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quinta-feira, 4 junho, 2026
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Portinari desenha a diplomacia do Brasil em era de redefinição global

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Num momento de redesenho da ordem internacional, é justamente um pintor que serve como embaixador do Brasil para aproximar o país à China, o novo polo de poder no mundo. A partir do dia 9 de junho, o Museu Nacional em Pequim inaugura a maior exposição já realizada com quadros de Cândido Portinari na Ásia e uma das mais importantes do artista no exterior.

Nesta semana, ao desembarcar as obras dos caminhões que traziam os quadros do aeroporto ao museu, os trabalhadores chineses provavelmente não tinham ideia de que estavam montando uma ponte entre duas culturas.

60 obras originais do brasileiro serão exibida até o dia 10 de outubro, numa operação patrocinada pela Petrobras. O local é o segundo museu mais visitado do mundo, atrás apenas do Louvre, e a expectativa dos organizadores é de que 4 milhões de pessoas visitem o museu neste período.

A exposição ocorre num momento de ataques dos EUA contra a soberania brasileira e de uma tentativa de extorsão. Nos últimos dias, o governo Trump usou o desmatamento, o comportamento do STF, as tarifas nacionais e até mesmo o Pix para justificar uma ofensiva contra o país.

O clima de desconfiança também cresceu depois que o Departamento de Estado escolheu um novo embaixador sem experiência diplomática alguma para ser o representante dos EUA no Brasil. Para muitos, trata-se de um sinal de que sua função não será a de construir pontes. Mas operar num momento decisivo das eleições.

Nesse sentido, a exposição em Pequim é praticamente o espelho invertido de uma outra relação que o Brasil costura pelo mundo.

Nos bastidores das relações internacionais, a diplomacia cultural serve como instrumento para sugerir que existe o reconhecimento do outro lado como um ator revelante na história da civilização. Um indicador que não há espaço para humilhações ou gestos de submissão.

Ao acolher Portinari, Pequim confere ao Brasil – e não apenas ao pintor – um local de destaque em sua própria instituição cultural.

Outra sinalização que é dada numa troca cultural entre dois países emergentes é a de que já não existe espaço para uma hegemonia cultural. O século 21 caminha para ser um marco no fim da história única e do imperialismo sedutor que prevaleceu por décadas.

Nada na diplomacia, porém, é apenas um gesto de generosidade. No fundo, até a generosidade em política externa é calculada. A reportagem escutou, em recente viagem para Pequim, a preocupação com um eventual alinhamento completo dos Brasil aos interesses dos EUA, caso Flávio Bolsonaro vença as eleições.

Por enquanto, porém, a China não disfarça que quer aproveitar a tensão criada por Trump pelo mundo para se apresentar como um parceiro confiável e um mercado para a exportação brasileira.

Não é a primeira vez que Portinari é instrumento de diplomacia no Brasil. Ainda nos primeiros anos repletos de esperança da criação da ONU, foram suas telas Guerra e Paz que desembarcaram em Nova Iorque levando a ambição de um país que queria seu lugar na mesa que decidiria o destino do planeta.

Desta vez, a arte de um pintor uma vez mais busca a abertura de diálogo, num mundo cada vez mais surdo.





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