Por Manuela Borges
A saída de Michelle Bolsonaro da presidência do PL Mulher, anunciada nesta terça-feira (30), não partiu de uma escolha pessoal da ex-primeira-dama, mas de uma determinação do ex-presidente Jair Bolsonaro. A informação é de um interlocutor próximo a Bolsonaro que pediu para não ser identificado.
Essa versão contradiz o discurso oficial divulgado por Michelle após reunião com o presidente do PL, Valdemar da Costa Neto. No comunicado, a ex-primeira-dama afirmou ter decidido deixar o cargo para se dedicar aos cuidados do marido, que cumpre prisão domiciliar após condenação pelo Supremo Tribunal Federal (STF), e da filha do casal.
Incômodo com a projeção da esposa
Segundo a fonte, Bolsonaro estaria irritado com os holofotes voltados para Michelle nos últimos meses. A projeção atual dela contrasta com sua trajetória anterior, quando trabalhava como secretária em gabinetes de deputados antes de se aproximar do então deputado federal Jair Bolsonaro.
Michelle também não deixou um legado relevante à frente de projetos sociais durante o período em que ocupou a função de primeira-dama, entre 2019 e 2022. Havia até uma expectativa de que ela pudesse fazer um trabalho social relevante com pessoas com deficiência auditiva ou portadoras de doenças raras, mas ela não foi o que aconteceu.
A exposição de Michelle só se intensificou no segundo turno da eleição presidencial de 2022, quando Bolsonaro via o resultado ameaçado pelas pesquisas e passou a utilizar a presença da esposa em atos de campanha para atrair o voto feminino e o eleitorado evangélico, dois segmentos considerados estratégicos para a disputa.
Um afastamento anterior
Michelle assumiu a presidência do PL Mulher, braço do partido dedicado à articulação política entre mulheres, em março de 2023, quando Bolsonaro já havia deixado o Palácio do Planalto, após derrota para Lula (PT) nas eleições do ano anterior. Essa não teria sido a primeira vez em que o ex-presidente interferiu diretamente na agenda pública da esposa.
No fim do ano passado, enquanto Bolsonaro estava preso na Papudinha, Michelle também teria se afastado de compromissos por orientação dele. Segundo o relato, o ex-presidente preferia que a esposa permanecesse em casa preparando suas refeições, em vez de viajar pelo país em agenda política, já que não confiava na alimentação oferecida pelo sistema prisional.
O contexto da crise pública
A saída de Michelle do PL Mulher ocorre poucos dias depois de um episódio que expôs divergências dentro da família Bolsonaro. A ex-primeira-dama publicou um vídeo nas redes sociais em que afirmou ter sido tratada com desrespeito pelo enteado, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), durante uma conversa sobre os rumos do partido.
O atrito teve origem na disputa por espaço político no Ceará, estado em que Michelle defendia o apoio à candidatura do senador Eduardo Girão (Novo) e reivindicava uma vaga ao Senado para a vereadora Priscila Costa (PL), sua aliada, em oposição à aproximação do PL com o ex-governador Ciro Gomes (PSDB). A posição desagradou Flávio e outros filhos de Bolsonaro, que defendiam a estratégia adotada pela legenda no estado.
Diante da repercussão, Flávio Bolsonaro adotou publicamente um tom de conciliação e pediu desculpas à madrasta, mas a saída de Michelle da presidência do PL Mulher, anunciada dias depois, indica que o desgaste dentro do núcleo familiar não se limitou ao episódio com o senador.
O que diz Michelle?
Em nota divulgada à imprensa, a ex-primeira dama comunicou que a decisão de deixar a presidência do do PL Mulher foi tomada “após muito refletir com o meu marido sobre o momento em que estamos vivendo em nossa família”. Michelle disse ainda que, a medida foi comunicada ao presidente do Partido Liberal, Valdemar Costa Neto na tarde desta terça-feira (31) e que, agora, irá se dedicar ” integralmente aos cuidados para com o meu marido e minha filha”.
Leia a nota na íntegra:
Na condição de Presidente do Partido Liberal Mulher, venho por meio desta informar que, após muito refletir com o meu marido sobre o momento em que estamos vivendo em nossa família, reuni-me com o Presidente do Partido Liberal na tarde de hoje e lhe comuniquei a minha decisão de deixar a Presidência do PL Mulher para me dedicar – integralmente – aos cuidados para com o meu marido e minha filha.
Durante o período em que estive à frente do PL Mulher, construímos – juntamente com as nossas presidentes – um grande exército de mulheres de bem que já começaram a transformar o Brasil e a corrigir os rumos da nossa Nação. Conhecendo a força e a capacidade das mulheres brasileiras, tenho certeza de que o nosso movimento crescerá ainda mais e teremos um futuro próspero para os nossos filhos e netos.
Quero agradecer, na pessoa da minha vice-presidente, Priscila Costa – a todas as minhas presidentes estaduais e municipais que, com tanto carinho, empenho e dedicação tornaram possível a expansão de nosso movimento que está edificando o nosso país. Sem vocês, nada disso seria possível.
As sementes foram lançadas e, em breve, vocês colherão os frutos desse trabalho tão lindo que vocês realizaram em favor das famílias de nossa grande Nação.
Peço a Deus que esteja sempre com vocês, inspirando e conduzindo esse trabalho e que as mulheres ocupem, cada vez mais, os lugares que lhes pertencem nas esferas de decisão e de poder. Vocês estarão sempre nas minhas orações como forma de gratidão e de amor por cada uma de vocês.
Agradeço também o Presidente Valdemar pela autonomia que me concedeu e por ter confiado a mim tão nobre desafio.
À minha amada equipe da Nacional, mulheres e homens gigantes que comigo enfrentaram todos os desafios que surgiram à nossa frente, agradeço do fundo do meu coração. Somente Deus pode recompensá-los por todo bem que fizeram a mim e ao nosso Brasil. Eu amo a vida de cada um de vocês.
Que Deus os abençoe. Que Ele abençoe as nossas famílias. Que Deus abençoe o nosso amado Brasil.



