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terça-feira, 10 fevereiro, 2026
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“Quem não causou o problema não pode pagar o preço”, diz especialista sobre agricultura na COP 30 — Brasil de Fato

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Em meio aos debates do 13º Congresso Brasileiro de Agroecologia (CBA), realizado em Juazeiro (BA), o agrônomo Paulo Petersen, coordenador executivo da AS-PTA – Agricultura Familiar e Agroecologia, e membro da Articulação Nacional de Agroecologia (ANA) e da Associação Brasileira de Agroecologia (ABA), falou ao Brasil de Fato sobre sua atuação como Enviado Especial da Agricultura Familiar para a COP 30, que acontecerá em Belém (PA), em 2025.

Na entrevista, Petersen analisa o cenário de disputas políticas e econômicas que marcam as negociações climáticas, destacando o papel do agronegócio e as estratégias de resistência da agricultura familiar e camponesa. “A COP 30 será a COP da implementação. É hora de mostrar não apenas quanto cada país vai reduzir, mas como fará isso — e de onde virá o dinheiro”, afirmou.

Ele alerta para a influência das grandes corporações nas soluções apresentadas e denuncia o risco das chamadas falsas soluções, como a “agricultura regenerativa” proposta pelo agronegócio. “Essas respostas são absolutamente insuficientes para o tamanho do problema. Elas não mudam a questão essencial, que é a concentração de poder”, destacou.

Petersen defende que a agroecologia e a agricultura familiar sejam reconhecidas como pilares de um novo modelo de desenvolvimento rural, capaz de enfrentar simultaneamente as crises climática, alimentar e sanitária. “A agroecologia não é apenas um conjunto de técnicas, mas uma proposta de democratização dos sistemas alimentares — reconectando a agricultura aos ecossistemas e a produção ao consumo, ligando o alimento à saúde”, afirma.

Para o enviado especial, o desafio é fazer com que as vozes dos territórios cheguem aos espaços globais de decisão. “Quem não causou o problema não pode pagar o preço. A justiça climática exige que povos e comunidades vulnerabilizadas tenham protagonismo”, reforçou.

A seguir, a íntegra da entrevista, realizada durante o 13º CBA.

Ato no CBA juntou diversidade de público às margens do Rio São Francisco. | Manuela Cavadas

Brasil de Fato: Como apresentar o cenário de disputas dentro da COP 30 em que a Agricultura Familiar está inserida?

Paulo Petersen: A COP 30 é uma conferência multilateral onde os países apresentam seus compromissos de redução das emissões de gases de efeito estufa. Essa edição vem sendo chamada de “COP da implementação”, porque além de dizer quanto cada país vai reduzir, é hora de mostrar como fará isso e de onde virá o dinheiro.

A grande discussão é como reduzir emissões e como se adaptar às mudanças climáticas, diante de uma urgência global, e o “como” está em disputa. E os setores que são os principais responsáveis pela crise — e que têm grande poder econômico e político — criam narrativas que distorcem o debate. É aí que surgem as chamadas “falsas soluções”, que não enfrentam a raiz dos problemas.

A raiz está no modelo econômico: altamente depredador da natureza e concentrador de riqueza. Isso fica muito evidente nos sistemas alimentares, responsáveis por cerca de 50% das emissões globais, quando somamos a queima de combustíveis fósseis, desmatamento e industrialização de alimentos. Ao mesmo tempo, os sistemas alimentares são muito vulneráveis às mudanças climáticas, tanto do ponto de vista de mitigação quanto de adaptação.

No caso do Brasil, a situação é ainda mais grave: cerca de 70% das emissões estão ligadas aos sistemas alimentares, em especial ao agronegócio, com suas monoculturas dependentes de químicos e voltadas à exportação de commodities, com seu processo de industrialização, transporte em longa distância e produção de ultraprocessados. Esse modelo é insustentável, altamente emissor e consumidor de energia fóssil e recursos finitos, como fósforo e potássio. Tem uma situação da pecuária também, sobretudo o modelo confinado, que também tem um grande problema de emissão.

