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sexta-feira, 27 março, 2026
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Playground do crime, Roblox confirma a urgência do novo ECA Digital

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Por Beatriz Waehneldt*

A entrada em vigor do ECA Digital reacende o debate sobre a responsabilidade das plataformas digitais na proteção de crianças e adolescentes. Em um cenário em que a lei promete exigir mais controle, moderação e responsabilização das big techs, a realidade dentro do Roblox mostra o tamanho do desafio.

Colorido e aparentemente inofensivo, o Roblox abriga milhões de crianças brasileiras. Entre seus usuários, 39% têm menos de 13 anos, segundo a empresa Takeaway Reality, em um universo que vai muito além do entretenimento. A plataforma contém uma variedade de riscos: aliciamento por facções, como PCC e CV, simulações de crimes, ambientes sexualizados e esquemas de exploração através da moeda virtual Robux. Especialistas apontam que esses ambientes estão acelerando a chamada “adultização” das crianças, justamente um dos problemas que o novo marco legal tenta enfrentar.

Exemplo é o que ocorre na Favela do Batatata: existe uma disputa armada pelo controle do território. Um esquema de máfia, com roubo de carros, lavagem de dinheiro e extorsão de policiais define o vencedor do embate. E tudo isso poderia estar acontecendo em qualquer comunidade brasileira, mas a cena é virtual. Por trás das personagens, no controle de suas ações, estão crianças que operam livremente as ferramentas do Roblox.

Segundo a juíza Vanessa Cavalieri, da Vara da Infância e Juventude do Rio de Janeiro, a internet abriu a porta para que menores tenham experiências que deveriam ser restritas à vida adulta. Os jovens entram em contato com conteúdos sexualizados, violentos e até situações que não são criminosas, mas que só devem ser experimentadas na vida adulta, como trabalhar.

Para ela, a adultização pode causar um trauma e a antecipação do amadurecimento fora de hora. Em muitos casos, também ocorre a chamada “parentificação”: Quando a criança assume responsabilidades que caberiam a adultos. “Ela se torna o próprio adulto dela e perde a infância”, completa.

“Favela da Batatata”, ambiente criado no Roblox

Simulador de PCC

“Mãe, vou até o PCC comprar uma arma.” A frase, dita em janeiro de 2024 por Téo (nome fictício a pedido dos pais), que tinha 8 anos, enquanto jogava Roblox, deixou Matilde (nome fictício) em choque. A jornalista já havia escutado relatos de que a facção estava criando novas formas de recrutar “soldados” e conta que seu marido se atentou ao nome “Batatata”, que remete ao som do tiro de uma metralhadora.

Desconfiada, Matilde criou uma conta e testou o jogo, criado por “um tal de Sami”. Viu o filho roubar carros, oferecer propina a policiais virtuais e observar menções diretas ao Primeiro Comando da Capital (PCC). Em uma das partidas, um jogador perguntou se Téo tinha Discord, um aplicativo de comunicação por voz. Ao receber uma negativa, matou o personagem de Téo. “Vai saber se queria falar com ele no chat para saber da rotina, da nossa casa ou até induzi-lo a conhecer o PCC”, desabafa.

A mãe denunciou o mapa, falou em entrevistas à CBN e ao UOL e registrou boletim de ocorrência. Nada mudou. Quase dois anos depois, o jogo continua ativo. Pior: o delegado que atendeu ao caso chegou a duvidar da denúncia. “A minha neta joga Roblox e eu não vi nada disso aí”, teria dito.

Mãe denunciou em 2024 os crimes que viu no Roblox. Dois anos depois, o jogo continua ativo

Baile do Urso virtual

Recomendados pela própria plataforma e pelo TikTok, apareceram mapas como o Baile dos Cria, Escola Carioca, Baile do Urso, Baile do Raza, Baile do DG, dentre outros. Os espaços são marcados por músicas que fazem apologia ao crime, hipersexualização e pela presença de avatares femininos seminus. É possível, também, escolher de qual “facção” participar, geralmente mediante pagamento. A interação ocorre principalmente via chat de texto, mas em alguns casos também por voz.

Nas conversas, são recorrentes menções a armamento pesado, convites para encontros em “cantinhos” e danças simulando atos sexuais. Para burlar a moderação do Roblox no chat de texto, é utilizada a substituição de letras por números e acrônimos (fuzil/f7zil, pistola/p8st9l@, namorada/“gf”). Muitas crianças também compartilham suas redes sociais com facilidade, ampliando o risco de aliciamento por parte de pedófilos.

Esses bailes virtuais costumam desaparecer em menos de 24 horas e retornar com novos nomes. Os nomes de moderadores, criadores e doadores dos jogos estão nitidamente estampados na entrada do jogo, numa espécie de zombaria da moderação do Roblox.

No “Baile do Urso”, sexualização e propagandas de bets

Roblox: o centro comercial de games

Criado em 2006, o Roblox se tornou popular nos últimos cinco anos. A plataforma conta com 88,9 milhões de usuários ativos diariamente.

