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sábado, 31 outubro, 2026
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Soberania nas redes – ICL Notícias

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Boa parte do debate público brasileiro, além da nossa comunicação e até negócios, acontece em plataformas digitais estrangeiras. As regras desses espaços podem mudar da noite para o dia com um ajuste de algoritmo ou um bloqueio de conta e há muito pouco que se possa fazer aqui do Brasil.

A eleição de 2026 deixou isso bastante claro. A disputa por atenção ficou afunilada no Instagram e WhatsApp, espalhada por milhares de perfis e grupos, todos hospedados em servidores e sob regras de empresas que respondem a interesses comerciais e políticos de outro lugar.

Quem controla essas plataformas não esconde seus objetivos, nem que o que pensa sobre regras locais. Em janeiro de 2025, Mark Zuckerberg, fundador do Facebook e dono do Instagram e do WhatsApp, disse que “América Latina mantém tribunais secretos de censura” e que “governos estrangeiros atrapalham empresas dos EUA” e que “enfrentaria isso em parceria com o presidente Donald Trump”. Tudo isso sem apresentar nenhuma prova das acusações.

Pouco mais de um ano após essa fala, algumas situações envolvendo tratamentos diferentes as campanhas dos candidatos Lula e Flavio Bolsonaro, do bloqueio de anúncios legítimos a limitações na IA do WhatsApp para criar santinhos de um, mas não de outro, causaram desconfiança. Para a empresa que controla os principais canais de conversa do Brasil, as regras locais muitas vezes são apenas um obstáculo comercial a ser vencido.

Soberania nas redes de mídias sociais, antes um tema inchado, agora chegou de vez ao centro do poder. No discurso de vitória, Lula falou em intromissão das plataformas digitais e prometeu regulação, algo que vem sendo debatido de forma menos visível há anos. A tensão entre o poder das plataformas liberdade de expressão e regulação é palpável. Exigir prestação de contas não obriga ninguém a aceitar qualquer mecanismo de remoção de conteúdo.

Sob a bandeira da liberdade de expressão, algumas empresas de big tech operam sem explicar decisões opacas que atingem milhões de brasileiros. No episódio 387 do Resumido, contei do teste que fiz com a Meta AI em plena campanha que mostra bem por que a falta de transparência desse aplicativos entrou na pauta.

O Brasil é uma potência tecnológica. O Pix é uma infraestrutura de pagamento sob governança brasileira que provou ser possível criar sistemas de interesse público sem entregar todas as regras a uma empresa privada. Num vídeo de campanha, com voto declarado, o rapper Emicida citou o Pix e o SUS como provas de que o país sabe construir coisas próprias. Ele falou do tempo e dados capturado por essas plataformas e como nossas vozes, sotaques, músicas, jeito de falar e o conhecimento das comunidades alimentam máquinas que aprendem com tudo isso.

Não importa seu candidato, o questionamento levantado pelo Emicida atinge o cerne do debate sobre IA. É preciso estabelece regras sobre quem decide como esse patrimônio cultural é usado e quem participa do valor extraído da vida digital brasileira. Um país que produz os dados, a cultura e a audiência não pode deixar para outros todas as decisões ou arrisca ficar sem voz justamente nos espaços onde as conversas acontecem.

A busca por soberania digital é o caminho para encarar esses desafios.





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