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quarta-feira, 13 maio, 2026
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Simplesmente Beth, Absolutamente Clarice – ICL Notícias

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Era uma daquelas sextas-feiras intensas que apenas São Paulo sabe forjar. O dia havia sido uma sucessão implacável de aulas, reuniões e a insistente, aguda dor de uma hérnia de disco que teimava em me lembrar da fragilidade do corpo no Império da Ordem Neoliberal. Caminhando pelas ruas, sentia o receio de não me recuperar – não apenas da dor física, mas do mundo, do caos dessa metrópole avassaladora que nos consome aos poucos. Reclamo, mas gosto, não da “São Paulo Sociedade Anônima” do trânsito brutal e do cansaço, mas do seu cosmopolitismo. Em meio à voragem dos ponteiros, decidi que era hora de suspender o tempo do capital. O destino não era o alívio imediato, mas a transcendência: o templo do teatro, da liberdade.

Há tempos eu ansiava por ver a atriz Beth Goulart em ação. E o destino, em sua quase invariável atroz comédia da existência, desta feita resolveu ser generoso. Não apenas a vi, como presenciei a reestreia da peça “Simplesmente eu, Clarice Lispector” em São Paulo – e com um convite especialíssimo da própria Beth. Que sorte a minha! Em um único golpe de sorte e beleza, ganhei o dia, a noite, a semana, o ano. O retorno de Beth à capital paulista com a peça, após dezesseis anos, não foi apenas um evento cultural, mas sim um ritual de catarse, um oásis no deserto de concreto.

No palco, o que se descortinou foi uma arrebatadora interpretação. Beth, da nobilíssima linhagem dos Bruno (Nicette) e dos Goulart (Paulo), não apenas faz Clarice; ela se transubstancia na escritora de alma devoradora e devorada pela palavra. Diante dos meus olhos, vi uma Clarice que é intérprete da dor do mundo. Uma mulher escritora no mundo e do mundo (imigrante ucraniana), desnudando a mãe e a maternidade, o corpo, a indumentária, a elegância feminina. Vi as angústias feministas pulsarem na voz de Beth, mas que é – no texto e no sotaque feito por ela – a cortante e fascinante voz de Clarice, ecoando a incrível e poética palavra – ora alegre, ora amarga – desse fenômeno chamado Lispector. Dessa intérprete do Brasil e dessa fascinante “mãe” generosa de todas as dúvidas, que entre uma elegantérrima tragada no cigarro e batidas na máquina de escrever, nos hipnotiza. Clarice-mãe, que perdeu a mãe aos 10 anos…quem é que se recupera quando uma mãe salta fora da ponta da vida? Nunca mais se é a mesma pessoa.

A encenação minimalista, numa trilha impecável que embala a dúvida existencial, o cenário quase onírico, os movimentos de Beth – num poético ballet – e a iluminação precisa serviram de moldura para que a alma de Clarice tomasse conta do espaço. A cada gesto, a cada inflexão de voz, Beth nos lembrava de que o amor (e muito dos seus dissabores) é o eixo central da obra clariceana – o amor maternal, ao próximo, aos escritos para aplacar a dor, aos Deuses que inventamos e que nos inventam, à natureza e à vida. E eu ali, sentado na penumbra, observava atento a prosa-poética em movimento, as muitas Clarices e a mesma e única Clarice-Macabea, sempre atenta ao doce, mas brutal fluxo da vida, essa espera linda e tantas vezes trágica da única certeza: a morte.

Beth-Clarice nos repõe o fôlego para enfrentar o mundo, vasto mundo, que tem sido tão sem rima, sem Raimundos e cheio de soluções autoritárias. Viva o teatro! E que alívio passar duas horinhas longe das telas, vendo gente que brilha, vida que pulsa, amor que transborda.

Beth Goullart em cena como Clarice Lispector. Fonte: Lenise Pinheiro/Divulgação

***

Peça: “Simplesmente eu, Clarice Lispector, de Beth Goulart”

Sinopse

Clarice Lispector conversa com o público sendo ela mesma e suas personagens, quatro mulheres que, para Beth Goulart, representam as várias facetas de Clarice: Joana, que representa impulso criativo selvagem de “Perto do Coração Selvagem”; Ana, do conto “Amor”, que representa a fase da autora dedicada ao marido e aos filhos; Lori, da obra “Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres, uma professora primária que se prepara para descobrir e se entregar ao amor; e uma personagem sem nome do conto “Perdoando Deus, com sua ironia, inteligência e humor.

Serviço

Local: Teatro Moise Safra (Rua Prof. Walter Lerner, 315 – Barra Funda, SP)
Temporada: De 08 de maio à 28 de junho de 2026
Horários: sextas às 20h, sábados e domingos às 19h
*Sessões Rede de Apoio às 11h nos dias 10/05 e 13/06
**Sessões com LIBRAS nos dias 23/05 e 13/06
Classificação: 12 anos
Duração: 60 minutos
Capacidade: 420 lugares





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