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domingo, 15 março, 2026
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Que a Perna Cabeluda pirrace o Tio Sam

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É noite de Oscar. O tapete vermelho, mais esticado que a paciência de cinéfilo brasileiro esperando reconhecimento, reluz sob os flashes de câmeras que custam mais do que o orçamento de muitos longas nacionais. O desfile de sorrisos ensaiados e discursos de agradecimento a agentes, cabeleireiros e, quiçá, a uma divindade conveniente, começa. A liturgia é familiar, um misto de premiação de colégio interno com o poderio de um império cultural em declínio, mas que ainda sabe montar um espetáculo. E, como em todo bom ritual, há uma ideologia subjacente, um evangelho não escrito que Hollywood prega há quase um século: o do American Way of Life, da meritocracia redentora e do individualismo como motor da história. A estatueta dourada, esse cavaleiro medieval sem rosto e sem roupa, é o totem de uma fé que se renova a cada março.

Fundada em 1927, mas em ação de premiação desde 1929 – no mesmo ano em que a Bolsa de Nova York despencou e levou consigo a ilusão de prosperidade eterna -, a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas nasceu com um propósito nobre e um problema crônico. A nobreza era celebrar a “excelência artística e técnica”. O problema, que perdura até hoje, é definir o que diabos é “excelência” num mundo que insiste em ser plural. Na dúvida, a Academia, com a sutileza de um elefante numa loja de cristais, optou por celebrar a si mesma. Aquele primeiro banquete no Hollywood Roosevelt Hotel, em maio de 1929, reuniu 270 convidados que distribuíram estatuetas em quinze minutos. Quinze minutos! Hoje, a cerimônia dura mais que um voo transatlântico, mas o espírito permanece o mesmo: Hollywood falando sobre Hollywood para Hollywood, enquanto o resto do mundo assiste, come pipoca e finge que participa.

O Oscar, portanto, nunca foi apenas sobre cinema. Sempre foi sobre a “América” (só para os EUA) e a sua incansável campanha de marketing existencial. Desde os tempos em que John Wayne cavalgava pelos desertos do faroeste, exterminando indígenas com a mesma naturalidade com que se acende um cigarro, até os dias em que a Academia se descobriu “diversa” e passou a premiar filmes sobre injustiças que ela mesma ajudou a perpetuar, a premiação funciona como um espelho narcísico do American Dream. Um espelho que, como todo espelho, reflete apenas o que está diante dele, e jamais o que está por trás.

Neste ano da graça de 2026, o roteiro parece se repetir, mas com reviravoltas que dariam um bom filme. Cito apenas os filmes que pude ver. De um lado do ringue, temos Marty Supreme, a mais recente joia da coroa da A24, com o queridinho (e falastrão quase cancelado) Timothée Chalamet no papel de Marty Mauser, um jogador de ping-pong que, vindo do nada, conquista o mundo na base da lábia, da raquete e de uma auto confiança que beira a patologia. É a cartilha do “sonho americano” em sua forma mais pura, quase destilada: o self-made man, o indivíduo que, contra tudo e contra todos, dobra o destino à sua vontade. Josh Safdie, o diretor, tem a honestidade de mostrar que esse sonho é também um pesadelo. Marty é um narcisista compulsivo, um trapaceiro que manipula amigos e familiares, que se autoproclama “o pior pesadelo de Hitler” e que rouba uma pedra das Pirâmides de Gizé para presentear a mãe. É o hustle culture avant la lettre, o empreendedorismo de palco que confunde ambição com virtude. E, no entanto, com nove indicações ao Oscar, Marty Supreme não é apenas um filme: é um atestado de que a meritocracia, essa ficção conveniente, continua sendo um artigo de fé na Califórnia. Porque, convenhamos, Hollywood adora um sujeito que se ergue sozinho, mesmo que, para isso, pise na cabeça de todo mundo.

