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Por Catarina Duarte – Ponte Jornalismo
Os quatro policiais militares envolvidos na morte de Igor Oliveira de Moraes Santos, de 24 anos, vão a júri popular. O crime ocorreu em julho de 2025, em Paraisópolis, na zona sul de São Paulo. Para a juíza Luciana Menezes Scorza, há indícios suficientes de que o jovem foi morto quando já estava rendido, com as mãos na cabeça, e de que os policiais teriam agido por vingança ou justiçamento, e não em legítima defesa. A decisão foi publicada nesta terça-feira (27/1).
Na decisão, a magistrada determinou que os quatro policiais sejam julgados pelo Tribunal do Júri por homicídio qualificado. Os cabos Renato Torquatto da Cruz e Robson Noguchi de Lima são apontados como autores do crime. Já os soldados Hugo Leal de Oliveira Reis e Victor Henrique de Jesus são acusados de ter participado da ação. Para todos, foram mantidas as qualificadoras de motivo torpe e de recurso que dificultou a defesa da vítima.
Renato e Robson tiveram a prisão preventiva mantida. Hugo e Victor poderão responder ao processo em liberdade. Os quatro são integrantes da Ronda Ostensiva com Apoio de Motocicletas (Rocam) do 16º Batalhão de Polícia Militar Metropolitano (BPM/M), o segundo batalhão mais letal do estado.
A câmera corporal mostrou que o cabo Renato atirou duas vezes contra Igor, que estava com as mãos levantadas e apoiadas na cabeça. Os primeiros disparos não atingiram o jovem. Em seguida, o policial faz novos disparos, que o atingem. As imagens também mostram o cabo Robson atirando contra Igor logo após ele já ter sido baleado por Renato. Ambos foram presos em flagrante.
Igor era nascido em Paraisópolis e trabalhava com a família em obra. Ele deixou uma filha de três anos.
Testemunhas relatam execução e agressões
Os outros três jovens que estavam na casa no momento do crime relataram em juízo o terror vivido naquela noite. Segundo eles, faziam atividades cotidianas — um ia comprar marmita porque o gás da casa havia acabado, outro pretendia cortar o cabelo e o terceiro encontrar um amigo para andar de moto — quando ouviram tiros e viram pessoas correndo pela comunidade. Disseram que, ao verem moradores entrando em uma casa para se proteger, fizeram o mesmo.
Os depoimentos foram uníssonos em apontar que Igor tinha as mãos levantadas quando foi baleado, fato registrado pela câmera corporal de Renato. Eles também relataram que, ao entrarem no quarto, os policiais carregavam uma mala preta e que, ao colocá-la no chão, foi possível ouvir barulho de metal.
Um dos jovens contou que, depois de balearem Igor, os policiais o levaram ao banheiro e o agrediram com socos e chutes enquanto o interrogavam. O trio foi levado a uma delegacia e, lá, descobriu que estava sendo acusado de tráfico de drogas.
Essa versão contradiz a narrativa inicialmente apresentada pelos policiais em boletim de ocorrência registrado no 89º DP (Jardim Taboão). Segundo os agentes, os suspeitos não obedeceram à ordem de rendição. Igor teria se levantado portando uma arma na cintura. Ao ver que o jovem teria feito menção de atirar, Renato disparou, conforme relatou à Polícia Civil. Os demais teriam se deitado e jogado as armas sob a cama.

O cabo Robson reforçou a versão de que Igor resistiu à rendição e que, ao avistar um revólver na cintura dele, “foi necessário efetuar disparos contra o indivíduo, para cessar a injusta agressão”. O comandante de pelotão da Rocam no dia do crime disse em juízo que a equipe recebeu denúncias de tráfico de drogas e porte de armas no entorno de Paraisópolis e planejou uma incursão na região conhecida como Caixa Baixa.
Segundo ele, após a chegada, policiais relataram ter visto pessoas correndo para vielas, motivo pelo qual foi montado um cerco. Parte da equipe seguiu por uma viela e os quatro policiais denunciados passaram a verificar residências onde os supostos criminosos poderiam estar escondidos.
Câmeras corporais desmentiram a versão
As imagens da câmera corporal utilizada por Renato, no entanto, desmentem essa versão. Elas mostram os policiais caminhando pelos cômodos da casa até chegarem ao quarto onde Igor foi morto. Assim que a porta do quarto é aberta, é possível ouvir os primeiros disparos, com os quatro homens no local já rendidos.
Em seguida, um dos agentes ordena: “deite, deite” e entra no cômodo. Logo depois, um PM dispara novamente e, ao sair do quarto, repete em voz alta: “As COPs, as COPs”. Mais um disparo é ouvido.
Ao analisar as imagens, a própria PM-SP realizou a prisão em flagrante dos agentes. A hipótese de legítima defesa foi descartada, já que Igor estava rendido e desarmado. “As imagens registradas com o advento das câmeras não evidenciam qualquer excludente de ilicitude, pois em nenhum momento o civil Igor demonstrou resistência ativa ou passiva à ação dos policiais, tampouco qualquer ameaça concreta à integridade física destes”, escreveu o 1º tenente João Paulo Ferreira Cabreira no auto de prisão.
PM-SP divulgou, erroneamente, que local da execução era “casa-bomba”
Naquele mesmo dia, a Ponte conversou com a moradora do imóvel onde Igor foi executado, localizado em uma viela próxima à Rua Rudolf Lotze. Inicialmente, a PM-SP divulgou que o local seria uma “casa-bomba”, termo usado para designar entrepostos do tráfico, mas voltou atrás.
A moradora estava no trabalho quando passou a receber ligações de parentes avisando que a imprensa dizia que a casa dela era usada pelo tráfico, com base apenas na versão da PM. “Cheguei e perguntei o que estava acontecendo, e [os policiais] foram muito arrogantes comigo, falaram que eu tinha aberto a porta para eles [os homens perseguidos pela PM] entrarem”, disse. “Meu quarto está cheio de tiro e de sangue. O dinheiro do aluguel, que deixei perto da Bíblia, levaram. Não consegui dormir até agora.”
A morte de Igor gerou protestos na comunidade de Paraisópolis, com barricadas de fogo, saques e confrontos durante a noite. Segundo a PM, houve troca de tiros. Bruno Leite, de 29 anos, foi baleado e morreu. Moradores afirmam que ele estava ferido no chão e a PM impediu que fosse socorrido.
O que dizem os réus
A Ponte procurou as defesas dos policiais citados para que se manifestassem sobre a decisão. O advogado Wanderley Alves, que representa Hugo Leal de Oliveira Reis e Renato Torquatto da Cruz, afirmou que “não é incomum em casos midiáticos o juiz pronunciar os réus ao julgamento de jurados” e que a defesa acredita que os jurados “certamente absolverão os acusados”. Já o advogado João Carlos Campanini, responsável pela defesa de Robson Noguchi de Lima e Victor Henrique de Jesus, disse que a defesa “recebe com respeito a decisão de pronúncia e buscará demonstrar a legalidade da ação policial nas próximas etapas do processo”.
A Secretaria da Segurança Pública (SSP-SP) também foi questionada sobre a instauração de procedimentos internos, como Inquérito Policial Militar (IPM), e sobre a situação funcional dos agentes. Ainda aguardamos a resposta.
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