzir operações secretas dentro da Venezuela e em águas caribenhas reacende temores sobre uma possível intervenção direta dos Estados Unidos na região.
Diante desse cenário, o ICL Notícias ouviu especialistas para analisar as motivações, possíveis consequências e o papel do Brasil diante dessa escalada que ameaça a estabilidade latino-americana
O que está por trás do conflito
Washington justifica a ofensiva contra a Venezuela como parte da guerra ao narcotráfico, alegando que as embarcações atacadas estariam ligadas a operações de tráfico de drogas. No início de outubro, Trump declarou que os Estados Unidos estão em “conflito armado” contra os cartéis, além de classificar alguns desses grupos como organizações terroristas, ampliando o alcance das ações militares sob a justificativa de segurança nacional.
Para especialistas, o discurso antidrogas adotado pelos Estados Unidos funciona apenas como uma “cortina de fumaça”. Para o professor de Relações Internacionais da Universidade Federal do ABC (UFABC), Gilberto Maringoni, “o motivo mais evidente é tomar posse das maiores reservas de petróleo do mundo”. Ele lembra que, embora várias empresas estrangeiras tenham concessões para explorar as áreas de extração, incluindo a estadunidense Chevron, “nada garante que reviravoltas políticas não possam interromper esse fluxo”.
Maringoni ressalta ainda que a ofensiva norte-americana deve ser entendida dentro da disputa de hegemonia global entre Estados Unidos e China. “A Venezuela tem como principais aliados justamente a Rússia, maior fornecedora de equipamentos militares, e a China, sua principal parceira e investidora internacional. Enfrentar esses dois países abertamente teria custos políticos altos demais. O discurso antidrogas funciona aqui como um álibi, como um policial que forja um flagrante ao colocar um pacote de maconha no bolso de uma vítima”, compara.
Para a professora de Relações Internacionais da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), Carolina Pedroso, a postura dos Estados Unidos em relação à América Latina está ligada ao projeto MAGA (Make America Great Again). “A partir de uma premissa de que, para que se restabeleça a grandiosidade do que teriam sido os Estados Unidos, é necessário uma condição sine qua non: a América Latina voltar a ser submissa aos interesses norte-americanos”, afirma. Segundo ela, essa agenda já existia no primeiro governo Trump, mas “agora ele vem com muito mais força, muito mais musculatura para ir além de bravatas”.
Assim como Maringoni, a professora também destaca a importância geopolítica da Venezuela na região e no cenário global. “A Venezuela não é só um país sul-americano. Ela faz parte de uma arena de disputa global. É um país que, ao longo dos últimos 25 anos, durante a Revolução Bolivariana, foi se reposicionando e se aproximou da Rússia e da China. O país tem laços importantes com o Irã, a Turquia e, claro, é detentor das maiores reservas de petróleo do mundo. Por isso, a Venezuela tem caráter geopolítico, não apenas simbólico.”
Além disso, explica que Trump não cria novas políticas, mas explora e explicita interesses históricos dos Estados Unidos na América Latina. “Ele não inova, mas recombina políticas pré-existentes – guerra contra as drogas, guerra contra o terrorismo, política de deportação -, e direciona de forma mais agressiva para a América Latina. Ele exagera no tom, mas aproveita estruturas que foram abertas por outras administrações.”
“A escolha do Caribe para realizar esses ataques é justamente a interrogação que muitos fazem, inclusive nos Estados Unidos”, revela o jornalista Jamil Chade. Ele explica que os principais centros de produção e distribuição de cocaína para os Estados Unidos, são Peru, Bolívia e Colômbia, ou seja, “nesses países, as principais rotas passam pela América Central, mas pelo lado do Pacífico, já que tanto Colômbia quanto Peru têm saída para esse oceano. É justamente essa costa que é usada para que a droga chegue, pelo mar, até a América Central e, de lá, aos Estados Unidos”, afirma Chade.
Além disso, a falta de transparência sobre as operações também tem sido criticada por parlamentares democratas. Eles questionam as motivações e as informações relacionadas a cada embarcação atacada. Uma resolução apresentada no Senado americano exigindo que o governo de Donald Trump divulgasse detalhes sobre a ofensiva foi vetada pela base republicana.
Papel do Brasil
A América Latina vive uma divisão profunda, avalia o jornalista Jamil Chade. A Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (CELAC), por exemplo, segue sem consenso sobre temas centrais, como a crise na Venezuela ou as ações dos Estados Unidos no Caribe. Já a Organização dos Estados Americanos (OEA) continua marcada por fortes divisões internas. O Mercosul, por sua vez, se limita hoje a um bloco de caráter comercial, estagnado politicamente pelas disputas entre seus integrantes. Outros projetos de integração regional também não retomaram o protagonismo que o Brasil esperava alcançar com o retorno de Lula ao poder, destaca Chade.
Ele alerta que “o governo americano instrumentaliza esse racha regional para enfraquecer a região. A América Latina enfrenta esse desafio em condição de fragilidade, vivendo um verdadeiro diálogo de surdos entre seus próprios países. Há governos que nem sequer se falam ou que têm interesses tão distintos que não conseguem mais construir uma posição comum sobre temas internacionais. Isso tem, sem dúvida, impacto direto para o Brasil”.
O país que busava ser peça-chave na América do Sul e protagonista na retomada de um projeto de integração regional hoje enfrenta questionamentos sobre sua liderança. Segundo Jamil Chade, o Brasil tem dificuldade em consolidar uma iniciativa regional devido à forte influência dos Estados Unidos, que se manifesta por meio de pressões e até mesmo de formas de chantagem dirigidas sobretudo aos países de menor força na região . Esse cenário, afirma o jornalista, enfraquece a capacidade brasileira de se firmar como principal interlocutor da América Latina.
Para Pedroso, o Brasil tem um papel estratégico no contexto atual, tanto pela necessidade de recompor relações com os Estados Unidos em termos menos desfavoráveis, quanto pela posição geográfica e política na região. “O governo Lula tem sido muito cuidadoso em fazer a separação entre a agenda comercial e a agenda política, colocando o Brasil de maneira assertiva na mesa de negociação para não aceitar, de saída, que determinados temas, como a questão da soberania, entrem nessa agenda. Por esses motivos, o Brasil já seria um ator relevante para eventualmente mediar ou tentar diminuir a tensão entre Estados Unidos e Venezuela”, afirma.
A professora ainda lembra que o país também está diretamente exposto a um eventual conflito. “Somos, junto com a Colômbia, um dos países mais prejudicados por uma escalada beligerante. O Brasil tem uma longa tradição na construção de pontos pacíficos na América do Sul. Uma guerra de larga escala não ocorre na região há mais de cem anos, e o país tem experiência em liderar processos de estabilização, como no caso da tensão entre Colômbia, Venezuela e Equador em 2008. Hoje, com um cenário de risco crescente, o Brasil reúne as condições para exercer um papel de liderança pacífica e tentar dissuadir uma escalada do conflito”, ressalta.
*Carolina Ferreira é historiadora, estudante de jornalismo e analista de mídias do ICL Notícias.



