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quinta-feira, 12 fevereiro, 2026
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praças, parques e quadras como territórios de infância — Brasil de Fato

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No próximo domingo (12), é celebrado o Dia das Crianças, data tradicionalmente marcada por festas, presentes e atividades lúdicas que comemoram a vida dos pequenos. No entanto, para muitas crianças, especialmente aquelas que vivem em áreas periféricas, a data é apenas um ponto de partida para reflexões mais profundas sobre infância, acesso a lazer e qualidade de vida, e o brincar, que é algo tão simples, torna-se uma atividade que carrega significados sociais, educativos e políticos.

De acordo com a psicóloga clínica e psicoterapeuta infanto-juvenil, Deyseane Lima, o brincar é essencial para que a criança aprenda a lidar com suas emoções, consigo mesmo e com os outros. A doutora em educação pela Universidade Federal do Ceará (UFC), ainda explica que o brincar desenvolve habilidades sociais em crianças, como compartilhar, negociar, esperar a vez e resolver conflitos, fortalecendo autoestima e identidade. Além disso, Lima destaca que o ato de brincar possibilita aos pequenos aprender a expressar emoções e sentimentos. “Na clínica, observo que crianças que brincam regularmente desenvolvem maior capacidade de lidar com emoções, fortalecem vínculos afetivos e constroem resiliência diante de dificuldades”, relata.

Para a pesquisadora e professora de Arte Educação da Universidade Estadual do Ceará (Uece), Dra. Edite Colares, são nas brincadeiras que o pensamento desenvolve-se a partir da imaginação e do gesto até chegar à fala e à linguagem articulada. Segundo a educadora, “a brincadeira é ligada inicialmente às ações, mais tarde se vincula também à palavra, estabelecendo até uma outra função para a linguagem, a simbólica”. Colares destaca ainda que no ambiente escolar, as brincadeiras são utilizadas como ponto de partida para corporeidade da criança nos processos formativos indispensáveis à educação infantil.

Apesar de sua importância, a infância na periferia enfrenta desafios estruturais. Muitas famílias lidam diariamente com limitações financeiras, insegurança e a ausência de espaços adequados para que os filhos possam se divertir de forma segura.

Murilo Rael é filho de Kélvia Teixeira e Jefferson Brito. Foto: Acervo Pessoal

Moradora do bairro Itaperí e mãe do pequeno Murilo Rael, de apenas dois anos e quatro meses de idade, Kélvia Teixeira, que também é psicóloga, revela que assim como a maioria das crianças, seu filho também adora brincar, e caso permitido, passaria o dia inteiro na rotina de brincadeiras, e ressalta ser ótimo para o desenvolvimento do garoto. Apesar da energia para a diversão, Teixeira destaca algumas limitações enfrentadas pela família para garantir a rotina de brincadeiras do pequeno Rael. “Nós moramos em uma casa, mas sem área externa, sem quintal, porque vivemos na parte de cima da casa da minha sogra. Por conta disso, o Murilo costuma brincar dentro do quarto dele ou desce para a casa da avó, que fica embaixo. Lá tem um quintalzinho bem pequeno, mas com um pouco de terra, e ele adora brincar ali com pedrinhas e areia”, conta.

Além da própria casa, Teixeira pontua ainda outros espaços onde seu filho tem a liberdade de brincar com qualidade, como a casa de sua mãe, localizada na Barra do Ceará, e a escola, a qual se tornou um espaço importante de aprendizado e convivência com outras crianças.

Não se trata apenas de diversão, envolver crianças em atividades lúdicas estimulam a criatividade, promovem habilidades cognitivas, fortalecem vínculos afetivos e contribuem para o desenvolvimento emocional. Entretanto, vale destacar, que a infância na periferia enfrenta desafios estruturais, onde muitas famílias lidam diariamente com limitações financeiras, insegurança e a ausência de espaços adequados para que os filhos possam se divertir de forma segura.

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Espaços públicos e o desafio de garantir a infância nas cidades

A presença de espaços públicos acessíveis, como praças, quadras esportivas e parques, surge, portanto, como um elemento central na garantia de direitos básicos da infância. Esses ambientes vão muito além de um simples local para correr ou prática de qualquer outra atividade física, funcionam como espaços de socialização, aprendizado e fortalecimento da cidadania. 

