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São Paulo celebra mais um aniversário. 472 anos! As luzes oficiais piscam, os discursos polidos ecoam, e a propaganda vende a imagem de uma metrópole que não para, um motor incansável de progresso. Mas sob a fina camada de verniz comemorativo, a cidade pulsa com a febre de suas contradições históricas, uma ferida que nunca cicatrizou, apenas se reinventou em formas mais modernas de barbárie.
Hoje, celebramos a sede do capitalismo brasileiro, a terra prometida onde o empreendedorismo é a religião e o sucesso, a salvação. São Paulo é a grande vendedora da ilusão de que a luta de classes pode ser vencida na base da pura força de vontade. Ela sussurra no ouvido do jovem da periferia que, sim, a pé, com seu diploma debaixo do braço e uma fé inabalável no mercado, ele vai vencer o carrão arrojado do patrão. Claro que vai. A cidade se alimenta dessa esperança, a mesma que esmaga silenciosamente nos vagões lotados (e privatizados) das 6 da manhã e nas jornadas de trabalho que consomem a vida em troca de um salário que mal paga o aluguel.
Mas para entender a miragem, é preciso voltar ao berço. A colina onde a cidade nasceu, o Pátio do Colégio, não é um marco de fé, mas o palco macabro do aldeamento. Ali, a cruz foi imposta goela abaixo, e a catequese forçada marcou o início de um projeto de dominação. A São Paulo que hoje se orgulha de suas igrejas é a mesma que, em sua gênese, silenciou os cantos indígenas com o latim e trocou suas cosmologias pela promessa de um céu que só poderia ser alcançado de joelhos. Essa herança punitiva reverbera hoje, em uma cidade que insiste em punir os (poucos) sacerdotes que ousam dar pão aos pobres, que criminaliza a solidariedade enquanto celebra a acumulação.
Mesmo quando era apenas uma prima pobre no século XVII, um entreposto esquecido pela Coroa Portuguesa, São Paulo já mostrava sua vocação para a violência. Daqui, partiam os bandeirantes, esses “heróis” de monumentos que hoje são questionados. Eram, na verdade, matadores de aluguel, empreendedores da morte que degolavam indígenas e genocidavam quilombos em nome de uma “civilidade” que ainda ensina ao mundo a face mais cruel das políticas da morte. A riqueza que começaria a jorrar para a elite paulistana foi adubada com sangue e cimentada sobre ossos.
Avançamos no tempo. A cidade se torna a metrópole do café, pujante e moderna. Os barões, com seus lucros manchados pelo suor e sangue da escravidão, agora se tornam CEOs modernos, importando a arquitetura europeia e os modos refinados. É a São Paulo que se embranquece à força no pós-abolição, empurrando a população afro-brasileira para as margens, para os territórios periféricos que começavam a se formar, longe dos olhos da nova elite. A cidade se torna “italiana, meu!”, mas esquece convenientemente que esses mesmos imigrantes brancos, fugindo da miséria na Europa, eram vistos pela elite quatrocentona como bandidos, marginais, uma ameaça à ordem. A história de São Paulo é uma sucessão de novas ondas de excluídos, cada uma substituindo a anterior no porão da sociedade.
E chegamos ao aniversário de hoje. A cidade dos crimes financeiros, onde fortunas são feitas e desfeitas na velocidade de um clique, enquanto a maioria da população luta para sobreviver. A cidade das novas paisagens exclusivas para os ricos, dos condomínios-fortaleza e dos shoppings centers que são templos de um consumo inatingível. O centro histórico, outrora o coração pulsante da metrópole, é largado para a madrugada do exército de desclassificados do concreto, os zumbis da noite escura da cidade que nunca dorme. Nunca dorme porque o pesadelo é constante. Tem mais câmeras de vigilância que habitantes, um panóptico a céu aberto que vigia a pobreza, mas se faz cego para os crimes dos poderosos.
Concentra renda como poucos lugares no mundo. Há esperança e amor em SP? Talvez. Do alto de uma boa janela no Alto de Pinheiros ou nos Jardins, com a cidade aos seus pés como um tapete de luzes, talvez seja possível sentir amor. Um amor estéril, protegido por vidros blindados e seguranças particulares. “Mas ai, que violência extrema!”, disse a madame cujo celular, bolsa e tudo mais foram roubados pelo motoboy-ifood. Ela não sabia? Do alto do seu castelo, ela não viu que essa não é uma exceção, mas a regra? Que o roubo de seu celular é apenas um eco distante, um sintoma da violência inteira que constitui a história desta pauliceia desvairada. A violência do bandeirante, do senhor de escravos, do barão do café, do especulador imobiliário, do banqueiro salafrário, do agente do mercado.
Neste aniversário, não há o que comemorar, mas sim o que lembrar. Lembrar que as veias abertas desta cidade continuam jorrando um progresso cujos escombros sobem até os céus da desigualdade. E que a melancolia que paira no ar cinzento de janeiro não é apenas poluição. É o peso de séculos de uma história no compasso da desilusão. Um exército de precarizados na dança da solidão.

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