Por Opera Mundi
Os coletivos Árabes e Judeus pela Democracia, Árabes e Judeus pela Paz, Articulação Judaica de Esquerda e Vozes Judaicas por Libertação denunciam que foram impedidos de se pronunciarem durante o seminário Enfrentamento ao antissemitismo, que acontece nesta quinta-feira (16) no Palácio do Itamaraty, em Brasília
Em nota conjunta, as entidades relatam que, em reunião realizada na terça-feira (14), a proposta das organizações de garantir ao menos dez minutos de fala foi “desconsiderada pela coordenação geral, por meio de Clara Ant“, assessora presidencial e coordenadora do evento.
“Nossa ausência não é uma escolha. Tivemos nosso direito à fala bloqueado pela coordenação do evento, mesmo integrando o Grupo de Trabalho sobre Antissemitismo instituído pelo governo federal”, diz o texto.
As entidades repudiam a ausência de pluralidade nas discussões do seminário que conta com presença majoritária de lideranças sionistas, com representantes da Confederação Israelita do Brasil (CONIB) em suas três mesas de debates, incluindo a participação de seu presidente, Cláudio Lottenberg.
Elas alertam que realizar o evento no Dia Nacional da Lembrança do Holocausto, sem garantir pluralidade, não é um gesto neutro: “trata-se de mobilizar uma data fundamental da memória do Holocausto para promover vozes alinhadas a uma agenda sionista no Brasil — o que constitui uma afronta à própria memória que se pretende preservar”.
“Não participaremos de um espaço que nos nega voz”, afirmam, reiterando que seguirão “atuando nos Grupos de Trabalho estabelecidos pelo governo federal” e afirmando que “a comunidade judaica é plural” e que “o sionismo não é um ponto de convergência”.
Confira a íntegra do texto:
“Seminário sobre antissemitismo interditado:
Vozes Judaicas Dissidentes ficam de fora de evento no Itamaraty
Nós, coletivos judaicos brasileiros, Árabes e Judeus pela Paz, Articulação Judaica de Esquerda e Vozes Judaicas por Libertação, informamos que não participaremos do seminário Enfrentamento ao antissemitismo, organizado pelo Itamaraty.
Nossa ausência não é uma escolha. Tivemos nosso direito à fala bloqueado pela coordenação do evento, mesmo integrando o Grupo de Trabalho sobre Antissemitismo instituído pelo governo federal. Em reunião realizada em 14/04, no âmbito desse grupo, houve uma escuta da representação do Itamaraty, com proposta de garantir ao menos dez minutos de fala aos nossos coletivos — desconsiderada pela coordenação geral, por meio de Clara Ant.
O seminário foi estruturado sem uma real pluralidade. Privilegia organizações sionistas (inclusive aquelas que reiteradamente atacam o presidente Lula e seu governo, com posições alinhadas à extrema direita, como é o caso da CONIB) e exclui setores judaicos declaradamente solidários à Palestina. Com isso, reforça-se a falsa equivalência entre antissionismo e antissemitismo, restringindo o debate público a um único campo ideológico.
O Brasil já dispõe de legislação adequada para o combate ao racismo, em especial a Lei nº 7.716/1989, que abrange o antissemitismo. Ainda assim, o governo prevê a elaboração, em seis meses, de uma Estratégia Nacional de Enfrentamento ao Antissemitismo, mobilizando ao menos oito ministérios. Esse movimento suscita preocupações quanto à possível excepcionalização do tema, criando categorias ou interpretações que confundam críticas a Estados, governos ou ideologias com racismo.
Se há disposição governamental para enfrentar o racismo de forma estruturada, isso deve ocorrer de maneira ampla e isonômica. A centralidade conferida ao antissemitismo contrasta com a ausência de respostas equivalentes a outras formas de discriminação que também vêm se intensificando no país. Pesquisa coordenada por Francirosy Campos Barbosa aponta um aumento expressivo da islamofobia no Brasil após 7 de outubro de 2023, evidenciando que o enfrentamento ao racismo não pode ser seletivo nem hierarquizado.
Nesse contexto, nos posicionamos contra iniciativas legislativas que buscam ampliar ou redefinir o conceito de antissemitismo de modo a restringir o debate público, como o projeto de lei apresentado pela deputada Tabata Amaral, que propõe a adoção da definição de antissemitismo da IHRA (International Holocaust Remembrance Alliance), amplamente criticada por especialistas, organizações de direitos humanos e acadêmicos por incluir exemplos que associam críticas ao Estado de Israel a formas de antissemitismo. Essas formulações aprofundam a confusão entre crítica política ao Estado de Israel e discriminação contra judeus, podendo restringir o debate legítimo e a liberdade de expressão.
A adoção de definições ampliadas de antissemitismo representa um risco. Pode criar distinções indevidas entre formas de discriminação e enfraquecer o princípio da igualdade. Também abre margem para criminalizar posições políticas críticas ao Estado de Israel. Isso fere a liberdade de expressão e instrumentaliza o combate ao racismo para fins de blindagem ideológica. Além disso, contribui para legitimar graves violações de direitos humanos, entre as quais se destaca o genocídio em Gaza.
Realizar esse evento no Dia Nacional da Lembrança do Holocausto, sem garantir pluralidade, não é um gesto neutro. Trata-se de mobilizar uma data fundamental da memória do Holocausto para promover vozes alinhadas a uma agenda sionista no Brasil — o que constitui uma afronta à própria memória que se pretende preservar.
Não participaremos de um espaço que nos nega voz. Seguiremos, no entanto, atuando nos Grupos de Trabalho estabelecidos pelo governo federal, afirmando que a comunidade judaica é plural e que o sionismo não é um ponto de convergência. Permaneceremos comprometidos com a justiça, a igualdade e o combate a todas as formas de racismo: sem exceções, sem hierarquias e sem silenciamentos.
Coletivos Árabes e Judeus pela Paz, Articulação Judaica de Esquerda e Vozes Judaicas por Libertação. Representados por Daniela Fajer, Débora Abramant e Shajar Goldwaser nos Grupos de Trabalho de Enfrentamento ao Antissemitismo no Brasil do governo federal.”
Opera Mundi entrou em contato com a assessora presidencial Clara Ant e não obteve retorno até o presente momento.



