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sábado, 14 março, 2026
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Polícia fecha centro de treinamento do CV em ilha de área indígena do Mato Grosso

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Por Bárbara Sá

(Folhapress) – Um centro clandestino de treinamento armado mantido por integrantes do Comando Vermelho (CV) dentro de uma área indígena em Mato Grosso foi fechado pela Polícia Civil nesta sexta-feira (13), após uma investigação que durou cerca de dez meses.

Segundo a investigação, o local era utilizado para preparar adolescentes e jovens membros da facção em técnicas de combate, sobrevivência na selva e manuseio de armamento pesado, em meio à disputa com o PCC (Primeiro Comando da Capital) pelo controle de rotas do tráfico na região de fronteira entre Brasil e Bolívia.

O delegado Fábio Nahas, responsável pela investigação, afirma que até o momento não há indícios de que os moradores da aldeia participassem das atividades criminosas. A suspeita é que integrantes da facção tenham coagido a comunidade a tolerar o uso da ilha para os treinamentos armados.

As atividades aconteciam em uma área alagada e de difícil acesso próxima ao rio São Lourenço, dentro da Terra Indígena Tereza Cristina, no município de Santo Antônio de Leverger (a 35 km de Cuiabá). As investigações apontam que, os participantes eram levados até uma ilha por Rondonópolis (a 218 km da capital), onde realizavam exercícios com disparos reais de armas de fogo.

“Entrando por Rondonópolis é mais fácil. Por ser uma região com 80% do local alagado, somente com barco”, explica o delegado regional Santiago Rozendo Sanches.

A estrutura foi descoberta durante a Operação Argos, conduzida pela Delegacia Especializada de Roubos e Furtos (Derf) de Rondonópolis. A apuração começou após denúncias relacionadas ao tráfico de drogas na área indígena utilizando o rio São Lourenço e levou os policiais a identificar um esquema que incluía transporte de entorpecentes por vias fluviais e distribuição para diferentes cidades do estado e país.

De acordo com a investigação, um dos principais suspeitos, conhecido pelo apelido de Pescador, seria responsável por receber grandes quantidades de drogas transportadas por embarcações que navegavam pelo rio São Lourenço. O material chegaria ao estado vindo de Mato Grosso do Sul e seria descarregado em pontos próximos à comunidade indígena.

Depois disso, o entorpecente seria transportado por estrada em uma caminhonete até outra residência localizada na área indígena, porém em um trecho mais afastado da aldeia. Nesse endereço atuaria outro investigado, identificado pelos apelidos de Corola e Fininho, apontado como responsável por armazenar a droga e repassar o material a traficantes que buscavam os entorpecentes tanto por embarcações quanto por terra.

Ao aprofundar as diligências, os policiais receberam novas informações indicando que os dois suspeitos também atuavam como instrutores de um curso clandestino voltado a integrantes do Comando Vermelho. O treinamento incluía instrução de tiro, manutenção de armamentos e técnicas de sobrevivência em áreas de mata.

O delegado Nahas disse que os participantes passavam primeiro por um treinamento chamado de “tiro a seco”, etapa em que aprendiam a montar e desmontar armas e a se posicionar corretamente para disparos, sem utilização de munição.

Em seguida, eram levados até uma ilha localizada no rio São Lourenço, onde realizavam exercícios com munição real. “Eles faziam um treinamento completo de instrução de tiro, montagem e desmontagem de armamentos, além de técnicas de sobrevivência na selva. Era um curso estruturado, com etapas semelhantes às utilizadas em treinamentos de forças de segurança”, afirmou o delegado.

Conforme os investigadores, durante as aulas eram utilizadas armas de uso restrito, incluindo fuzis calibres .556 e .762, pistolas .40 e 9 mm, além de metralhadoras e até um armamento de calibre .30 montado em tripé.

A polícia também apurou que os integrantes do grupo aprendiam estratégias para se esconder na mata após possíveis confrontos com rivais ou forças policiais. O objetivo seria garantir que conseguissem permanecer ocultos por longos períodos em caso de fuga.

A existência desse treinamento começou a aparecer em relatos colhidos por policiais de diferentes cidades de Mato Grosso. Investigadores afirmam que suspeitos presos em outras operações mencionaram ter participado de um curso de sobrevivência na selva e manejo de armamento realizado na região.

Durante o avanço das investigações, colaboradores também informaram que parte das armas ficava escondida em compartimentos subterrâneos próximos à residência de um dos investigados. Ao todo, pelo menos nove armas teriam sido vistas no local, entre armamentos longos e pistolas em menos de um mês.

O relatório da polícia descreve que o transporte dos participantes até a área de treinamento era feito por embarcação com motor, utilizada para navegar pelo rio até pontos mais isolados. O afastamento tinha como objetivo evitar que o barulho dos disparos fosse ouvido pela comunidade indígena.

A operação desta sexta-feira contou com apoio da Polícia Federal para o acesso à área indígena. De acordo com a polícia, os agentes entraram na comunidade para cumprir mandados de busca e apreensão e não houve resistência durante a ação.

Ainda nesta sexta-feira, equipes policiais realizaram um sobrevoo na região com apoio de helicóptero para localizar o ponto exato onde ocorriam os disparos. No entanto, o acesso ao local foi dificultado por alagamentos e pela vegetação densa.

“Conseguimos identificar a área onde os disparos eram feitos, mas a mata está muito fechada e a região completamente alagada. Por isso não foi possível desembarcar para fazer buscas mais detalhadas”, explicou o delegado.





ICL Notícias

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