Do outro lado, com um recorde histórico de 16 indicações, temos Sinners (ou Os Pecadores, para os íntimos), de Ryan Coogler. Um épico de horror que mistura vampiros, blues e a brutalidade do racismo no Mississippi dos anos 1930. O genial Michael B. Jordan interpreta irmãos gêmeos que tentam recomeçar a vida no Sul profundo, mas descobrem que os verdadeiros monstros não são os que têm presas, e sim os que vestem capuz branco. É um soco no estômago, um filme que usa o gênero para falar das feridas abertas da história americana, da música como resistência, do sangue que corre nas veias e nas plantações. E aqui reside a ironia mais deliciosa da noite. Hollywood, em sua recente e um tanto estabanada busca por redenção e diversidade, abraça Sinners com a força de quem encontrou a galinha dos ovos de ouro. O filme é a prova de que a indústria pode, sim, ser plural, desde que essa pluralidade seja embalada, distribuída e, claro, monetizada segundo as suas próprias regras. Sinners é um filme extraordinário sobre a cultura negra americana, sobre raízes, sobre a encruzilhada entre o sagrado e o profano, mas seu triunfo no Oscar é também um triunfo da capacidade de Hollywood de transformar a contestação em espetáculo, a dor em commodity, a revolução em franchise. Afinal, a mesma indústria que durante décadas relegou atores negros a papéis de motoristas e empregadas agora os celebra, desde que o cheque compense.

E no meio dessa disputa de titãs, onde fica o Brasil? Onde fica a nossa complexa, contraditória e exuberante diversidade cultural? Este ano, ela atende pelo nome de O Agente Secreto, a obra-prima de Kleber Mendonça Filho, indicado a quatro categorias: Melhor Filme, Melhor Filme Internacional, Melhor Ator (Wagner Moura) e Melhor Seleção de Elenco. O longa é um thriller político ambientado no Recife de 1977, em plena ditadura militar. É um filme sobre memória, resistência e as cicatrizes de um país que ainda tenta se entender. E é, acima de tudo, um filme que Hollywood não tem a menor condição de compreender plenamente, e talvez seja exatamente por isso que ele precisa estar ali.

Assistir ao “O Agente Secreto” é mergulhar num Brasil profundo, onde a modernização autoritária convive com o familismo, o “jeitinho” e uma complexidade de relações sociais, raciais e de gênero que não cabem em nenhuma fórmula hollywoodiana. O filme começa num departamento de oceanografia da UFPE, onde uma cientista encontra uma perna humana no estômago de um tubarão, mas não pode guardar o bicho porque a geladeira do departamento não funciona. Só isso já é mais Brasil do que qualquer cena de favela que Hollywood tenha filmado com drone e trilha sonora de bossa nova. É o nosso realismo fantástico involuntário, a nossa ciência feita com gambiarra e fé, o nosso cotidiano que oscila entre o absurdo e o sublime. O filme de Kleber não oferece heróis imaculados nem vilões caricatos. Seus personagens são tão multifacetados quanto a própria cultura brasileira, uma multiplicidade cultural ímpar que inclui dinâmicas inter-raciais dentro das famílias, a corrupção empresarial vestida de patriotismo, a universidade como trincheira de resistência e a ditadura como fantasma que nunca foi devidamente exorcizado. É um cinema que exige do espectador, que não entrega respostas fáceis, que pulsa com as nossas urgências e os nossos fantasmas.

E aí reside o dilema. Como a Academia, acostumada a narrativas de superação individual e a uma visão de mundo onde os problemas, por mais graves que sejam, podem ser resolvidos em duas horas e meia com um abraço redentor e uma trilha sonora edificante, pode compreender a alma de O Agente Secreto? Como explicar a dez mil votantes californianos a nossa “perna cabeluda” dentro do tubarão, a nossa ciência feita com geladeira quebrada, a nossa corrupção que se mistura com a cordialidade, o nosso autoritarismo que se esconde por trás de um sorriso e de um “você sabe com quem está falando”? É como tentar explicar o carnaval para quem só conhece o Halloween. Ou a feijoada para quem acha que comida de verdade é hambúrguer.

