O Partido Liberal Democrata (PLD), liderado pela primeira-ministra Sanae Takaichi, conquistou pelo menos dois terços das cadeiras do Parlamento japonês nas eleições antecipadas realizadas neste domingo (8), garantindo uma maioria estratégica na Câmara dos Representantes e fortalecendo a base governista para avançar em pautas centrais do governo. Com o apoio do partido de coalizão Nippon Ishin no Kai (Partido da Inovação do Japão), a legenda alcançou um resultado expressivo poucas horas após o fechamento das urnas, segundo projeções da emissora pública japonesa NHK e informações da agência Reuters.
Maioria ampla garante estabilidade ao governo
De acordo com a Reuters, o PLD deve assegurar 328 das 465 cadeiras da Câmara dos Representantes, número bem acima dos 233 assentos necessários para formar maioria simples. A margem é considerada decisiva para que Sanae Takaichi consiga governar com maior estabilidade política, reduzindo a necessidade de negociações constantes com a oposição e ampliando sua capacidade de implementar reformas econômicas, sociais e de segurança nacional.
As urnas foram fechadas às 20h, no horário local, e em menos de duas horas após o encerramento da votação, o PLD já havia ultrapassado a marca mínima para maioria. O resultado confirmou as projeções iniciais de boca de urna divulgadas pela NHK logo após o fim da votação, que já indicavam uma vitória confortável da legenda conservadora.
Somando os assentos do PLD aos do Nippon Ishin no Kai, o bloco governista deve obter entre 302 e 366 cadeiras no total, consolidando uma das maiores bases parlamentares dos últimos anos no Japão. Até a última atualização desta reportagem, o resultado oficial ainda não havia sido totalmente divulgado.
Eleições antecipadas e estratégia política
As eleições foram convocadas de forma antecipada após Takaichi dissolver o Parlamento em 19 de janeiro, apenas oito dias antes de anunciar oficialmente o pleito. A decisão foi vista como uma jogada estratégica para capitalizar sua alta popularidade e transformá-la em uma maioria ainda mais robusta no Legislativo.
O período eleitoral foi considerado o mais curto desde o fim da Segunda Guerra Mundial, com apenas 16 dias entre a dissolução do Parlamento e o dia da votação. Especialistas apontam que a rapidez da campanha favoreceu o partido governista, que já possuía uma estrutura sólida e ampla visibilidade nacional.
Primeira mulher a governar o Japão, Sanae Takaichi, de 64 anos, assumiu o cargo em outubro e tornou-se a quinta chefe de governo do país em apenas cinco anos, um dado que evidencia a instabilidade política recente enfrentada pela nação asiática.
Perfil conservador e inspiração internacional
Conhecida por seu perfil conservador, Takaichi declara-se inspirada pela ex-primeira-ministra britânica Margaret Thatcher, a chamada “Dama de Ferro”. A líder japonesa tem posições firmes em temas como política econômica, segurança nacional e imigração, defendendo restrições mais rígidas à entrada de estrangeiros no país.
Ela também é historicamente crítica a políticas de gênero e sustenta a posição de que a linhagem monárquica japonesa deve continuar sendo ocupada exclusivamente por homens, tema sensível em um país que debate lentamente reformas institucionais relacionadas à sucessão imperial.
Apesar dessas posições, Takaichi conseguiu ampliar seu apelo popular, especialmente entre os jovens, tornando-se um fenômeno nas redes sociais. Entre esse público, surgiu a chamada “sanakatsu”, algo como “mania por Sanae”, que impulsionou a busca por objetos associados à primeira-ministra, como bolsas, acessórios e até uma caneta rosa usada por ela para fazer anotações no Parlamento.
Apoio dos Estados Unidos fortalece imagem internacional
A vitória de Takaichi também foi impulsionada por apoio internacional de peso. O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, declarou publicamente apoio “total e absoluto” à premiê japonesa na semana anterior às eleições. Em publicação nas redes sociais, Trump descreveu Takaichi como uma líder “forte, poderosa e sábia” e afirmou estar ansioso para recebê-la na Casa Branca no próximo mês.
Segundo Trump, a visita, marcada para 19 de março, deve abordar temas como negociações comerciais e cooperação em segurança entre os dois países. Neste domingo, após a confirmação da vitória da coalizão governista, o secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, elogiou Takaichi em entrevista ao programa Sunday Morning Futures, da Fox News.
“Ela é uma grande aliada, tem uma ótima relação com o presidente”, afirmou Bessent. “E quando o Japão está forte, os Estados Unidos estão fortes na Ásia.”
Desafios econômicos e promessas de campanha
Durante a campanha, Takaichi prometeu suspender o imposto sobre vendas de 8% sobre alimentos, medida voltada a aliviar o impacto da alta dos preços sobre as famílias japonesas. A proposta, no entanto, gerou preocupação entre investidores e analistas econômicos, especialmente diante do elevado nível de endividamento do Japão, o maior entre as economias avançadas.
“Os planos dela para o corte do imposto sobre o consumo deixam grandes pontos de interrogação sobre o financiamento e sobre como ela pretende fazer a conta fechar”, avaliou Chris Scicluna, chefe de pesquisa da Daiwa Capital Markets Europe, em Londres.
Entre a população, as opiniões se dividem. A moradora de Niigata, Mineko Mori, de 74 anos, afirmou temer que os cortes de impostos possam impor um fardo ainda maior às gerações futuras, ampliando o déficit público e comprometendo investimentos de longo prazo.
Dia de votação marcado por nevascas
O dia da votação foi marcado por condições climáticas adversas. Nevascas recordes atingiram diversas regiões do país, dificultando o deslocamento de eleitores e, em alguns casos, obrigando seções eleitorais a fechar mais cedo devido a problemas de trânsito.
Esta foi apenas a terceira eleição do pós-guerra realizada em fevereiro, período geralmente evitado devido ao clima rigoroso. Ainda assim, muitos eleitores enfrentaram temperaturas abaixo de zero para exercer o direito ao voto.
Na cidade de Uonuma, na montanhosa província de Niigata, o professor Kazushige Cho, de 54 anos, disse ter enfrentado neve profunda para votar no PLD. “Parece que ela está criando um senso de direção — como se o país inteiro estivesse se unindo e avançando junto. Isso realmente faz sentido para mim”, afirmou.
Relação tensa com a China e foco em segurança
As inclinações nacionalistas de Takaichi e sua ênfase em segurança nacional têm gerado tensão nas relações com a China. Poucas semanas após assumir o cargo, a primeira-ministra provocou a maior crise diplomática entre os dois países em mais de uma década ao detalhar publicamente como Tóquio poderia responder a um eventual ataque chinês a Taiwan.
Um mandato fortalecido no Parlamento pode acelerar os planos do governo de ampliar os investimentos em defesa, movimento que Pequim classificou como uma tentativa de reviver o passado militarista do Japão.
Para parte do eleitorado, no entanto, essa postura é vista como necessária. “Votei em um partido que claramente tem vontade de proteger o país”, disse Masanobu Igarashi, um soldado aposentado, após votar no PLD em Uonuma.
Popularidade e desafios futuros
Apesar da vitória expressiva, Takaichi ainda enfrenta desafios significativos. Além do equilíbrio fiscal, o governo precisará lidar com o envelhecimento acelerado da população, a escassez de mão de obra e a necessidade de manter crescimento econômico sustentável em um cenário global incerto.
Ainda assim, o resultado das urnas reforça a posição da primeira-ministra como uma das líderes mais influentes do Japão no período pós-guerra recente, abrindo caminho para um governo mais estável e com maior margem de manobra política.