Além disso, ele impulsiona o desmatamento, pois o agronegócio tem fome de terra. É um sistema expansionista, que avança sobre territórios indígenas, quilombolas e áreas protegidas — e por isso pressiona mudanças na legislação, como o Marco Temporal e o PL da Devastação, que ajudam o setor a se expandir para a Amazônia, para o Cerrado, Pantanal e assim sucessivamente, sobre os nossos biomas.

Brasil de Fato: E como a agricultura familiar entra nesse cenário de disputas?

Paulo Petersen: Trazer a agricultura familiar para o centro do debate é fundamental. Mas é preciso entendê-la não como uma identidade social, e sim como um modo de fazer agricultura. Sob esse guarda-chuva cabem camponeses, indígenas, quilombolas, pescadores artesanais — todos com formas sustentáveis de relação com a natureza. É uma agricultura diversificada, cooperativa, de base comunitária, que combina produção para o consumo próprio, venda local e doação.

Há, nesse modo de fazer agricultura, várias economias circulando, baseadas no uso do espaço agrário com muita diversidade. Ela é totalmente contrária à lógica do agronegócio, que aposta na escala e na monocultura. Na agricultura familiar temos diversidade ecológica. É daí que surge a agroecologia, para valorizar esses processos ecológicos — a exemplo da energia solar, da fotossíntese, da biomassa — e reduzir a dependência de combustíveis fósseis e químicos.

Essa economia da agricultura familiar gera alimentos saudáveis, energia limpa e conservação ambiental, e ela precisa ser promovida para o enfrentamento das mudanças climáticas, da insegurança alimentar e nutricional e promoção da saúde, conservação da biodiversidade e reconhecimento das culturas alimentares. A agroecologia é, portanto, uma economia do “ganha-ganha”: ganha no ecológico, no social, no cultural e no climático.

Brasil de Fato: Você fala sobre “soluções ganha-ganha”. Como levar isso para um espaço global como a COP 30, onde há tantos interesses em jogo?

Paulo Petersen: Um dos nossos grandes desafios é fazer com que, a partir da COP 30, as agendas de ações climáticas incluam a agricultura familiar e a agroecologia como parte das soluções reais, e não como um tema lateral.

Hoje, as agendas são fragmentadas: há uma COP do clima, outra da desertificação, outra da fome… Essa fragmentação só favorece quem propõe falsas soluções. Por exemplo, uma proposta climática pode gerar problemas como a insegurança alimentar, ou uma política de combate à fome baseada em monoculturas e ultraprocessados vai impactar no clima. Não é uma solução “ganha-ganha”. Esse vai ser o principal argumento que vamos tentar inserir na COP e em diversos espaços, para afirmar a centralidade da agricultura familiar, mas ligada com a agroecologia.

O Brasil tem experiência em políticas públicas para a agricultura familiar desde os anos 1990. Mas parte dos recursos, como os do Pronaf, acabou reforçando o modelo das commodities. Ou seja, políticas que deveriam fortalecer a agricultura familiar acabaram convertendo-a em “pequeno agronegócio”. Por exemplo, boa parte do Pronaf hoje é canalizado para produção de commodities, como soja e milho. Então é uma política que está destruindo a vocação que deveria ser desenvolvida. Estamos falando da maior profissão do mundo, que é a agricultura familiar camponesa, a maior fonte de ocupação da humanidade. Uma atividade distribuída pelo mundo inteiro e no Brasil ela só não está mais presente porque a terra é extremamente concentrada. Se quisermos enfrentar a crise climática, a reforma agrária é essencial. Não é apenas uma questão social — é também uma questão climática. Precisamos ampliar o espaço físico, político e econômico da agricultura familiar.

Brasil de Fato: E como garantir que novas propostas a partir da agricultura familiar de base agroecológica não acabem concentradas nas mesmas mãos que causaram o problema ambiental e climático?

