O Projeto Território das Artes está promovendo, em Manaus, uma programação gratuita de formação artística voltada para teatro, audiovisual, cinema e comunicação. Contemplada pela Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura (PNAB/AM), por meio do Edital de Fomento Cultural Multilinguagem, a iniciativa é idealizada e ministrada pelo ator indígena Abrão Nakua Mayoruna e busca ampliar o acesso à capacitação artística, fortalecer a representatividade indígena e amazônica e oferecer novas ferramentas de expressão para adolescentes, jovens e adultos.
As atividades começaram no dia 28 de julho de 2026 e estão sendo realizadas principalmente no CAUA, Centro de Artes da Universidade Federal do Amazonas, localizado na Rua Monsenhor Coutinho, nº 724, no Centro de Manaus. Ao todo, a programação prevê 26 encontros formativos, reunindo oficinas de teatro, audiovisual e cinema.
A iniciativa prioriza estudantes da rede pública, pessoas com deficiência (PCDs), jovens indígenas e não indígenas e moradores de contextos urbanos e periféricos. A proposta é aproximar a formação artística de públicos que, muitas vezes, encontram dificuldades para acessar cursos e experiências profissionais nas áreas culturais.
Formação une teatro, cinema e audiovisual
O Projeto Território das Artes foi criado a partir da trajetória pessoal e profissional de Abrão Nakua Mayoruna, artista indígena da etnia Matsés/Mayoruna, natural de Atalaia do Norte, no Amazonas.
Ao longo de sua formação, o ator participou de oficinas e cursos técnicos relacionados à dança, ao teatro e à atuação para audiovisual e cinema, tanto no Amazonas quanto no Rio de Janeiro. Também teve contato com técnicas contemporâneas de interpretação, experiência que contribuiu para sua atuação em diferentes linguagens artísticas.

No audiovisual, Abrão acumula participações em produções como a série “Aruanas”, o filme “Arqueiro da Amazônia”, uma produção coreana, o curta-metragem “Flores Secas” e os longas-metragens “O Barco e o Rio” e “Abequar”, no qual atuou como protagonista.
Essa experiência profissional é utilizada como uma das bases da proposta pedagógica do projeto. A intenção é compartilhar conhecimentos técnicos e artísticos com os participantes, aproximando a formação das situações encontradas por atores e profissionais durante processos de produção teatral e audiovisual.
Mais do que ensinar técnicas de interpretação, o projeto trabalha a arte como instrumento de expressão, pertencimento, comunicação e transformação social.
Oficina de audiovisual trabalha atuação diante das câmeras
Entre os conteúdos oferecidos pela Oficina de Audiovisual estão técnicas diretamente relacionadas ao trabalho do ator diante das câmeras.
Os participantes aprendem sobre enquadramento e posicionamento diante da câmera, marcação de cena, também conhecida como blocking, e deslocamento no espaço cênico. A programação aborda ainda continuidade, ou raccord, recurso fundamental para manter a coerência entre diferentes planos gravados em momentos distintos.
Outro ponto trabalhado é a relação do intérprete com o olhar da câmera e a construção da presença em cena. A oficina também apresenta técnicas relacionadas à economia e precisão dos gestos e movimentos, aspectos importantes para uma atuação audiovisual natural e adequada à linguagem cinematográfica.
A formação inclui ainda exercícios de expressão facial e microexpressões, escuta, concentração e naturalidade diante da câmera.
Os participantes também têm contato com noções de plano, eixo e escala de enquadramento, além da criação de roteiro.
A proposta busca mostrar, na prática, que atuar para uma câmera exige procedimentos diferentes daqueles utilizados no palco. Por isso, um dos conteúdos da oficina é justamente a adaptação da atuação teatral para o audiovisual, considerando as particularidades da linguagem cinematográfica.
Cinema apresenta técnicas de interpretação e criação
Na Oficina de Cinema, os participantes têm acesso a conteúdos relacionados à interpretação para audiovisual, com foco nas técnicas de atuação diante das câmeras.
