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sexta-feira, 20 fevereiro, 2026
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Pobres criaturas do tempo – ICL Notícias

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Disseram outrora que Trump era um fenômeno passageiro, uma aberração democrática que logo seria corrigida pelo bom senso americano. Mas certamente não nos importamos muito com isso, afinal, que nos interessavam as excentricidades de um magnata de reality show que brincava de presidente? Tínhamos nossos próprios problemas, nossa própria democracia tropical para nos preocupar, nossos próprios autoritários de plantão.

Também explicaram que Putin era apenas um autocrata regional, um czar de opereta que logo seria contido pela comunidade internacional. Afinal, que nos interessava um ex-agente da KGB que sonhava em reconstruir impérios perdidos? Tínhamos nossa própria nostalgia imperial para administrar, nossos próprios fantasmas de grandeza nacional para exorcizar e expurgar com elegância acadêmica.

Depois começaram a bombardear Gaza, transformando um povo e um pedaço de terra numa demonstração ao vivo de como a razão moderna opera numa guerra sangrenta e sem tréguas. Mas ainda tem gente achando que se trata de uma desventura geopolítica de um conflito que parece ter saído das páginas mais sombrias do Antigo Testamento.

Enquanto isso, o Brasil se encontra refém de uma curiosa aliança entre bolsonaristas e trumpistas, uma espécie de internacional reacionária que faria inveja aos velhos conspiradores monárquicos do século XIX.

Porque há algo de profundamente cínico nesta nossa época – uma era que se orgulha de sua racionalidade científica, de seus algoritmos precisos, de sua capacidade de processar informações em velocidade nunca antes vista na história humana, e que, no entanto, parece ter perdido completamente o juízo. Como se a razão, levada ao extremo, tivesse dado uma cambalhota e aterrissado de cabeça no território da mais pura demência.

Trump, esse personagem que parece ter saído de uma sátira de Voltaire sobre os excessos da democracia, conseguiu a proeza de transformar a política americana numa espécie de show de horrores permanente, onde a mentira mais descarada se veste de verdade alternativa e onde a realidade se torna uma questão de opinião pessoal. É como se os Estados Unidos tivessem decidido experimentar uma versão pós-moderna do “Rei Lear” – com a diferença de que Shakespeare, pelo menos, tinha a decência de avisar que se tratava de uma tragédia.

Putin, por sua vez, parece ter saído diretamente das páginas de Dostoiévski – um personagem que combina a megalomania de Napoleão com a paranoia de Ivan, o Terrível, temperados com uma pitada de nostalgia soviética que faria rir se não fosse tão enganosa. Ele conseguiu a façanha de transformar a Rússia numa espécie de autocracia high-tech, onde os métodos do século XVI se casam harmoniosamente com as tecnologias do século XXI. É o passado e o futuro se encontrando no presente para produzir uma síntese que nem Hegel em seus sonhos mais ambiciosos teria imaginado.

E o que dizer das revelações sobre as redes de pedofilia que permeiam as elites mundiais? Aqui temos um fenômeno que faria corar até mesmo os cronistas mais experientes da decadência imperial romana. Como se as classes dirigentes do mundo tivessem decidido que não bastava explorar economicamente os povos – era preciso também corrompê-los, transformando a infância em mercadoria para consumo dos poderosos. É uma exploração tão sistemática, tão organizada, que chega a ter ares de racionalidade empresarial – como se alguém tivesse aplicado os princípios da administração moderna ao odioso crime.

Gaza, por sua vez, tornou-se uma espécie de laboratório a céu aberto onde se testa até onde pode ir a brutalidade moderna quando revestida de justificativas técnicas e legais. É como se alguém tivesse decidido atualizar os métodos coloniais do século XIX com as tecnologias militares do século XXI, produzindo uma síntese que consegue ser simultaneamente arcaica e futurista. O resultado é um genocídio em tempo real, transmitido ao vivo pelas redes sociais, comentado por especialistas em geopolítica como se fosse um jogo de xadrez particularmente interessante.

E o Brasil? Ah, o Brasil… Nosso país conseguiu a proeza de importar o pior da política americana – o trumpismo – e misturá-lo com o que tínhamos de mais retrógrado em nossa própria tradição autoritária, produzindo uma síntese que nem Gilberto Freyre em seus momentos mais criativos teria imaginado.

O bolsonarismo, essa curiosa mistura de nostalgia militar com fundamentalismo religioso, temperada com uma boa pitada de liberalismo econômico e uma generosa dose de ressentimento social, conseguiu a façanha de transformar a política brasileira numa espécie de reality show permanente, onde a realidade se torna uma questão de fé e onde os fatos são apenas obstáculos inconvenientes à narrativa oficial.

E agora, com a aliança entre bolsonaristas e trumpistas, temos uma espécie de internacional reacionária que faria inveja aos velhos conspiradores do século XIX. É como se os fantasmas do passado tivessem decidido se organizar globalmente, usando as tecnologias do presente para ressuscitar os preconceitos e as hierarquias que pensávamos ter enterrado definitivamente.

Mas talvez – e aqui permito-me um lampejo de otimismo que seria imperdoável em tempos normais – talvez essa loucura generalizada seja apenas o sintoma de uma crise mais profunda, o sinal de que o mundo está passando por uma transformação tão radical que nossas categorias tradicionais de análise simplesmente não dão mais conta da realidade.

Talvez estejamos assistindo não ao triunfo da irracionalidade, mas ao colapso de uma forma específica de racionalidade – aquela racionalidade instrumental que dominou os últimos séculos e que agora revela suas limitações mais grotescas. Talvez Trump, Putin, as redes de pedofilia, o genocídio em Gaza e o bolsonarismo sejam apenas os últimos espasmos de um mundo que está morrendo, os sintomas finais de uma “civilização” que chegou ao limite de suas contradições internas.

Ou talvez não, diriam aqueles que acreditam na imutabilidade da condição humana, talvez estejamos apenas assistindo ao espetáculo eterno da estupidez humana, que de tempos em tempos se organiza de forma particularmente espetacular para nos lembrar de que, por mais que avancemos tecnologicamente, continuamos sendo os mesmos hominídeos violentos e brutais que sempre fomos.

Em todo caso, uma coisa é certa: vivemos tempos interessantes. E como dizia o velho ditado chinês – que pode ou não ser chinês, mas que certamente é verdadeiro – “que você viva em tempos interessantes é uma maldição, não uma bênção.”

O fato é que fomos convencidos de que somos espectadores impotentes de nossa própria tragédia, quando na verdade somos os autores, diretores e atores principais desta atroz comédia humana que insiste em se disfarçar de drama épico.

Afinal, como diria nosso eterno Machado de Assis: “O tempo é um tecido invisível em que se pode bordar tudo, uma flor, um pássaro, uma dama, um castelo, um túmulo. Também se pode bordar nada. Nada em cima de invisível é a mais sutil obra deste mundo, e acaso do outro.”

E nós, pobres criaturas, continuamos pintando e bordando uma eterna “Guernica”, nossa pequena parte neste tecido infinito, sem saber muito bem se estamos criando uma obra de arte ou apenas fazendo mais um remendo numa colcha de retalhos que talvez nunca tenha tido dias melhores.



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