A atriz e pesquisadora Correnteza Braba se torna, na próxima quarta-feira, 29 de abril, a primeira pessoa trans, em 35 anos de história do Programa de Pós-Graduação em Educação (PPGE) da Universidade Federal do Amazonas (UFAM), a defender uma dissertação e alcançar o grau de mestra pelo curso.
A defesa será realizada às 14h, no miniauditório do PPGE, no Instituto de Filosofia, Ciências Humanas e Sociais (IFCHS), com acesso aberto ao público.
“Sou uma pessoa trans não-binária, que produz e acredita no Teatro, na Educação e na Ciência produzida na Amazônia”, declara.
Para Correnteza, sua presença deve provocar mudanças nos espaços acadêmicos e institucionais, promovendo transformações numa estrutura que, segundo ela, está em falência.
“Que eu seja a primeira de muitas e que, cada vez mais, estejamos ocupando espaços e cargos em nossa sociedade. Que estejamos nas salas de aula, como estudantes e professoras e, quiçá, ocupemos a reitoria de grandes universidades”, enfatiza.
A pesquisa
Intitulada “Terreiro-Escola na cidade de Manaus: processos afro-educacionais no Recanto de Preta Mina Ilê de Iansã”, a pesquisa investiga os processos formativos em um terreiro de Omolokô, uma vertente religiosa afro-brasileira, assim como a Umbanda, o Candomblé e a Jurema, propondo reflexões sobre o papel das artes no ensino-aprendizagem dentro de práticas espirituais.
A dissertação desenvolve uma análise de como as artes contribuem para o processo de ensino-aprendizagem no ritual iniciático do Omolokô no Recanto de Preta Mina Ilê de Iansã.
Vivência e Escrevivência
Utilizando o método etnográfico, abordagem que se baseia na convivência direta com o contexto pesquisado, a autora acompanha práticas, rituais e experiências do terreiro, valorizando a observação e a participação como formas de produção de conhecimento.
A pesquisa também se apoia nas escrevivências, conceito desenvolvido pela escritora Conceição Evaristo, que propõe uma escrita atravessada pela experiência de vida de quem pesquisa, rompendo com a ideia de neutralidade e reconhecendo a trajetória como fontes legítimas de saber.
Chãos de Terreiros
Nesse contexto, Correnteza Braba observa o ritual da muzenza, uma das etapas do processo iniciático no Omolokô, marcado pela incorporação e pela dança dos orixás.
A partir dessas experiências, a pesquisadora formula a noção de “chãos de terreiros”, conceito que evidencia o canto, a dança, a música, a oralidade e as produções manuais como bases de uma educação afrocentrada, construída a partir da prática e da ancestralidade.
As primeiras favelas
O trabalho também mergulha na formação histórica da cidade de Manaus, analisando os conflitos sociais entre a elite e populações originárias, negras e migrantes.
A pesquisa aponta que esses embates contribuíram para o surgimento das primeiras favelas da cidade, territórios onde culturas afro-diaspóricas e originárias se consolidaram por meio de manifestações culturais e práticas religiosas.
A dissertação evidencia, por meio de documentação levantada, registros policiais que indicam a presença dos primeiros terreiros na cidade, historicamente marcados por estigmatização e marginalização.
Terreiro como produção de conhecimento
Entre esses espaços, o Recanto de Preta Mina Ilê de Iansã, localizado no bairro do Educandos e fundado em 1974 por Tatazazi Adalberto Nunes de Xangô, é apresentado como um território de resistência e produção de conhecimento.
No trabalho, o terreiro é compreendido como um “chão” que possibilita caminhos afrocentrados para pensar uma educação alinhada à valorização das culturas afro-brasileiras e originárias, conforme estabelece a Lei nº 10.639/03, que tornou obrigatório o ensino da história e cultura afro-brasileira e africana nas escolas do país.
Correnteza Braba
Graduada em Licenciatura em Teatro pela Universidade do Estado do Amazonas (UEA), Correnteza Braba também constrói sua trajetória no campo artístico.
A pesquisadora foi premiada como Melhor Atriz no Festival de Teatro da Amazônia em 2024 e 2025, pelos espetáculos Lágrimas Negras e Mojubá, respectivamente.
Além da atuação nos palcos, ela é yawô de Oxum (filha de santo que passou pela iniciação), cofundadora e produtora cultural da Café Preto Produções Artísticas e crítica em artes cênicas negras no site Arquivos de Okan.
Para a pesquisadora, ocupar a pós-graduação como pessoa trans e artista amazônida representa um gesto político e coletivo.
“Ser uma filha de santo do terreiro Recanto de Preta Mina e ter a oportunidade de ocupar a pós-graduação em uma universidade pública no Amazonas, escrevendo sobre nossos modos de vida, que apontam para uma Educação igualitária, libertadora e afro-centrada na Amazônia, é uma oportunidade grandiosa”, afirma.
A trajetória, segundo ela, não se limita ao campo individual, mas se conecta a um projeto coletivo de reparação histórica a partir de outras epistemologias.
“É a continuação do sonho-projeto dos meus mais velhos, em reescrever a história do Estado brasileiro, devolvendo o protagonismo aos nossos, e não mais pela ótica eurocêntrica de nossos algozes”, completa.
Serviço
O QUE: Defesa de Mestrado de Correnteza Braba
ONDE: Miniauditório do Programa de Pós-Graduação em Educação (PPGE/IFCHS) – UFAM
QUANDO: 29 de abril de 2026
HORÁRIO: 14h (horário de Manaus)
QUANTO: Evento aberto ao público