Paulo Petersen: Esse é um ponto crucial. O agronegócio tem proposto para a COP 30 a ideia de agricultura regenerativa, mas são respostas absolutamente insuficientes para o tamanho do problema. E isso não muda essencialmente a razão fundamental que é a concentração de poder. Quer dizer, o poder continua nas mãos das grandes corporações. São elas que vão guiar o desenvolvimento tecnológico. Hoje, por exemplo, temos a agenda de bioinsumos, com a ideia de diminuir a química e até agrotóxicos. Isso foi o que nós sempre defendemos no campo da agroecologia, mas sem abrir mão que esse bioinsumo seja produzido pelas comunidades, pelas famílias, como sempre fizeram.

Hoje, a partir de um projeto de lei, um conjunto de restrições pode concentrar toda a tecnologia dos bioinsumos no mercado. Há uma série de argumentos falaciosos, como riscos biológicos. Em princípio, ser de mercado não é um problema, mas é no caso do mercado corporativo. Não podemos deixar que a solução esteja na mão das empresas e do sistema econômico que criou o problema. Ao contrário, precisamos descentralizar o poder.

A agroecologia, portanto, não é apenas um conjunto de técnicas, mas uma proposta de democratização dos sistemas alimentares — reconectando a agricultura aos ecossistemas e a produção ao consumo, ligando o alimento à saúde. Ou seja, é a história da agricultura, que o agronegócio mudou, desconectou.

Hoje um dos maiores problemas de agravo da saúde é a má alimentação. Então não adianta só falar que o Brasil saiu do Mapa da Fome. Isso a gente já tinha saído antes, mas a gente sai do Mapa da Fome, mas entra no Mapa da Obesidade e do sobrepeso e das doenças associadas.

Brasil de Fato: E quanto à transformação estrutural que precisamos para mudar essa lógica? Como avançar diante da força das corporações e desse sistema econômico que precisa ser superado?

Paulo Petersen: Costumamos dizer que as transformações não vêm de cima para baixo. A construção da agroecologia acontece nos territórios. Então a única possibilidade de mudança estrutural é com ampla participação social nos territórios. Por isso defendemos algumas políticas públicas que fortalecem o tecido associativo, as cooperativas, como o programa Ecoforte, que fortalece redes de agroecologia territoriais, o PAA e o PNAE. Porque são políticas que chamam as organizações a se fortalecerem para organizar a produção, a distribuição e o vínculo com o consumo nos territórios.

Não será o Estado sozinho com suas políticas. O Estado precisa reconhecer os atores que estão nos territórios, as organizações da agricultura familiar, camponeses, movimentos sociais, quilombolas, indígenas, no seu modo de vida, produção e cultura. Isso é essencial, porque, caso contrário, as propostas são de “cima para baixo” e padronizadas pelos mercados. Essas tecnologias universais não transformam e mantêm tudo dentro de um mesmo sistema, que chamamos de inovação incremental. Precisamos de uma inovação disruptiva para quebrar esse regime e criar um novo, de “baixo para cima”.

Agora, as soluções globais precisam nascer das práticas locais. Não existem soluções globais para o nosso problema global. Existe um caminho, como a partir dos locais se constróem essas soluções globais. A agroecologia articulada à economia solidária e à democracia é um caminho.

Defendemos a democratização dos sistemas alimentares por uma questão política, e não apenas por uma questão técnica. Ao mesmo tempo, os sistemas pela agroecologia são muito mais eficientes que os sistemas dominantes. Os sistemas dominantes são de baixíssima eficiência, pode ter alta produtividade física por hectare, mas sua eficiência energética e social é baixíssima.

Do ponto de vista econômico, o agronegócio gera benefícios no plano micro, para quem é o empresário. Ao mesmo tempo, gera a externalidade negativa para todo mundo, com mudança climática, agravos à saúde, perda de biodiversidade, erosão, perda dos recursos hídricos, contaminação. Já a agricultura familiar gera efeitos positivos como benefícios locais e externalidades positivas.

