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Queda da Bolsa expõe aposta do mercado em cortes que Flávio escondia dos eleitores

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Por Cleber Lourenço

A queda histórica da Bolsa de Valores de São Paulo nesta segunda-feira (26), após a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), expôs uma contradição que acompanhou toda a campanha de Flávio Bolsonaro (PL-RJ): o mercado financeiro apostava em um ajuste fiscal profundo, mas o candidato derrotado nunca explicou aos eleitores onde faria os cortes necessários para equilibrar as contas públicas.

Enquanto investidores demonstravam confiança em sua política econômica, Flávio prometia novos benefícios, renegociação de dívidas e medidas que poderiam ampliar despesas ou reduzir receitas do governo.

O Ibovespa despencou 13,88%, depois de chegar a cair mais de 17% durante o pregão. A turbulência levou a B3 a acionar o mecanismo conhecido como circuit breaker, que interrompe temporariamente as negociações diante de quedas acentuadas. Foi a primeira vez que o instrumento precisou ser utilizado desde março de 2020, durante a pandemia de Covid-19.

A reação foi atribuída principalmente à frustração das expectativas de investidores que apostavam na vitória de Flávio Bolsonaro e na adoção de medidas de austeridade fiscal. O dólar disparou, os juros futuros subiram e o Tesouro Nacional precisou atuar para reduzir as tensões no mercado de títulos públicos.

Mas a intensidade da reação também revela uma questão pouco explorada durante a campanha: o ajuste fiscal esperado pelos investidores não correspondia necessariamente às promessas que Flávio apresentava à população.

O mercado cobrava de Lula compromissos com a redução de despesas, mas demonstrava confiança em um candidato que também anunciava benefícios e não apresentava cálculos detalhados sobre o financiamento de suas propostas.

A diferença estava na expectativa de que um eventual governo Flávio Bolsonaro realizaria cortes profundos, inclusive em despesas sociais, embora sua campanha evitasse assumir publicamente medidas dessa natureza.

O tesouraço que a campanha não explicava

A principal promessa econômica de Flávio Bolsonaro era promover um ajuste nas contas públicas que poderia alcançar R$ 200 bilhões a R$ 250 bilhões. O problema é que, durante a campanha, nem o candidato nem sua equipe econômica conseguiram apresentar um plano detalhado demonstrando de onde sairia esse dinheiro.

A coordenadora econômica da candidatura, Daniella Marques, chegou a ser questionada sobre como alcançaria uma economia equivalente a 1,5% do Produto Interno Bruto (PIB).

Em entrevista à Folha de S.Paulo, em agosto, respondeu: “Eu não sou a Mãe Dináh”.

A declaração partiu justamente da principal responsável pela formulação do programa econômico. Na ocasião, Daniella afirmou que o detalhamento das medidas dependeria de discussões posteriores, inclusive no Congresso Nacional.

A ausência de explicações contrastava com propostas que circulavam entre integrantes da campanha, economistas e representantes do setor empresarial.

Em encontros com empresários, foram discutidas medidas como a desvinculação de aposentadorias e benefícios previdenciários dos reajustes reais do salário mínimo, mudanças nos pisos constitucionais de saúde e educação e alterações nas regras de crescimento das despesas obrigatórias.

Essas medidas poderiam produzir economias relevantes para o orçamento federal, mas também teriam consequências diretas sobre aposentados, beneficiários de programas assistenciais e serviços públicos.

A campanha sustentava que as propostas discutidas nesses encontros não representavam compromissos oficiais do candidato.

A ressalva, porém, deixava uma pergunta sem resposta: se Flávio não pretendia adotar essas medidas, quais outras permitiriam alcançar a economia bilionária anunciada?

A questão nunca foi esclarecida de maneira satisfatória.

Enquanto prometia cortar, Flávio anunciava novos benefícios

A contradição ficava ainda mais evidente nas propostas apresentadas pelo próprio candidato.

Durante a campanha, Flávio Bolsonaro prometeu criar um programa de renegociação e congelamento de dívidas, com características semelhantes às iniciativas de renegociação já adotadas pelo governo Lula.

Sua equipe econômica também anunciou o chamado Vira Pix, mecanismo que permitiria devolver parte do dinheiro gasto pelos consumidores em determinadas operações.

A proposta guardava semelhanças com mecanismos de cashback previstos na reforma tributária aprovada durante o governo Lula.

Flávio também prometeu retomar benefícios tributários para setores econômicos, incluindo medidas relacionadas ao Programa Emergencial de Retomada do Setor de Eventos (Perse).

As iniciativas envolviam diferentes modalidades de impacto fiscal. Algumas poderiam exigir desembolsos públicos; outras, operações de crédito ou renúncia de arrecadação.

O ponto comum era a ausência de demonstrações completas sobre seus custos e fontes de financiamento.

Flávio prometia ampliar benefícios ao mesmo tempo que anunciava um ajuste fiscal de grandes proporções. Não explicava, porém, como conciliaria as duas agendas.

Ainda assim, parte expressiva do mercado financeiro demonstrava confiança na candidatura.

A reação dos investidores ao primeiro turno ajuda a dimensionar essa expectativa. Em 5 de outubro, após o desempenho eleitoral de Flávio, o Ibovespa avançou 7,7%, enquanto o dólar recuou.