Para Lima, espaços como praças, quadras e parques constituem ambientes fundamentais para o desenvolvimento emocional, social e cognitivo das crianças. “As crianças que frequentam regularmente esses espaços apresentam maior autonomia, criatividade e senso de pertencimento à comunidade. Além disso, interações nessas localidades fortalecem empatia, cooperação e habilidades de resolução de conflitos”, afirma. De acordo com a psicoterapeuta, a presença e manutenção desses ambientes refletem políticas públicas que reconhecem a infância como prioridade social, garantindo direitos de brincar, explorar e socializar de forma segura e saudável.

A garantia de espaços públicos para o lazer das crianças de forma segura é fundamental para garantia de uma infância plena. Foto: Gabriel Andrade/Semjel

Seguindo na mesma direção, Colares aponta que a ausência de espaços seguros nas cidades priva a infância e aos cidadãos em geral  de se apropriar da cidade e de ter uma vida comunitária saudável e feliz. “Para a infância o prejuízo é maior, pois por ser um ser em formação a atividade física, por exemplo, promove o desenvolvimento psicomotor infantil e gera satisfação e descobertas que sem eles é inviável de acontecer”, aborda.

A realidade da infância na periferia, no entanto, é marcada por obstáculos, e não garante que crianças e jovens tenham acesso pleno e seguro a esses espaços, um exemplo é a mãe de Rael que, apesar de morar próximo da Praça da Cruz Grande, espaço que conta com quadras, campinho aberto, anfiteatro e alguns brinquedos, a mesma não se sente segura em levar o pequeno para brincar. “Ele até pede bastante, mas, por conta dessa sensação de insegurança, a gente acaba não frequentando tanto o local”, afirma. Segundo Teixeira, o bairro em que reside não possui muitos espaços adequados para as crianças brincarem com tranquilidade e segurança, e garante que se desloca ao bairro vizinho para ter acesso a um local seguro para a rotina de brincadeira do garoto. “Mesmo não sendo dentro do nosso próprio bairro, essa praça acaba sendo o lugar onde buscamos proporcionar ao Murilo experiências de brincar ao ar livre com mais segurança”, assegura.

Colares evidencia as políticas públicas que podem garantir o direito ao brincar de crianças em espaços urbanos. A criação e manutenção de áreas verdes, amplas e com parquinhos e demais brinquedos; a garantia de espaços livres e ambientes arborizados em creches, escolas de educação infantil e fundamental; a formação e capacitação de profissionais para atuarem de maneira qualificada; a criação de brinquedotecas nas cidades; e a criação de programações culturais em equipamentos de cultura nos centros urbanos, são algumas das políticas apontadas por Colares para que todas as crianças tenham acesso ao direito de brincar com plenitude e segurança.

Os espaços públicos, como praças, quadras e parques, surgem como aliados essenciais na promoção de uma infância saudável, pois, além de espaços de lazer, são territórios de socialização, aprendizado e fortalecimento da cidadania. Vale destacar que além desses espaços, iniciativas populares e comunitárias têm ganhado destaque ao buscar transformar lugares ociosos em ambientes de convívio e aprendizagem, como as bibliotecas comunitárias.

Entre telas, a saúde mental das crianças

Em entrevista ao BdF Ceará, a psicoterapeuta infanto-juvenil conta que rotinas muito aceleradas e exposição excessiva a telas podem gerar sobrecarga emocional, ansiedade e dificuldades de atenção. “É importante um acompanhamento da família nos conteúdos e tempo do uso de telas das crianças. Na prática clínica, percebo que crianças com pouco tempo de brincadeira livre ou atividades de interação presencial têm menor capacidade de lidar com emoções e com frustrações”, afirma Lima.

Para isso, a psicoterapeuta afirma a necessidade dos pais controlarem o tempo de tela dos filhos, além de realizarem pequenas atitudes, tais como ouvir a criança com atenção, validar seus sentimentos, estabelecer limites claros e consistentes e reservar momentos de brincadeira livre. “Na clínica, vejo que crianças que têm adultos/familiares presentes e acolhedores, que dialogam sobre emoções e incentivam a expressão de sentimentos têm mais possibilidades de saúde e qualidade de vida”, comenta.

