O avanço do superendividamento no Brasil tem reduzido de forma significativa a capacidade de consumo das famílias, mesmo em um cenário de crescimento da renda e melhora no mercado de trabalho. Estudo do banco Daycoval aponta que o comprometimento elevado da renda com dívidas diminui em cerca de 40% o impacto positivo da massa salarial sobre o consumo — um dos principais motores da economia.
A análise, assinada pelos economistas Rafael Cardoso, Julio Cesar Barros e Antonio Ricciardi, indica que o fenômeno já se consolidou como um dos principais entraves à expansão do consumo no país, com efeitos diretos sobre o ritmo de crescimento econômico.
De acordo com o levantamento, em cenários de baixo endividamento, cada aumento de 1 ponto percentual na massa salarial resulta em alta de 0,29 ponto percentual no consumo das famílias. No entanto, quando o endividamento está elevado, esse efeito cai para 0,17 ponto percentual.
Na prática, isso significa que parte relevante da renda adicional deixa de se transformar em consumo e passa a ser direcionada ao pagamento de dívidas. Segundo o estudo, esse enfraquecimento da relação entre renda e consumo ajuda a explicar por que o consumo das famílias tem reagido menos, apesar da melhora nos indicadores de emprego e renda.
O peso do endividamento
Os economistas identificaram que o impacto negativo se intensifica quando o endividamento das famílias supera cerca de 39% da renda acumulada em 12 meses. Atualmente, esse indicador está bem acima desse patamar.
Dados do Banco Central mostram que a relação entre dívida e renda saiu de 17% em 2005 para 49,7% em janeiro de 2026, evidenciando uma tendência de alta ao longo das últimas duas décadas.
Nesse contexto, o crédito passa a ter papel mais relevante na sustentação do consumo. Famílias altamente endividadas recorrem a novas linhas de financiamento para manter o padrão de gastos, ampliando o ciclo de comprometimento financeiro.
Consumo abaixo do potencial
O estudo estima que, sem o efeito do superendividamento, o consumo das famílias teria crescido 10,8% desde 2023 — três pontos percentuais acima do observado (7,8%). Apenas em 2025, a diferença teria sido de 3,6 pontos percentuais.
Os dados reforçam a percepção de que o atual nível de endividamento não apenas compromete o orçamento das famílias, mas também reduz o potencial de crescimento da economia como um todo.
Parte relevante do aumento do endividamento está associada à expansão do crédito imobiliário, especialmente nos períodos entre 2010 e 2015 e a partir de 2021. Além disso, modalidades de crédito mais caras, com juros elevados, têm avançado sobretudo entre as famílias de baixa renda.
Mesmo com a taxa básica de juros, a Selic, em patamar elevado (14,75% ao ano), essas linhas continuam crescendo, o que contribui para agravar a situação financeira de parte da população.
Atualmente, as famílias destinam cerca de 29% da renda mensal ao pagamento de dívidas — o maior nível em pelo menos duas décadas. Desse total, mais de um terço corresponde apenas a juros.
Resposta do governo e desafios
Diante do cenário, o governo federal trabalha na formulação de um novo programa de renegociação de dívidas, com foco em ampliar descontos e facilitar o refinanciamento dos débitos.
A proposta em discussão prevê a criação de mecanismos que incentivem bancos e instituições financeiras a oferecer condições mais favoráveis, possivelmente com algum tipo de garantia pública para viabilizar taxas de juros menores.
Especialistas avaliam, no entanto, que a redução do superendividamento depende de um conjunto mais amplo de medidas, que vá além da queda dos juros e inclua estratégias estruturais para reequilibrar o orçamento das famílias.
Perspectivas
Embora a redução das taxas de juros possa aliviar o custo do serviço da dívida, isso não garante, por si só, uma diminuição do nível de endividamento. Sem um processo mais amplo de desalavancagem, o consumo tende a seguir limitado, mesmo em um ambiente de renda crescente.
Nesse cenário, o superendividamento se consolida como um dos principais desafios para a economia brasileira, ao restringir a capacidade de consumo das famílias e enfraquecer a transmissão do crescimento da renda para a atividade econômica.