A programação inclui exercícios de expressão corporal e facial, buscando ampliar a consciência corporal, a gestualidade e a expressividade dos participantes.
A improvisação também ocupa espaço importante na formação. Por meio dos exercícios, os alunos são estimulados a desenvolver espontaneidade, criatividade e capacidade de reação durante as cenas.
Outro conteúdo é a construção de personagens, envolvendo processos de criação, composição e desenvolvimento de figuras que podem integrar diferentes produções audiovisuais.
Os participantes também recebem noções de roteiro, com uma introdução à estrutura narrativa, construção de cenas, diálogos e desenvolvimento de histórias.
A linguagem audiovisual completa a formação, com conteúdos sobre enquadramentos, planos, movimentos de câmera, continuidade e outros elementos utilizados na construção de uma narrativa cinematográfica.
Projeto valoriza narrativas indígenas e amazônicas
Além da capacitação técnica, o Território das Artes possui entre seus objetivos o fortalecimento da identidade e da representatividade indígena e amazônica nos espaços culturais, artísticos e midiáticos.
A proposta parte da compreensão de que a formação de novos artistas também pode contribuir para que histórias, personagens, experiências e perspectivas de povos indígenas tenham maior presença no teatro, no cinema, na televisão e em outras plataformas de comunicação.
A trajetória de Abrão Nakua Mayoruna está diretamente ligada a essa perspectiva. Natural do interior do Amazonas e integrante da etnia Matsés/Mayoruna, o artista construiu sua carreira buscando qualificação técnica e artística e, ao mesmo tempo, mantendo o compromisso com a valorização das narrativas ancestrais.
O projeto também procura estimular o reconhecimento dos povos indígenas nos espaços culturais e midiáticos, ampliando as possibilidades de participação de artistas e produtores oriundos dessas comunidades.
Nesse sentido, a formação não se limita ao aprendizado de técnicas de atuação. Ela também cria um espaço para discutir identidade, pertencimento e a presença das narrativas amazônicas nas produções artísticas.
Atividades chegam à Comunidade Parque das Tribos
Além da programação realizada no CAUA, o Projeto Território das Artes também levou atividades para a Maloca dos Povos Indígenas, Espaço Cultural dos Povos Indígenas, localizada na Comunidade Parque das Tribos, no bairro Tarumã, zona Oeste de Manaus.
As oficinas foram realizadas nos dias 1º e 8 de agosto de 2026. A realização das atividades contou com o apoio de Eliza Satére e Ismael Munduruku, que cederam o espaço para a programação.
A utilização da Maloca dos Povos Indígenas ampliou o alcance territorial do projeto e aproximou as atividades de formação artística de uma comunidade indígena localizada na área urbana de Manaus.
A iniciativa também reforça a proposta de criar oportunidades de acesso à cultura fora dos circuitos tradicionais de formação artística.
Profissionais convidados participam da programação
O projeto também conta com a participação de profissionais convidados para compartilhar experiências e conhecimentos com os participantes.
No dia 1º de agosto, o Diretor de Arte Francisco Ricardo Lima Caetano participou da programação no Parque das Tribos, onde ministrou uma palestra.
Já no dia 15 de agosto, a formação realizada no CAUA recebeu o Professor de Audiovisual da Universidade do Estado do Amazonas (UEA) e Diretor de Cinema Bernardo Abinader. Ele também ministrou uma palestra aos participantes do Projeto Território das Artes.
A participação de profissionais que atuam diretamente no mercado artístico e audiovisual amplia o contato dos alunos com diferentes áreas da cadeia de produção. Além do aprendizado obtido nas oficinas, os encontros permitem conhecer experiências profissionais e diferentes possibilidades de atuação no setor cultural.
Programação reúne encontros durante a semana
O cronograma do projeto foi organizado para contemplar diferentes linguagens artísticas ao longo da semana.
A Oficina de Teatro ocorre às terças e quintas-feiras, das 9h às 12h, no período da manhã. Já as Oficinas de Audiovisual e Cinema são realizadas aos sábados, das 9h às 16h.
