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Na horta comunitária Vale das Amendoeiras, em Contagem (MG), o som das abelhas se mistura ao fazer das pessoas que cuidam da terra. Onde antes havia abandono e insegurança, agora florescem hortaliças, flores e colmeias. Recentemente, a idealização de um meliponário, espaço dedicado à criação de abelhas nativas sem ferrão, parte do projeto Abelha na Flor, Comida no Prato, tem levado educação ambiental e vida a diferentes regiões da cidade.
O projeto nasceu da parceria entre a comunidade, meliponicultores, o mandato da vereadora Moara Sabóia (PT) e a Prefeitura de Contagem. A ideia é simples e poderosa: multiplicar abelhas para multiplicar vida.
O professor de geografia e meliponicultor Giovanni Clímaco, um dos idealizadores do projeto, explica que o meliponário vai muito além da produção de mel.
“A grosso modo, é um lugar onde nós vamos cuidar das abelhas nativas. Ou seja, das abelhas melíponas. Ele é criado com a ideia não só de armazenar as caixas de abelha, mas também tornar a prática da manutenção e do manejo algo mais sustentável e mais fácil e viável de se promover para manter a saúde das abelhas e manter a condição dos enxames continuarem fortes e saudáveis”, afirma.
Essas abelhas, conhecidas por não terem ferrão, são responsáveis por grande parte da polinização de frutas, hortaliças e flores.
“A abelha não faz mal, a abelha faz mel”, diz o bordão do grupo, que busca desmistificar o medo do inseto.
O professor explica que o processo de criação, conhecido como meliponicultura, segue o ciclo natural das colmeias.
As abelhas formam novas colmeias por dois processos distintos: multiplicação e enxameação. Na multiplicação, o ninho cresce naturalmente conforme a rainha faz novas posturas e aumenta a população da colmeia. Já na enxameação, quando o espaço fica pequeno, parte das abelhas, lideradas pela rainha e por uma “princesa”, migra para formar um novo enxame.
Essas abelhas levam recursos da colmeia-mãe para um novo local, chamado ninho isca, onde ocorre a fecundação da nova rainha e o início de uma colônia independente. As abelhas jovens passam a buscar alimento diretamente na natureza, ampliando a polinização e contribuindo para o aumento da biodiversidade.
Cuidado que cura
Para Diva Veloso da Cunha, coordenadora do projeto Abelha na Flor, Comida no Prato, a chegada dos meliponários renova a esperança das comunidades. As hortas, explica, eram espaços abandonados, hoje foram transformados em locais de convivência e aprendizado.
“É uma terapia. Eu vim não para ganhar dinheiro, mas pelo poder de colher hortaliças orgânicas, para consumo e para terapia. Eu estava com quadro de depressão e isso sumiu. Eu falo que o melhor remédio que a pessoa pode ter é cuidar da natureza”, diz.
A horta comunitária que Cunha coordena já colhe frutos e hortaliças orgânicas que são doadas a quem ajuda no cultivo. Em breve, escolas da região também serão convidadas para oficinas de plantio e educação ambiental.
Polinizar a cidade
A presidente da Ecovida, coletivo que ajuda a gerir o meliponário, Maria Antonieta Pereira, lembra que o projeto se encaixa na missão da ONG: preservar as nascentes, córregos e a biodiversidade da região do Nacional, uma das mais ricas em fauna e flora de Contagem.
“O nosso objetivo não é criar abelhas para produzir mel para gerar renda. Isso pode até ser também uma coisa interessante. Mas o nosso objetivo principal é criar abelhas para polinizar a natureza, para permitir que a natureza continue fornecendo frutos”, lembra.
Com apoio de voluntários e moradores, o projeto já instalou e planeja instalar meliponários em diferentes pontos da cidade: na comunidade quilombola dos Arturos, no Parque Gentil Diniz, na Horta de Sapucaias, e em comunidades como Siriácos e Nascentes Imperiais.
Comunidade, ancestralidade e resistência
Além do impacto ambiental, o projeto tem um papel social profundo. Mais de 200 pessoas já foram impactadas por meio das oficinas realizadas na Horta sobre o meliponário. Marina Costa, integrante da equipe gestora da horta, que conta com aproximadamente seis pessoas, ressalta que o espaço se tornou um ponto de resistência e educação popular.
“O espaço era abandonado, mas foi transformado pela mão da comunidade, em parceria com a prefeitura, em um espaço que floresce plantas e vidas. A gente vai transformando a vida das pessoas que passaram por aqui. Tem gente que abre um sorriso só de ver planta”, alegra-se.
“A horta abre caminhos. Às vezes, a pessoa vem triste, conversa com a planta, com as outras pessoas, e começa a se reerguer. Isso é educação ambiental e também é cuidado humano”, continua.
Sustentabilidade
O gestor comunitário Sidney Gualberto Silva, que atua há mais de dois anos na horta Vale das Amendoeiras, vê no projeto uma chance de reconectar as pessoas com o que é essencial.
“É um momento de bom entrosamento entre as pessoas da região. Às vezes, até quem vai no posto de saúde, na UBS, fazer algum tratamento, quando volta, já volta até com a ‘receita’ de passar aqui para pegar umas folhinhas, para fazer um cházinho”, conta.
No fundo, o projeto de meliponicultura em Contagem é uma metáfora viva da sociedade, como explica Giovani Clímaco.
“Cada abelha tem a sua função e é importante dentro de um todo. Elas nascem e têm a sua função social dentro da colmeia, sem a necessidade da ordem, sem a necessidade da imposição. Cada uma delas imprime a sua própria importância dentro do processo de construção. Elas conseguem manter essa organização e fazer disso um coletivo muito forte”, destaca.
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Fonte: Brasil de Fato