Por outro lado, Colares faz um resgate histórico e ressalta que o último século trouxe mudanças drásticas nas relações sociais do homem, e salienta ainda que a maquinização de outrora aprimorou-se ainda mais, e que vivemos hoje a era da robótica, da informatização, da internet. “Dentro disso, a individualização na brincadeira das crianças, se dá mesmo quando as crianças brincam juntas, pois estão cada vez mais fechadas em brincadeiras isoladas e dependentes de suportes materiais”, aponta.

Antigamente, um dos poucos momentos que as crianças tinham com uma tela era a televisão para assistir desenhos. Hoje, com celulares e tablets, o cenário é totalmente outro. Foto: Rido/Shutterstock

Para a professora, o diálogo muitas vezes é com a máquina e não com o colega, o que aumenta a solidão, as brincadeiras estáticas, o uso exacerbado das telas, gerando um comportamento que não gera a mesma interação, movimento e relação com a natureza como nas brincadeiras de outrora, aspectos estes de grande relevância para o desenvolvimento integral do ser humano.

Questionada pelo BdF Ceará, Teixeira reflete o tipo de infância que tem conseguido oferecer ao filho, e diz ser impossível não lembrar da própria infância, e fazer uma comparação de forma automática. “Eu nasci e me criei na periferia de Fortaleza, em uma comunidade na Barra do Ceará. As casas eram muito próximas umas das outras, e as pessoas também. Brincávamos na rua, na casa dos amigos, e mesmo sem grandes estruturas ou espaços públicos bem cuidados, a gente encontrava maneiras de brincar”, revela.

Kélvia Teixeira na infância ao lado de seus irmãos. Foto: Acervo Pessoal

A mãe reflete ainda como as telas transformaram a infância de hoje, e relembra que na sua época de infância, elas existiam de forma limitada, além da falta de celulares e plataformas de streamings. “Hoje é diferente, e a gente tenta equilibrar esse acesso, trazendo para o Murilo um pouco da simplicidade e da criatividade que tivemos na infância”, conta Teixeira.

Rotina acelerada e culpa: o dilema dos pais no tempo da infância

Além das telas, outro grande desafio enfrentado pelas famílias brasileiras nos tempos atuais é conciliar a rotina diária de trabalho com os cuidados em casa, seja com os afazeres domésticos ou até mesmo na relação parental com os filhos. Na família de Teixeira não é diferente. A mãe do pequeno Rael possui uma demanda semanal de 40 horas de trabalho, e afirma possuir apenas um único intervalo entre os turnos, o qual aproveita para ir em casa ver o garoto. “Mas, de fato, o nosso tempo juntos começa mesmo a partir das cinco da tarde, até a hora em que ele vai dormir, por volta das 20h. Aos fins de semana, só conseguimos estar juntos quando eu não estou de plantão”.

Momento de lazer entre Kélvia, Jefferson e o pequeno Murilo. Foto: Acervo Pessoal

Apesar da dificuldade em passar mais tempo com o filho, Teixeira conta que seu marido possui um trabalho um pouco mais flexível, e por isso, consegue cuidar das tarefas domésticas e manter a casa em ordem, o que permite à psicóloga dedicar o tempo que tem livre ao Rael. “Essa divisão é essencial, por exemplo, nos sábados pela manhã, enquanto o Murilo quer e precisa da minha atenção de brincar, eu posso estar com ele, porque o meu marido está cuidando da limpeza da casa ou preparando o almoço”, revela a mãe.

Por fim, Teixeira diz ainda elencar juntamente ao marido, prioridades para a vida da família, e revela que no momento a mais importante delas é o bem-estar do filho do casal. “Às vezes chega o domingo e estamos exaustos, mas ele está cheio de energia. Então pensamos: ‘vamos levar ele pra praia, pra pracinha, pra correr um pouco’. E assim vamos”. Teixeira destaca também a importância da construção de uma boa rede de apoio, essencial na sua rotina de trabalho.

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Fonte: Brasil de Fato

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