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Por Paulo Batistella – Ponte Jornalismo
A Polícia Militar do Estado de São Paulo (PMESP) voltou a intimidar uma comunidade em Piracicaba, no interior paulista, onde um jovem de 22 anos foi morto no ano passado ao tentar proteger a esposa grávida de uma abordagem policial violenta. Na última terça-feira (27/1), policiais militares estacionaram com uma viatura no cruzamento onde ocorreu o assassinato e passaram a fazer fotos de um estabelecimento comercial onde estiveram testemunhas do caso na ocasião em que houve a morte.
A atitude da PMESP se deu logo após a soltura dos dois policiais que respondem pela morte de Gabriel Junior Oliveira Alves da Silva: o cabo Junior César Rodrigues e o soldado Leonardo Machado Prudêncio, ambos do 10ª Batalhão de Polícia Militar do Interior (BPM/I). Conforme mostrou a Ponte, eles obtiveram liberdade provisória pela Justiça de São Paulo em 17 de dezembro e puderam retomar o trabalho na PMESP, desde que não estejam envolvidos em atividades externas e operacionais.
A Ponte questionou a Secretaria da Segurança Pública paulista (SSP-SP), à frente da PMESP, sobre quem eram os policiais a bordo da viatura e por qual razão eles fizeram fotos do local. Perguntou também se a pasta entende ter se tratado de intimidação a testemunhas. Em resposta, a SSP-SP enviou um comunicado tratando da soltura de Junior e Leonardo, sem mencionar a conduta intimidatória recente.
“Os dois policiais militares tiveram as prisões preventivas revogadas pela Justiça em dezembro de 2025 e permanecerão afastados do serviço operacional, sendo empregados em funções administrativas internas no Comando de Policiamento do Interior 9 (CPI-9), como restrição imposta pelos Processos Administrativos Disciplinares aos quais respondem. A Polícia Militar ressalta que não compactua com desvios de conduta e que todas as ocorrências dessa natureza são rigorosamente apuradas, com a adoção das medidas administrativas e legais cabíveis”, escreveu.
Viatura já havia sido usada em caso anterior de intimidação
O episódio recente se junta a vários outros de intimidação ao bairro Vila Sônia, onde Gabriel foi morto. Inclusive, a viatura utilizada agora, de prefixo I-10504, também esteve presente em um caso de 10 de abril do ano passado, quando o advogado Gustavo Pires, presidente da Comissão de Direitos Humanos da subseção de Piracicaba da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB-SP), e um estagiário de seu escritório, o estudante de Direito Brunno Barbosa, foram vítimas de uma abordagem truculenta.
Naquela ocasião, quatro policiais insistiram para que os dois entregassem seus celulares e chegaram a intimidá-los com um fuzil. Eles vinham prestando apoio à família de Gabriel e a outras testemunhas. Os agentes envolvidos naquela abordagem chegaram a ser afastados do trabalho operacional em junho do ano passado, na mesma época em que Junior e Leonardo foram presos temporariamente.
A viatura usada nas duas ocasiões pertence à 5ª companhia do 10º BPM/I. O batalhão é comandado pelo tenente-coronel Ademar Gregolim Júnior, alçado ao posto em junho do ano passado.
Testemunhas deixaram de ir a audiência por medo
A família de Gabriel soube da soltura de Junior e Leonardo na terça da semana passada (20/1), quando deveria ocorrer uma audiência judicial para tratar da eventual ida dos acusados para júri popular. O sessão acabou suspensa pela Justiça a pedido de um dos policiais. Além disso, diversas testemunhas de acusação não estiveram presentes por medo de retaliação dos réus e de outros integrantes da PMESP.
Junior foi o autor do disparo que matou Gabriel. Conforme revelou a Ponte, o tiro entrou entre a nuca e a orelha direita e saiu um pouco acima, por trás da cabeça do jovem. Já Leonardo acompanhou o colega na ocorrência e manteve a esposa da vítima, Rebeca Alves Braga, de 20 anos e à época com oito meses de gestação, dentro do camburão de uma viatura enquanto o marido dela sangrava no chão. Ele também puxou ela pelos cabelos, o que foi filmado (conforme vídeo abaixo), e a ameaçou.
