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sábado, 7 março, 2026
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Quando a crise é projeto: a educação brasileira em disputa

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Por Valter Mattos da Costa*

Entre o projeto denunciado por Darcy Ribeiro e a esperança radical de Paulo Freire, a educação brasileira segue como campo de disputa – não como destino selado.

“A crise da educação no Brasil não é uma crise; é um projeto.” A frase de Darcy Ribeiro atravessou décadas como advertência incômoda. À época, soava como denúncia dura, talvez excessiva. Hoje, relida à luz do presente, parece menos uma provocação e mais um diagnóstico histórico preciso.

O receio que se impõe, olhando em retrospecto, é inevitável: o projeto avançou. Em muitos aspectos, foi bem-sucedido. Não no sentido de qualidade educacional, mas naquilo que sempre esteve em jogo – impedir que a escola pública se consolidasse como espaço de formação crítica, emancipadora e democrática para as maiorias sociais.

Mas reconhecer a força desse projeto não significa aceitá-lo como destino. É aqui que a leitura de Paulo Freire se impõe como contraponto necessário. Para Freire, a educação nunca é neutra, mas tampouco está condenada ao fracasso: ela é sempre prática histórica, situada, atravessada por conflitos e, portanto, passível de transformação.

O que hoje se chama “crise da educação” não é resultado de incompetência ocasional ou de falhas técnicas acumuladas. Trata-se de um processo coerente de desinvestimento material e simbólico na escola pública, acompanhado da redução progressiva do papel social do professor e do esvaziamento do sentido formativo do ensino.

A precarização das condições de trabalho docente, a desvalorização salarial, o excesso de burocracia e a padronização curricular não são desvios. São engrenagens de um mesmo mecanismo. Um mecanismo que transforma a escola em espaço de contenção social, e não de produção de consciência.

Desde cedo, a educação brasileira foi pensada para funcionar dentro de limites muito claros. Alfabetizar sem formar. Instruir sem politizar. Ensinar o suficiente para o trabalho subalterno, mas não o bastante para a leitura crítica da realidade. Essa lógica não desapareceu; apenas se atualizou.

Hoje, ela se apresenta sob o vocabulário da eficiência, da gestão por resultados, das métricas e dos indicadores. Avalia-se incessantemente, mas reflete-se pouco. Mede-se desempenho, mas evita-se discutir sentido. A pedagogia da métrica substitui a pedagogia do diálogo.

Nesse contexto, o professor deixa de ser sujeito intelectual e passa a ser operador de protocolos. Sua autonomia é comprimida por plataformas, apostilas, metas externas e scripts pedagógicos que desconsideram a realidade concreta da sala de aula. Ensinar torna-se cumprir tarefas; educar vira um risco.

O adoecimento docente, cada vez mais visível, não pode ser tratado como fragilidade individual. É sintoma de uma estrutura que exige desempenho máximo com reconhecimento mínimo. Um corpo submetido a cobranças contraditórias, sem tempo para elaborar o próprio trabalho, acaba adoecendo – física e simbolicamente.

Paralelamente, a escola é sobrecarregada de responsabilidades que extrapolam sua função social. Espera-se que resolva a violência, a desigualdade, a fome, o desemprego e a crise de valores. Tudo isso sem o devido investimento público e sem políticas sociais integradas.

O discurso meritocrático completa o quadro. Ao atribuir sucesso ou fracasso exclusivamente ao esforço individual, oculta-se a desigualdade estrutural. Naturaliza-se a exclusão e transfere-se a culpa para alunos e professores. A injustiça social vira falha pessoal.

É nesse ponto que o pensamento de Paulo Freire volta a ser incômodo – e necessário. Freire nunca negou os limites da escola, mas recusou a ideia de que esses limites fossem imutáveis. A educação, para ele, é sempre prática de esperança, não no sentido ingênuo, mas como aposta ética e política na capacidade humana de transformar a realidade.

A escola pode ser capturada por projetos de dominação, mas nunca totalmente. Há sempre fissuras. Há sempre contradições. Há sempre professores, estudantes e comunidades que resistem, mesmo em condições adversas, produzindo sentido onde se tentou impor silêncio.

Reconhecer que houve – e há – um projeto de precarização não é capitular. É condição para enfrentá-lo. Como lembrava Freire, a conscientização não é ponto de chegada, mas ponto de partida. Nomear o problema é o primeiro gesto de resistência.

A educação brasileira segue em disputa. Entre o projeto que venceu em muitos aspectos e a possibilidade histórica de outro caminho. Nada está garantido. Mas nada está definitivamente perdido.

Se a crise nunca foi apenas crise, a superação também não será mero ajuste técnico. Exigirá decisão política, investimento público e, sobretudo, a coragem de recolocar a educação como prática de liberdade.

Darcy diagnosticou. Freire insistiu na esperança crítica. Cabe, agora, decidir se a história continuará sendo administrada – ou transformada.

 

*Professor de História, especialista em História Moderna e Contemporânea e mestre em História social, todos pela UFF, doutor em História Econômica pela USP e editor da Dissemelhanças Editora.





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