Tem se levantado um debate para a criação de mercados de remuneração para agricultores que prestam os chamados serviços ambientais na linha da economia verde. Temos críticas porque mais uma vez se coloca o poder nos grandes mercados. A agricultura familiar sempre produziu serviços ambientais e promoveu saúde. Mas muitas questões ainda são invisibilizadas, como o trabalho das mulheres, que sustenta essa economia fundamental não só para família, mas para toda a sociedade. Há uma geração de externalidades positivas, de uma microeconomia que tem efeitos positivos na macroeconomia. E, no entanto, o neoliberalismo tem empurrado muitos agricultores para uma lógica individualista e competitiva. Isso destrói o senso de comunidade e cria a ideia do “agricultor familiar neoliberal”.

É por isso que, após décadas de política da agricultura familiar fomentada pelos governos do PT, uma parcela grande do setor ainda vota na direita. Temos que entender de onde vem isso. E isso também tem tudo a ver com o debate climático, porque essa economia gera externalidades negativas e cria sujeitos que vão ser refratários às mudanças necessárias. Os assuntos não são desconectados.

Por que que aqui no Nordeste existe um senso de comunidade na agricultura familiar? Há uma identidade reafirmada, as pessoas falam: “Eu sou agricultor familiar”. Já no sudeste as pessoas já não se identificam como agricultores familiares, falam: “Eu sou do agro”. Eu acho que isso é uma derrota, que nos leva ao sentido do colapso climático. Não podemos pensar essa questão apenas na disputa eleitoral, mas também no colapso climático. A construção de políticas públicas precisa também apoiar esses sujeitos nos territórios, mas boa parte dela vai no sentido oposto.

Brasil de Fato: E nessa perspectiva de enviado especial da COP 30, como fazer com que as vozes dos territórios cheguem aos espaços globais de decisão?

Paulo Petersen: Essa é exatamente a força deste Congresso Brasileiro de Agroecologia: mostrar que quem não causou o problema não pode pagar o preço. Essa está sendo a principal mensagem construída neste congresso para os diferentes espaços da COP, seja da Cúpula dos Povos e dos espaços oficiais. A justiça climática exige que os povos e comunidades vulnerabilizadas tenham protagonismo. E é isso que levaremos à COP 30.

Temos também uma pesquisa-ação que adentra justamente a necessidade de apresentar as propostas de transformação a partir dos territórios, com o protagonismo dos agricultores. Queremos mostrar que o debate climático não pode ser apenas sobre financiamento, mas sobre destinação dos recursos. Não basta captar 1,3 trilhões de dólares se o dinheiro for usado para reproduzir o modelo das commodities. É preciso investir na agricultura familiar de base agroecológica — com políticas que envolvam abastecimento, mercados locais e alimentação saudável.

Aqui no Congresso, o Ministério do Desenvolvimento Social lançou um marco de segurança alimentar e clima, um documento importante que orienta as políticas interministeriais. É óbvio que precisamos levar em conta as disputas internas entre as pastas, a exemplo da resistência do Ministério da Agricultura. São alguns avanços que aos poucos ajudam, como o Guia Alimentar da População Brasileira e o Pronara, Programa de Redução de Agrotóxicos, que são exemplos de políticas que se conectam à agenda climática. Seguimos pelas frestas para essas conquistas, como o apoio da academia e a pressão dos movimentos sociais.

O grande desafio é romper com a fragmentação dos governos. A saúde, por exemplo, ainda trata doenças, mas não trata da alimentação como causa delas. Integrar a alimentação ao SUS, às cozinhas solidárias e à produção de comida de verdade é parte dessa transformação. As questões vão avançando pouco a pouco. O problema não é falta de recursos, mas falta de sinergia entre as políticas. Precisamos combinar os recursos existentes numa direção coerente.