Alvo de polêmicas, o aplicativo pode ser comparado a um infinito shopping de entretenimento virtual. Cada “loja” é um jogo, desenvolvido por usuários e acessível para todos.

Há opções inofensivas, como “Grow a Garden” (Cresça um jardim) e “Adopt Me!” (Crie um animal de estimação), mas também jogos violentos, como “Steel a Brainrott” e simuladores de facções como a “Favela do Batatata”. Mais grave ainda são os jogos “subterrâneos”, acessíveis apenas por convite e senha, enviados por Discord, nos quais circulam conteúdos sexuais explícitos.

Em todos, é possível comprar e vender itens virtuais, de roupas (skins) e armas a serviços sexuais. A maioria das transações é feita com Robux, geralmente adquiridos com dinheiro real, mas também através de missões, criação de jogos/skins ou trabalho de “administrador” , uma espécie de gerente do jogo.

Basta baixar a plataforma e declarar que se tem mais do que 13 anos de idade para ter acesso ao “chat” (mensagem de texto) ou dar seu número de telefone para ativar o áudio. Realizando essas duas etapas, a interação é liberada, como um verdadeiro centro comercial. Porém, sem policiamento nem supervisão, o que abre porta para diversos criminosos mal intencionados, sejam eles pedófilos ou até facções criminosas.

Primas do Job, Sexualização e Tik Tok

“Rebequinha faz job de massagista com norueguês safado”. O título, retirado de um dos primeiros vídeos exibidos no TikTok ao se pesquisar “Roblox”, remete ao perfil das “primas gamers” (@primasexplodidas). As três usuárias ficaram conhecidas por realizarem “jobs”, referência a trabalhos de cunho sexual, no mapa Meepcity, já suspenso pela plataforma por hospedar bailes funk. Elas anunciaram a migração de suas atividades para o Brookhaven, simulador de vida também popular entre crianças e adolescentes.

A identidade real das “primas gamers” permanece incerta. Alguns perfis chegaram a divulgar imagens de três meninas, afirmando que seriam as responsáveis pelos conteúdos. Elas supostamente foram descobertas pelos próprios pais e denunciadas à polícia. No entanto, na conta oficial, as administradoras se apresentaram como “pré-adolescentes” e alegaram que a conta anterior havia sido suspensa por “falsas denúncias de youtubers”.

“É basicamente um strip club”

Personagens seminus e reproduzindo libertinagens saúdam o novo usuário do jogo privado, protegido por senha, que apenas participantes de um grupo no Discord acessam por meio de um link. Após o choque inicial, o novo jogador se depara com os mais variados fetiches e expressões de gênero, como furries, comunidade que cria representações antropomórficas de animais.

O ambiente virtual permitia a criação de quartos privados e o recebimento de convites de desconhecidos para a realização de interações explícitas. Em algumas situações, avatares chegaram a ser submetidos a ações de abuso e violência sexual dentro do jogo.

Em uma das conversas dentro do mapa, um jogador que se identificava como um adolescente de 16 anos, relatou manter um relacionamento virtual com um homem mais velho. Nas mensagens, afirmou ainda que gostaria de encontrá-lo pessoalmente, mas que não o fazia por ser de outro estado. Acrescentou que, caso isso ocorresse, “adoraria ser estragado por ele”. Pouco tempo depois, o histórico de mensagens foi apagado, possivelmente em razão da remoção do mapa pela própria plataforma.

“É basicamente um strip club” destacou Bianca (nome fictício a pedido próprio), 14 anos, criadora de conteúdo que já transitou por diferentes jogos do Roblox. Ela relatou ter encontrado cenários explícitos desde o primeiro acesso aos chamados “condo games”, jogos sexuais, que ganham esse nome por parecerem condomínios.

Para ela, a experiência equivale a entrar em uma boate virtual com salas privadas, onde há simulações de atos sexuais e circulação de imagens íntimas. “Não há aviso, qualquer pessoa pode entrar. Logo de cara vi nudez”, desabafou.

A jovem destacou que esses espaços reúnem principalmente adolescentes de 10 a 18 anos, mas que adultos também participam, muitas vezes interagindo com menores. Ela afirma ter visto pedófilos atuando nesses ambientes e lembra que alguns chegaram a ser documentados e presos, embora o problema persista. “O Roblox derruba esses jogos a cada cinco segundos, mas os desenvolvedores reúnem os jogadores e relançam o mapa quase imediatamente. É algo que nunca para”, disse.

Nos chamados “hood games”, simuladores de gangues, Bianca também presenciou representações de violência e até simulação do consumo de drogas, como maconha e, mais raramente, cocaína. Segundo ela, os riscos estão ligados principalmente à exposição precoce de crianças a situações de sexualização e violência.

Embora não tenha se sentido diretamente em perigo, Bianca reforça que pais e responsáveis devem estar atentos. Ela própria já denunciou usuários que circulavam nesses ambientes, mas não os jogos em si. “É importante que os pais saibam, porque é algo de que as crianças precisam ficar longe”, concluiu.

