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terça-feira, 17 fevereiro, 2026
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Tarcísio pode se tornar o próximo João Doria

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Por Cleber Lourenço

O destino político de Tarcísio de Freitas pode repetir a trajetória de João Doria. Ambos surgiram como quadros promissores, venderam a imagem de gestores eficientes e tentaram equilibrar moderação com radicalismo. No fim, acabaram enredados em contradições, isolados por falta de apoio consistente e acuados pelo estigma mais devastador da política: a traição.

No caso de Tarcísio, o cerco se fecha por todos os lados. Fontes do PSD, ligadas a Gilberto Kassab, apontam que ele não tem estofo político para conduzir um tema tão complexo quanto a anistia. No próprio partido, ainda não houve qualquer adesão formal à proposta. Ao contrário, o PSD se posicionou contra o pacote da impunidade na PEC das prerrogativas, alinhando-se ao governo e mantendo distância de iniciativas consideradas arriscadas ou mal formuladas. Essa resistência interna evidencia que o governador não conseguiu sequer convencer sua própria base de apoio institucional.

Do outro lado, no PL e na família Bolsonaro, cresce a desconfiança. Nesta semana, informações já apontavam que aliados próximos do clã se incomodaram com a possibilidade de Tarcísio negociar uma anistia que livrasse Jair Bolsonaro da prisão, mas sem devolver-lhe os direitos políticos.

Para a família, essa hipótese equivaleria a “fazer Bolsonaro de refém”, deixando-o livre, mas inelegível em 2026. A reação foi imediata. Eduardo Bolsonaro, em tom de ultimato, publicou hoje (5): “Qualquer anistia que não seja ampla e irrestrita não será aceita”. O deputado acusou setores de tentar chantagear o ex-presidente e avisou que conversará com a base do PL para barrar iniciativas nesse sentido. A fala funcionou como recado público e ampliou a pressão sobre Tarcísio.

Esse não é um ponto isolado. Tarcísio já é alvo recorrente de influenciadores bolsonaristas, como o youtuber Kim Paim, que o acusa constantemente de traição. No bolsonarismo, a palavra “traidor” carrega um peso quase irreversível. Foi assim com João Doria, que, após romper com Geraldo Alckmin, viu sua carreira política ser implodida por esse estigma. Sem apoio consistente e rejeitado pelos dois lados, Doria acabou deixando a vida pública por inviabilidade eleitoral. O paralelo é inevitável e assombra o atual governador paulista.

Enquanto isso, em setores da direita paulista, Tarcísio é visto de forma oposta: não como traidor, mas como submisso a Bolsonaro. Essa percepção ganhou corpo em editoriais e artigos de grandes jornais de São Paulo na última semana e ecoou até mesmo na Faria Lima. Assim, para uns, é submisso; para outros, é traidor. Essa dupla pecha é politicamente insustentável, especialmente para alguém que ainda não consolidou base própria.

O histórico de erros de leitura política só reforça esse quadro. O episódio do tarifaço de Donald Trump é o exemplo mais recente: Tarcísio primeiro se alinhou ao trumpismo, depois recuou, em seguida ensaiou posições dúbias e, por fim, tentou negociar por conta própria uma redução de tarifas. Essa movimentação foi malvista tanto pelo governo federal quanto pelo próprio bolsonarismo. Ao agir sem a intermediação de Kassab, Tarcísio expôs sua fragilidade como articulador e aumentou a desconfiança até mesmo entre aliados próximos.

É importante registrar que Tarcísio nunca foi um moderado, embora tente se vender assim em alguns círculos. Seu governo em São Paulo tem sido marcado pelo aprofundamento da violência policial e pelo descontrole da segurança pública. As críticas por conta da alta letalidade policial se multiplicaram, e, quando questionado, Tarcísio reagiu de forma jocosa, afirmando que jornalistas poderiam buscar a Liga da Justiça ou a ONU, demonstrando descaso com denúncias de violações de direitos humanos. Esse episódio reforça a imagem de que a moderação que tenta exibir é apenas fachada.

Entre ser tachado de submisso por uns e traidor por outros, e ainda acumular episódios de má avaliação de cenário, Tarcísio corre o risco de se tornar um político inviável. Seu dilema se resume a uma equação sem saída: se cede ao centro, perde a extrema direita; se segue a extrema direita, aliena o centro. Em ambos os casos, pavimenta uma trajetória que pode reproduzir a de João Doria — a do político que parecia ter tudo, mas acabou encurralado, sem rumo e sem futuro eleitoral.



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