Por exemplo, o Ministério da Saúde pode fazer muito pela agroecologia. Como é que pensam a política de saúde que coloque na centralidade o tema alimentar, o uso de agrotóxico, e vamos somando esforços. A agroecologia tinha que estar no gabinete do Presidente. Então temos uma Política de Agroecologia que está na Secretaria-geral, porque esse assunto é intersetorial, mas o tema ainda soa estranho em outros ministérios.

Pela gravidade, é impossível não colocar os sistemas alimentares na centralidade do governo. E isso, infelizmente, ainda não foi compreendido por um lado, além da pressão do outro, que não quer avançar. Um exemplo é a insatisfação do agronegócio com o Plano Clima Brasileiro, já que foi anunciado que 70% das emissões são desse setor. Isso, evidentemente exige que as maiores mudanças tem que ser feitas no próprio agro.

Além disso, é necessário baixar o consumo de energia do agronegócio e isso não seria difícil. Já temos experiências no Brasil, com o desenvolvimento de pesquisas nesse sentido. Um exemplo é a fixação biológica de nitrogênio na soja, feita pela Embrapa na década de 1970. A medida resulta em um custo de produção muito mais barato e menor emissões de gases. Ou seja, temos a capacidade de botar nossa ciência para produzir. Só que esse caminho foi bloqueado em nome da química.

Dessa forma, temos uma agricultura muito química e essa seria uma frente de desenvolvimento científico tecnológico importante, se tivesse sido continuada 40 anos atrás. O país estaria muito à frente, mas as empresas bloquearam. Agora, diante do contexto de mudança climática, agora inventaram a chamada agricultura regenerativa, que trabalha com microbiologia do solo e toda uma frente de bioinsumos. Agora, o movimento agroecológico fala em bioinsumos há 40 anos. A Ana Primavesi fala disso desde sempre, e sempre foi atacada. Podemos dizer que a pauta dos bioinsumos é uma conquista, mas assim com a questão da agricultura familiar, pode ser canalizada para outro lugar.

Temos uma grande oportunidade diante da COP de dizer que não estamos falando de agricultura regenerativa, de manejo de solo com técnicas de substituição de insumos. Defendemos uma reformulação estruturante dos sistemas alimentares e isso significa, biodiversidade, mercados e culturas locais, significa culturas locais, ou seja, a agroecologia. É uma oportunidade, e no Brasil, temos uma experiência de políticas importantes nesse campo, com um movimento social e agroecológico forte, com capacidade de elaborar e de posicionar bem esse debate.

E nesse sentido ainda temos que avançar muito também na área da comunicação, com a construção de narrativas. Porque a sustentação política e ideológica do agronegócio está na narrativa e precisamos disputar essa hegemonia. E a realidade está a nosso favor, com todas as evidências no Brasil e no mundo. O Congresso, o CBA, mostra a potência que é a agroecologia, mas ainda temos dificuldades em avançar mais nessa narrativa em maior escala.

Inclusive, para a própria COP, o movimento precisa aproveitar melhor essa oportunidade de falar para determinados segmentos que não nos conhece, para começar a cair ficha. Temos muito espaço para sair da bolha e avançar na ideia da “Agroecologia na boca do povo“. Não podemos só falar de nós para nós.

Brasil de Fato: E nesse ponto, Paulo, além da construção de narrativa para fora, podemos analisar os possíveis impactos dessa narrativa para dentro do movimento agroecológico. Como avaliar também o cenário de conquistas e disputas do movimento dentro desse cenário de uma balança de narrativas?

Paulo Petersen: O contexto é muito hostil. Sabemos quais são as nossas forças e os nossos adversários. Então temos que analisar a nossa trajetória nesse contexto e não naquilo que gostaríamos que fosse. Desse ponto de vista, o movimento agroecológico é altamente vitorioso, com conquistas importantes. Arrancar um Pronara nesse contexto, não é pouca coisa, diante do contexto.