No total, são 26 encontros formativos.
A programação foi planejada para proporcionar uma formação continuada, permitindo que os participantes tenham contato com diferentes conteúdos e possam desenvolver gradualmente suas habilidades.
A realização gratuita também é um dos aspectos centrais da iniciativa, uma vez que elimina o custo de inscrição como uma barreira de acesso para pessoas interessadas em ingressar ou ampliar sua formação nas áreas de teatro e audiovisual.
Atividades são abertas a diferentes públicos
O Projeto Território das Artes foi pensado para atender adolescentes, jovens indígenas, jovens não indígenas e adultos. Dentro desse público, a iniciativa estabelece prioridade para estudantes da rede pública e pessoas com deficiência.
Também recebem atenção especial pessoas que vivem em contextos urbanos e periféricos.
A estratégia busca democratizar o acesso à formação artística e cultural e possibilitar que novos participantes conheçam ferramentas que podem ser utilizadas tanto em processos artísticos quanto em projetos de comunicação e produção cultural.
O contato com técnicas de roteiro, atuação, linguagem audiovisual e produção de cenas também pode contribuir para que os participantes desenvolvam projetos próprios e encontrem novas formas de contar histórias.
Equipe reúne profissionais de diferentes áreas
Para colocar a programação em prática, o Projeto Território das Artes conta com uma equipe técnica e pedagógica formada por profissionais ligados à produção cultural, audiovisual e teatro.
Abrão Mayoruna é o proponente e coordenador da iniciativa. A equipe também é composta por Rosana Baré, produtora cultural; Magnum Mesquita, produtor audiovisual e fotógrafo; e Ney, o Virgem, professor de teatro e ator.
A composição multidisciplinar da equipe acompanha a proposta do projeto de trabalhar diferentes linguagens e oferecer aos participantes uma visão ampla sobre o universo artístico.
A experiência dos profissionais envolvidos também contribui para aproximar os conteúdos apresentados durante as oficinas das demandas encontradas em produções culturais e audiovisuais.
Arte como ferramenta de transformação
A proposta do Território das Artes está baseada na ideia de que o acesso à formação artística pode produzir impactos que vão além do aprendizado técnico.
Para os organizadores, o contato com teatro, cinema e audiovisual pode contribuir para o desenvolvimento da comunicação, da criatividade, da autoestima e da capacidade de expressão.
No caso das populações indígenas e amazônicas, a formação também se conecta à necessidade de ampliar espaços para que suas próprias histórias sejam contadas por seus integrantes.
A presença de um artista indígena à frente da iniciativa reforça essa perspectiva. A trajetória de Abrão Nakua Mayoruna reúne experiência artística, formação técnica e participação em produções que dialogam com questões identitárias, ambientais e sociais.
Com isso, o projeto procura transformar o conhecimento adquirido ao longo de sua carreira em uma oportunidade de formação para outras pessoas interessadas em ingressar no campo das artes.
Próximas ações mantêm foco na formação
A programação do Projeto Território das Artes segue com atividades voltadas ao teatro e ao audiovisual, mantendo o CAUA como um dos principais espaços de realização.
O projeto integra as ações de fomento cultural viabilizadas pela Política Nacional Aldir Blanc no Amazonas e utiliza os recursos destinados à iniciativa para oferecer formação artística gratuita.
Ao longo dos encontros, os participantes têm a possibilidade de experimentar diferentes etapas do processo de criação, desde a construção de personagens e desenvolvimento de roteiros até exercícios de atuação, compreensão da linguagem cinematográfica e trabalho diante das câmeras.
A expectativa é que a experiência contribua para ampliar o repertório artístico dos participantes e estimule o surgimento de novas produções e narrativas.
Ao reunir formação, representatividade e acesso gratuito, o Território das Artes se apresenta como uma iniciativa voltada à democratização da cultura e à valorização das identidades amazônicas e indígenas dentro do cenário artístico de Manaus.



