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Em 1876 saía do prelo a primeira edição francesa de “L’homme criminel”. Em português, O Homem Delinquente. No original italiano, língua mater do autor Cesare Lombroso, “L’uomo delinquente” tinha sido lançado dois anos antes. Um século e meio depois, o bacharel em Direito e vendedor de seguros pernambucano Antônio Rueda, presidente do União Brasil e co-presidente de uma federação partidária junto com o PP, prepara-se para transferir seu título eleitoral do Recife que o enjeita pelas características lombrosianas de sua… controversa trajetória política… e se prepara para obter o primeiro mandato da vida como deputado federal pelo Rio de Janeiro. Em terras fluminenses, onde a política dialoga com o crime organizado há muito, fazer cara feia fá-lo-á se sentir como quem tem olho em terra de cego: rei.
Na sua obra seminal o psiquiatra, criminologista, antropólogo, higienista e cirurgião Cesare Lombroso, nascido em Verona em 1835, estabeleceu as bases da Frenologia. Hoje em desuso, a doutrina teorizava sobre a possibilidades de cada faculdade mental e mesmo o caráter de um cidadão ter relação com o tamanho e o formato de sua caixa craniana e com aspectos morfológicos de suas orelhas, do espaçamento entre os olhos e do couro cabeludo. No livro original, daguerreótipos em sépia mostram exemplos de faces e crânios dos objetos de estudo sobre os quais o teórico italiano se debruçou. As fotos de Antônio Rueda guardam incrível semelhança com aquelas ilustrações da mal sinada teoria criminal.
Já no Século XIX, em razão da natureza racista do próprio Lombroso e porque a região de onde vinha, o Vêneto, ser o berço de famílias e fortunas excludentes e beneficiadas da Itália, a doutrina lombrosiana ganhou má fama. Tinha razão quem dizia que ela servia à divisão da sociedade e à criminalização de negros e de imigrantes de regiões mais pobres da Europa e da Ásia. Contudo, levas de europeus – sobretudo italianos – foram desterrados e criminalizados por terem “características lombrosianas” na tez. No Brasil de fins do 2º Império e do começo da República Velha a teoria do italiano ganhou tração. Esquecida pelos avanços civilizatórios da sociedade, o “lombrosianismo” só sobreviveu como piada.
Antônio Rueda, piada sem graça na cena política
E é como piada que Antônio Rueda é visto na condição de gestor partidário. O União Brasil detém uma bancada de 59 deputados federais e sete senadores. A federação que criou com o PP do senador Ciro Nogueira, mas ainda não formalizou, totaliza 109 mandatos na Câmara e 15 no Senado. Ou seja, as duas siglas lideradas por dois dos mais controversos atores da cena política nacional controlam (em teoria, porque na prática as regras do jogo não valem dado a inexistência da fidelidade partidária) 20% do Congresso Nacional.
Rueda fez o transbordo da política local de Pernambuco para as rinhas nacionais e temperadas pela combinação de dinheiro, informação e poder de Brasília a partir de 2019. Ele surfou na onda de ter sido personagem essencial na eleição de Jair Bolsonaro em 2018. Afinal, foi dele a chancela que o clã recebeu para alugar o Partido do Social Liberalismo (PSL, nº 17) naqueles tempos bíblicos em que a desunião nacional pelo ódio era apenas uma ameaça distante. Consumada a tragédia da eleição de Bolsonaro, foram transferidas a Antônio Rueda as chaves operacionais de diversos negócios da República. Inapto para operar tudo por desconhecimento das funcionalidades da tecnocracia brasiliense, o ex-vendedor de seguros buscou apoio societário de Ciro Nogueira. Foi dali que se escutou em toda a Esplanada dos Ministérios uma espécie de “big bang partidário” – a casca de noz explodiu e o universo passou a não ter limites para a dupla.
Cesare Lombroso teorizava sobre o distanciamento entre os globos oculares, o tamanho das orelhas, o formato quadrado do maxilar, o desencontro das arcadas dentárias superiores e inferiores e mesmo a imperfeição da circunferência craniana de determinados homens. A partir do cruzamento daquelas características como “diferenciais competitivos” com dados objetivos das ocorrências criminais, ele dizia ser possível inferir se determinada pessoa (do sexo masculino) estava mais ou menos propícia a cometer crimes. De posse dessas informações básicas acerca da doutrina lombrosiana, volte um pouco no scroll dessa tela e observe detidamente a fotografia de Antônio Rueda. Depois, procure no Google sobre imagens do “homem lombrosiano” na obra inaugural do criminologista, psiquiatra a antropólogo italiano. Por fim, tire as suas conclusões.
Sob o comando de Rueda o União Brasil se tornou o partido político com o maior número de caciques investigados por diversos órgãos e instituições públicas – Polícia Federal, Ministério Público Federal, Corregedoria Geral da União e Tribunal de Contas da União, por exemplo, além de investigações em curso nas polícias civis e nos MPs estaduais. Lideranças do União estão enfrentando o escrutínio de órgãos de controle nos escândalos do Banco Master/BRB, nas operações Overclean, Compliance Zero, Carbono Oculto, em diversas ações ordenadas pelo Supremo Tribunal Federal que investigam desvios em emendas orçamentárias e ainda nesse estrambólico caso “TH Jóias”, no Rio de Janeiro, que levou à prisão o presidente da Assembleia Legislativa estadual, Rodrigo Bacellar (filiado ao União) e ameaça o resto de mandato do governador Cláudio Castro (PL) mesmo que o plenário da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro tenha lavado as mãos, sob chantagens, em relação ao presidente da própria Alerj flagrado em advocacia administrativa com o colega preso “TH Jóias”. À luz desse prisma de crimes Antônio Rueda, definitivamente, não passaria incólume aos critérios de Cesare Lombroso.
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