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quarta-feira, 25 fevereiro, 2026
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População em situação de rua aumenta 142% em 5 anos; entenda

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A população em situação de rua no âmbito dos inscritos no CadÚnico (Cadastro Único para Programas Sociais) atingiu cerca de 350 mil em 2024 — um salto de 142% em relação a 2019, quando havia 144,7 mil registros, conforme dados compilados por reportagem do jornal O Globo. O crescimento ocorre em meio à melhora generalizada de indicadores sociais no Brasil, como queda da pobreza extrema, redução da insegurança alimentar, ampliação do Bolsa Família, que hoje alcança 20 milhões de famílias, e melhora nos índices de emprego e renda.

Dados recentes do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatistica) mostram que o número de brasileiros em insegurança alimentar grave recuou para 6,4 milhões — o menor patamar já registrado — e a ONU (Organização das Nações Unidas) retirou o Brasil do Mapa da Fome.

A taxa de desemprego também está entre as mais baixas da história recente, e a renda real da população voltou a crescer. Apesar disso, o avanço da população em situação de rua revela um descompasso nas políticas públicas voltadas para essa parcela da população.

População em situação de rua e o descompasso da assistência social

Segundo especialistas, o aumento expressivo do número de pessoas nas ruas não pode ser explicado apenas por variáveis econômicas. Ao O Globo, o sociólogo Marco Antonio Natalino, do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), disse haver um descompasso entre os avanços da assistência social e a falta de estrutura de acolhimento. “O número de abrigos, centros de apoio e serviços especializados não acompanhou o crescimento da demanda”, afirma.

Os dados do CadÚnico revelam ainda o perfil dessa população: 84% são homens, 70% têm entre 30 e 59 anos e 69% se declaram negros. A maioria se concentra em grandes centros urbanos — 50 cidades concentram 70% da população de rua. Mas o fenômeno se espalha pelo interior do país: em 2015, havia registros em 1.215 municípios; em 2024, o número dobrou para 2.683.

Desafios do Ruas Visíveis

Diante do agravamento do quadro, o governo federal lançou o programa Ruas Visíveis, coordenado pelo Ministério dos Direitos Humanos e Cidadania. A iniciativa busca articular ações de habitação, saúde, assistência social, trabalho e cultura. Porém, seu orçamento anual de R$ 1 bilhão é considerado insuficiente pelos especialistas para fazer frente à complexidade e escala do problema.

Segundo Maria Luiza Gama, diretora do ministério, a pandemia de Covid-19 acelerou a crise, com desemprego, despejos e rompimento de vínculos — especialmente entre a população LGBTQIA+. Ela defende uma abordagem integrada, com moradia como eixo central de cuidado. “A política ideal é preventiva. É preciso oferecer caminhos de saída que envolvam saúde mental, acesso a renda e vínculos familiares”, diz.

O programa Ruas Visíveis inclui ações-piloto de moradia cidadã, em que o domicílio funciona como ponto de partida para a reintegração social. Mas, como ressalta Natalino, a resposta ainda é pontual. “Centros POP e Creas (Centro de Referência Especializado de Assistência Social) fazem um trabalho relevante, mas são poucos e muitas vezes sobrecarregados. Falta escala e efetividade”, avalia.

Divergência de dados

Há ainda divergência sobre o número real de pessoas vivendo nas ruas. O último censo do IBGE foi em 2022, com nova pesquisa prevista apenas para 2028. Enquanto o CadÚnico aponta 22,4 mil pessoas em situação de rua no Rio de Janeiro, o censo municipal de 2022 registrava 7,8 mil. Em São Paulo, o CadÚnico mostra 95 mil, mas o levantamento da prefeitura de 2021 contava 31,8 mil.

Joana Darc Bazílio da Cruz, coordenadora nacional do movimento de população de rua, critica a falta de articulação entre os entes federativos e a resistência de governos estaduais em adotar o programa Ruas Visíveis. “O que falta é vontade política e moradia digna com acesso a saúde, educação, trabalho e cultura. O que existe hoje é uma segregação social irreparável”, afirma.





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