O ator Val Kilmer morreu em abril do ano passado e esta semana ele estrelou o trailer de um filme que ele nunca filmou. Toda a participação Kilmer em “As Deep as the Grave” foi gerada por inteligência artificial, com autorização da família. Seu rosto e voz foram sintetizados, seu gestos e maneirismos reconstituídos a partir do arquivo da carreira. Pelo que deu pra ver até aqui, parece bem realista e convincente. Provavelmente não será o último caso assim.
Enquanto isso, a Meta desenvolve um avatar de Mark Zuckerberg para ele responder dúvidas e participar de reuniões com funcionários no lugar do CEO. O sistema é treinado com vídeos, entrevistas e trejeitos de Zuckerberg e a ideia é que funcionários se sintam mais conectados a ele. O efeito prático deve ser o oposto, porque a pessoa vai saber que não está falando com ele e a sensação que isso desperta pode ser pior do que simplesmente não falar.
E essa lógica já se multiplicou. O YouTube anunciou uma ferramenta para criadores gerarem avatares com a própria aparência e voz para uso em vídeos curto no formato Shorts na plataforma. A CAA, uma das maiores agências de talentos do mundo, criou o CAA Vault para armazenar clones digitais dos clientes, incluindo rosto, corpo, voz e terabytes de dados por pessoa.
Até o marketing de influência, construído sobre a promessa de um relacionamento com uma pessoa real, está indo por esse caminho. Recentemente, o influenciador Khaby Lame vendeu seus dados biométricos por quase 1 bilhão de dólares em ações de uma empresa de Hong Kong, que esperava faturar 1 bilhão de dólares em vendas de produtos utilizando a imagem de Khaby. Quatro meses depois, as ações da empresa caíram mais de 90%.
No RESUMIDO desta semana, comentei o caso de uma startup de IA que alugou uma loja em São Francisco por três anos e entregou o controle a uma IA chamada Luna. A robô escolheu os produtos, criou a marca e contratou os dois funcionários humanos. Em menos de cinco minutos após ser ativada, já tinha criado perfis e publicado vagas no LinkedIn e no Craigslist. Nas entrevistas, Luna não revelava ser uma IA, a menos que perguntada diretamente. Teve gente que não topou a vaga pelo desconforto de ter um chefe robótico.
Presença sempre foi um produto. O que mudou é que agora ela pode ser embalada, licenciada e revendida sem que a pessoa precise estar de fato no lugar. Advogados alertam que contratos já incluem cláusulas para reter imagem além do prazo original, e muitos criadores assinariam sem perceber.
A autenticidade pode ser mais um ativo a ser automatizado.