Aqui no CBA, o ministro Paulo Teixeira lembrou que foram 15 anos para a conquista do Pronara. Então foi muita resistência, mas a gente teve capacidade de se articular, mobilizando o mundo acadêmico, movimentos sociais, mídia, e foi pouco a pouco até que chegou um momento em que ficou insuportável esse governo não dar esse passo. Não por conta do centro do governo, até porque o papel do presidente Lula foi determinante em desbloquear. Ocupamos os espaços de negociação, mas sempre tinha o Ministério da Agricultura para barrar. Então, foi necessário o presidente arbitrar.

Temos uma certa capacidade política, inteligência coletiva que tem feito avançar muitas agendas. Aqui no CBA, por exemplo, o CONSEA apresentou um importante marco referencial apresentado que deve irradiar nas unidades estaduais do Conselho. Temos uma sociedade brasileira com muita capacidade de analisar os contextos, valorizar suas experiências, elaborar propostas e incidir sobre o Estado. Temos que ver isso pelo lado do copo cheio.

Ao mesmo tempo, não estamos na condição de protelar por longo tempo algumas soluções mais estruturais. Isso poderia ser talvez antes da Eco 92. Agora nós estamos à beira de um colapso. A cada ano que passa, são anos mais quentes da história da humanidade. Esse último mês de janeiro foi o mês mais quente da história da humanidade. Não é mais só o IPCC, o painel do clima que está fazendo alertas. Sentindo isso.

Também vimos na nossa pesquisa-ação com mais de 500 experiências do Brasil inteiro, em que a grande maioria delas afirmam a percepção das mudanças climáticas em seus territórios. Isso para só falar de agricultura. Fora outras questões, como os desastres, temos visto na mídia, todo mundo sente. Não é mais uma questão que vai acontecer.

Em 1992, a meta era chegar no ano 2000 e frear em 1,5 grau o aumento da temperatura. Na época, o aumento era de 0,7. Nós já passamos, já estamos em 1,5 grau e não estabilizou ainda. Era para ter diminuído, mas vamos para a 30ª COP e nada foi feito. E o máximo que foi feito foi a criação de um sistema regulatório de um mercado de carbono, que é uma falsa solução. Estamos diante de uma oportunidade de colocar o agronegócio em uma sinuca de bico. Temos que explorar isso e não deixar que o debate seja vocalizado por eles.

Agora, evidentemente, que o agronegócio investe muito na narrativa e influencia no território, onde as verdadeiras transformações são feitas. Se os movimentos não conquistarem as organizações e fizer trabalho de base, em defesa da agricultura familiar, da reforma agrária, da agroecologia, seremos derrotados.

Não adianta só conquistar políticas nacionais, temos que fazer com que o recurso financeiro chegue nos territórios, fortaleçam as organizações que podem fazer as transformações. Não é só a política, ela apoia. Estamos diante de um desafio muito grande, porque a extrema direita está muito forte e tem o poder de bloquear as transformações necessárias.

Não estamos mais no momento da, digamos, social-democracia. temos que lidar com a extrema direita e fazer muita concessão para os liberais. E isso bloqueia as mudanças. Isso para não entregar para o fascismo de novo. O que é uma prioridade política, mas o desafio de conseguir mudanças mais estruturantes permanece. Então a pergunta no campo agroecológico é sobre quais são as margens que nós temos para avançar?

Os avanços mais significativos no curto prazo não vão acontecer. Uma reforma agrária mais ampla e popular no Brasil no curto prazo está fora de questão. Isso não significa que estamos sendo derrotados. Estamos avançando e acumulando força. Temos que perguntar como as políticas públicas reconhecem e apoiam essas trajetórias, fortalecem com políticas coerentes e não com políticas incoerentes como uma parte importante das políticas são.

A experiência brasileira é referência para outros movimentos de agroecologia internacional, e existe uma ênfase muito grande no debate junto ao governo, que não pode estar desvinculado de uma construção da política no território. Por isso também insistimos muito em defender a democracia participativa como condição fundamental para avançar nessa agenda.

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Fonte: Brasil de Fato

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