À época em que eles foram presos, o Ministério Público do Estado de São Paulo (MPSP) alegou que a medida era necessária para que a investigação do caso pudesse avançar. Quando foram cumpridos os mandados contra eles ainda naquela ocasião, Leonardo foi pego em casa com um celular roubado, razão pela qual ele passou a responder também por receptação. O MPSP tenta agora reverter a soltura de ambos, concedida por uma juíza substituta às vésperas do recesso judiciário.
PMESP chegou a tirar faixas de familiares pedindo justiça
A PMESP havia agido de maneira intimidatória já nos primeiros dias após o assassinato de Gabriel, ocorrido em 1º de abril de 2025. À época, viaturas policiais, incluindo da Força Tática e do 10º Batalhão de Ações Especiais de Polícia (Baep), passaram a circular com maior frequência pelo local da morte.
Em 6 de abril, familiares e vizinhos fizeram um protesto pedindo por justiça, quando penduraram faixas na esquina em que o jovem foi morto. Na ocasião, policiais foram filmados circulando com viaturas em meio ao ato. Os moradores relataram que os agentes retiraram parte das faixas colocadas no local. Os policias ainda teriam dito que, se elas fossem recolocadas, voltariam a retirá-las.
Já no dia 20 de maio, conforme noticiou a Ponte, viaturas da PM-SP circularam novamente pela vizinhança, ocasião em que comerciantes tiveram de baixar portas de seus estabelecimentos. Mais uma vez, os policiais também retiraram de um muro cartazes que cobravam justiça por Gabriel.
Como foi o assassinato de Gabriel
Na ocasião em que Gabriel foi morto, a vítima e a esposa voltavam para casa, por volta das 19h30, após terem ido a um comércio na vizinhança comprar refrigerante. O jovem caminhava um pouco à frente na Rua Cosmorama, próximo à esquina com a Rua Raul Ataíde, quando foi abordado por dois policiais que chegaram ao local a bordo de uma viatura — a mulher de Gabriel ainda tentava alcançar o marido também a pé, após ter parado para comprar milho cozido com um ambulante.
Além do jovem, os PMs abordaram um outro rapaz que passava pelo local, alheio ao casal. Os dois homens foram colocados de frente para um muro e revistados, sob a alegação de que teriam um “volume suspeito”. Em dado momento, o policial Junior César passou a agredir Gabriel. A esposa dele, já mais perto da cena, repreendeu o agente e afirmou que aquilo não era necessário. O segundo PM da ocorrência, Leonardo, que até ali cercava o outro homem abordado, veio então em direção à mulher grávida e passou a agredi-la, com empurrões e puxões nos cabelos.
Foi quando Gabriel tentou interceder pela esposa e acabou baleado: “O policial me deu um empurrão que eu bati as costas na parede. Nisso, o meu marido tentou se soltar do outro policial para vir me ajudar. Ele conseguiu e correu. Quando ele correu e virou, eu escutei o tiro”, contou Rebeca à Ponte em abril. À época, ela e Gabriel tinham também uma bebê com 11 meses de vida e um menino de seis anos.
A vítima chegou a ser levada ao Hospital dos Fornecedores de Cana, mas não resistiu. Rebeca diz que o socorro demorou cerca de 40 minutos e só veio por insistência dos vizinhos que presenciaram a cena — eles chegaram a filmar em parte a ocorrência. Já os policiais tiveram reforço em cinco minutos e isolaram o local para que ninguém se aproximasse de Gabriel.
A mulher grávida foi levada após a ocorrência a uma unidade de pronto-atendimento (UPA) na Vila Rezende, a sete quilômetros do local da morte de Gabriel, apesar de haver uma outra UPA a menos de um quilômetro, no próprio bairro em que ela mora — a distância impediu que familiares, também moradores da Vila Sônia, fossem acudi-la enquanto recebia atendimento médico. Em seguida, ela foi levada para a sede do Departamento Estadual de Investigações Criminais (Deic) em Piracicaba.
O que dizem os PMs acusados pela morte
Os PMs alegam ter agido em legítima defesa. Segundo eles, Gabriel teria pego uma pedra para atacá-los durante a abordagem, o que vizinhos negam. A Polícia Civil não havia pedido a prisão preventiva deles.
A Ponte tentou contato anteriormente com a defesa de Leonardo, conduzida pela escritório Oliveira Campanini Advogados Associados, mas não obteve retorno. A reportagem não conseguiu localizar a defesa de Junior César. O espaço segue aberto para caso queiram se manifestar.
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