Três semanas depois, com a vitória de Lula, o movimento foi invertido de maneira ainda mais intensa.

A Bolsa não reagiu a um aumento de despesas anunciado pelo presidente reeleito nesta segunda-feira. Reagiu, sobretudo, à mudança das expectativas sobre a política econômica dos próximos quatro anos.

A confiança do mercado no que Flávio não dizia

A diferença de tratamento entre as duas candidaturas expõe uma contradição política.

Quando Lula defende a manutenção ou ampliação de programas sociais, investidores cobram explicações sobre o impacto nas contas públicas e a trajetória da dívida.

Durante a campanha, Flávio também prometeu benefícios, mas recebeu manifestações de confiança de agentes financeiros que esperavam uma política fiscal mais austera.

Isso sugere que parte do mercado atribuía maior credibilidade à possibilidade de cortes profundos sob um governo Flávio Bolsonaro do que às promessas de benefícios feitas pelo próprio candidato.

Não significa que todos os investidores conhecessem um plano oculto ou que houvesse uma decisão formal de descumprir compromissos eleitorais.

O que os fatos permitem afirmar é que havia uma distância entre as expectativas de austeridade que sustentavam a valorização dos ativos brasileiros e as explicações oferecidas pela campanha à população.

Essa distância ficou especialmente evidente quando integrantes da própria equipe econômica reconheceram as limitações de algumas medidas apresentadas como soluções para o desequilíbrio fiscal.

Adolfo Sachsida, que participava da formulação econômica da candidatura, afirmou que a redução do número de ministérios produziria uma economia relativamente pequena.

A medida poderia alterar a organização administrativa do governo, mas não seria suficiente para financiar um ajuste de centenas de bilhões de reais.

O reconhecimento tornava ainda mais importante esclarecer quais despesas seriam efetivamente reduzidas.

Afinal, se a economia com a estrutura ministerial seria limitada, os programas sociais seriam preservados e novos benefícios seriam criados, o ajuste precisaria alcançar outras áreas do orçamento.

E algumas das alternativas discutidas por interlocutores da campanha atingiam justamente despesas relacionadas à Previdência, à assistência social, à saúde e à educação.

A coordenadora econômica que virou problema eleitoral

O contraste entre as expectativas do mercado e as promessas eleitorais também ajuda a compreender as dificuldades enfrentadas pela equipe econômica de Flávio Bolsonaro na reta final da campanha.

Daniella Marques, apresentada como uma das principais responsáveis pela elaboração do programa de governo, passou a ser criticada por integrantes do próprio campo político do candidato.

Suas declarações sobre cortes de despesas, funcionalismo público e benefícios sociais foram apontadas como fatores de desgaste eleitoral.

O problema político era evidente: quanto mais a equipe econômica discutia medidas capazes de convencer investidores sobre a viabilidade do ajuste fiscal, maior era o risco de expor consequências impopulares dessas propostas.

A candidatura precisava sustentar simultaneamente duas mensagens difíceis de conciliar.

Para o mercado, apresentava a perspectiva de uma redução expressiva das despesas públicas.

Para o eleitorado, prometia preservar benefícios existentes e criar novas formas de auxílio financeiro.

O detalhamento das medidas necessárias para compatibilizar essas promessas permaneceu ausente.

Essa contradição não demonstra, por si só, que o candidato pretendia descumprir suas promessas. Mas evidencia que o programa econômico apresentado durante a eleição não permitia ao eleitor avaliar plenamente quem suportaria os custos do ajuste anunciado.

A derrota eleitoral e a conta que ficou para o mercado

A reeleição de Lula frustrou as expectativas dos investidores que haviam apostado em uma mudança de orientação econômica.

A reação foi imediata e atingiu ações, câmbio e juros futuros.

O episódio, entretanto, não significa que a economia brasileira tenha perdido, em um único dia, a mesma proporção de capacidade produtiva indicada pela queda do Ibovespa.

A desvalorização das ações reflete mudanças nas expectativas sobre lucros, juros, riscos e políticas futuras. Também pode ser ampliada pela necessidade de investidores desfazerem posições financeiras rapidamente.

Isso não elimina os problemas fiscais brasileiros nem torna irrelevantes as preocupações com a dívida pública. O governo Lula continuará pressionado a demonstrar como pretende conciliar suas prioridades sociais com a sustentabilidade das contas públicas.

A questão é que a campanha de Flávio Bolsonaro também não apresentou respostas completas para esse desafio.

Mesmo assim, investidores apostaram na possibilidade de um ajuste que o candidato evitava detalhar.

A queda histórica da Bolsa tornou visível essa diferença entre as exigências dirigidas ao governo reeleito e a confiança depositada na candidatura derrotada.

No centro da contradição está uma pergunta que acompanhou a disputa presidencial e permaneceu sem resposta: se Flávio Bolsonaro prometia preservar benefícios, criar novos programas e economizar até R$ 250 bilhões, quais despesas seriam sacrificadas para fechar essa conta?

O mercado parecia confiar que ele encontraria uma resposta. Os eleitores, porém, terminaram a campanha sem conhecê-la.





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