“Fingindo ser criança” e sendo abordada por pedófilo

Conhecida por transmissões de jogos como Free Fire, a streamer Keviili (@goticaff) se deparou com pedófilos durante suas lives. Apesar de não ter respondido ao pedido de entrevista, ela foi alvo de abordagens suspeitas em seu quadro “fingindo ser criança”. Sua experiência tornou-se referência em discussões sobre segurança online de menores de idade.

A deputada estadual fluminense Delegada Sheila (PL), aborda em vídeos publicados a prostituição virtual disfarçada de entretenimento. No caso do Roblox, destaca como crianças acabam reforçando a adultização precoce ao reproduzir falas e comportamentos sexualizados, potencializados por filmes, músicas e referências midiáticas, como no caso das “Primas do Job”.

Para a deputada, não há segurança digital sem monitoramento ativo. Jogos podem se tornar portas de entrada para abusos caso não haja supervisão. O chat de voz do Roblox, de acordo com ela, permite a comunicação mesmo para crianças que ainda não sabem ler ou escrever, ampliando a vulnerabilidade frente a criminosos digitais. Muitos pedófilos, inclusive, têm recorrido ao uso de inteligência artificial e modificadores de voz para se passar por crianças.

Sheila usou o caso de Keviili para alertar os pais. E recomenda que os responsáveis acompanhem de perto com quem os filhos jogam, que conteúdos consomem e produzem, além de quem interage com eles nas redes e nas plataformas. Ainda orienta a ativação de medidas de segurança, como o controle parental e desativar o chat de voz. Sua mensagem é direta: “Se você ama seu filho, proteja-o.”

Na visão de quem joga

Marcos (nome fictício a pedido próprio), adolescente de 13 anos que auxiliou na investigação, relatou que, antes de ter contato com os jogos mais problemáticos do Roblox, costumava jogar títulos de futebol, tiro e construção. Para ele, os jogos de facções, embora não fossem realistas, eram apenas uma forma de dividir os jogadores em times e podiam ser considerados divertidos.

No entanto, apesar de as crianças entenderem que se trata de algo errado no mundo real, para o adolescente havia quem se divertisse justamente pela transgressão.

A contradição entre a proposta oficial do Roblox e a realidade encontrada foi destacada por Marcos. Apesar de a plataforma prever regras de segurança, os jogos investigados tinham idades mínimas e máximas configuradas de forma questionável, como 15 a 22 anos. “Fiquei impressionado porque o Roblox, na teoria, deveria banir esses jogos”, observou.

Não há riscos diretos, para ele, se os jogadores tiverem “bom senso”, mas considera importante que os pais saibam da existência desses conteúdos. “Plataformas sérias monitoram bem esses espaços, porém o Roblox não é uma delas”, disse, acrescentando que nunca tentou denunciar jogos, justamente por nunca ter tido problemas pessoais antes.

Como proteger os menores

A proteção no ambiente digital é uma responsabilidade compartilhada entre família, Estado e sociedade. Para a juíza Vanessa Cavalieri, isso envolve, além da regulamentação, a conscientização dos pais sobre a “rua virtual” em que os filhos estão inseridos, com necessidade de monitoramento, limites de tempo de uso e restrição de conteúdos. Ela também defende a capacitação da polícia e sistema de Justiça na investigação e combate de cybercrimes e pedofilia no ambiente digital.

Para Renata Tomaz, doutora em Comunicação pela UFRJ, não se trata de afastar crianças da internet, mas de protegê-las dentro dela, garantindo que o direito à comunicação, à informação e à liberdade de expressão seja exercido de forma saudável e segura.

Do ponto de vista jurídico, o Brasil já avançou em marcos importantes, como o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) e o Marco Civil da Internet. Em 2021, a ONU reforçou, no Comentário Geral nº 25, que os direitos de crianças e adolescentes devem ser integralmente respeitados também no ambiente digital.

“Com o ECA Digital, a gente vai passar a ter uma responsabilidade grande das plataformas, inclusive quanto ao Roblox por esse tipo de conteúdo”, diz Vanessa. “Eles são obrigados a remover esse conteúdo automaticamente, a criar filtros para evitar que crianças e adolescentes sejam expostas com esse conteúdo ilegal e danoso, a vincular as contas dos menores de 16 anos a dos seus responsáveis e a fazer a seleção etária dos usuários, impedindo que crianças que não têm idade mínima para usar o Roblox estejam na plataforma.”

Especialistas destacam que a naturalização da exposição de crianças a esse ambiente virtual tóxico, seja pela falta de privacidade, pela exploração da imagem ou pela erotização, compromete o desenvolvimento de uma infância plena e protegida. A regulamentação das plataformas, o fortalecimento das políticas públicas e o engajamento da sociedade nesse assunto são passos urgentes para transformar o ambiente digital em um espaço ético, seguro e acolhedor.

 

*Especial para o ICL Notícias





ICL Notícias

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