Olhemos para a contraposição. Marty Supreme é a história de um indivíduo contra o mundo. Sinners é a história de uma comunidade contra seus demônios, mas ainda dentro do universo simbólico americano. O Agente Secreto é outra coisa. É a história de um país inteiro tentando se lembrar de quem é, enquanto forças poderosas tentam fazê-lo esquecer. Não há self-made man no filme de Kleber. Há um professor universitário preso numa teia de relações que inclui militares, empresários, colegas, familiares e fantasmas do passado. Não há redenção individual. Há a lenta e dolorosa reconstrução de uma memória coletiva. E isso, para a gramática do Oscar, é literalmente uma perna cabeluda de língua estrangeira.

O Oscar, mesmo em seus momentos de maior abertura, ainda é uma festa do Tio Sam. Uma celebração de valores que, embora se pretendam universais, são profundamente americanos. A meritocracia, o individualismo, a crença inabalável no progresso e na redenção pessoal, tudo isso forma o caldo de cultura que nutre a premiação. Quando Parasita, de Bong Joon-ho, venceu em 2020, foi uma exceção que confirmou a regra, e o próprio Bong, com a elegância de quem sabe onde está pisando, agradeceu dizendo que “quando você supera a barreira das legendas, descobre muitos filmes incríveis”. A barreira das legendas, essa muralha invisível que separa Hollywood do resto do mundo, é também uma barreira de imaginário. Porque o problema não é apenas linguístico, é epistemológico. A Academia não tem dificuldade em ler legendas. Tem dificuldade em ler o mundo.

Não se trata de um complexo de vira-lata, longe disso. Trata-se de uma constatação histórica, daquelas que a longa duração nos ensina. De O Pagador de Promessas em 1962, passando por Central do Brasil e Cidade de Deus, nossos filmes mais aclamados chegaram perto, mas sempre esbarraram nessa barreira cultural. A vitória de Ainda Estou Aqui no ano passado, na categoria de Melhor Filme Internacional, foi um momento ímpar, uma brecha nesse muro. Walter Salles e Fernanda Torres abriram a porta. Agora, Kleber Mendonça Filho e Wagner Moura querem sentar na mesa principal e servir a feijoada completa, com couve, farofa, laranja e aquela pimentinha de frevo que faz os olhos lacrimejarem.

E é aqui que a torcida se torna inevitável. Porque torcer pelo cinema brasileiro não é apenas torcer por um filme. É torcer por uma forma de ver o mundo que desafia a hegemonia narrativa de Hollywood. É torcer por um cinema que entende que a história não é feita por indivíduos excepcionais, mas por coletividades complexas. Que sabe que a corrupção não é um desvio do sistema, mas o próprio sistema. Que reconhece que o autoritarismo não é um capítulo encerrado, mas um fantasma cabeludo que ronda o presente. Que compreende que a diversidade não é uma cota a ser preenchida, mas a própria essência de quem somos.

Nesta noite, enquanto as estatuetas douradas são distribuídas no Dolby Theatre, a nossa torcida tem um sotaque pernambucano e um coração que bate no ritmo do frevo, do maracatu e do existencialismo maroto de Dona Sebastiana. Que vença O Agente Secreto. E que, mesmo que não vença, sua presença ali, entre Sinners e Marty Supreme, entre vampiros do blues e jogadores de ping-pong, sirva para lembrar ao mundo que existe um cinema pulsante, complexo e profundamente original para além das colinas inflamáveis de Hollywood. Um cinema que, com ou sem Oscar, já é vitorioso. Porque, no final das contas, a gente sabe que a nossa história, com todas as suas dores e delícias, com suas geladeiras quebradas e suas pernas cabeludas, dá um filme muito mais interessante. E, convenhamos, muito mais divertido.

Aproveitem, leitoras e leitores. O fim do mundo – invariavelmente cheio de guerras – está aí. Que a noite seja longa, que a pipoca não acabe e que, ao menos uma vez, o Tio Sam seja sequestrado pela pirraça da  perna cabeluda brasileira. Agora, convenhamos, é tudo sobre marketing e dinheiro, não? Eis a questão.





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