A ideia de que todo plástico destinado à coleta seletiva será reciclado não se sustenta na prática — e quem paga essa conta são os catadores. É o que revela a segunda edição da pesquisa “Catadores por Menos Plástico”, realizada pelo Instituto de Direito Coletivo (IDC) em parceria com a Universidade Federal Fluminense (UFF), que aponta piora na qualidade dos resíduos e efeitos diretos na renda e nas condições de trabalho no estado do Rio de Janeiro.
O levantamento, conduzido entre julho e dezembro de 2025, acompanhou 20 cooperativas e associações de catadores na capital e no interior fluminense. Os dados confirmam um problema recorrente: o plástico é o principal tipo de rejeito. Mesmo com leve redução em relação à edição anterior, ainda representa cerca de 45% de todo o material descartado pelas cooperativas por falta de viabilidade de reciclagem — seja pela mistura de materiais, pigmentação inadequada ou ausência de valor de mercado.
Na prática, isso significa aumento de trabalho sem retorno financeiro. Segundo o estudo, cada catador perde, em média, 15,59 horas por mês separando plásticos que não serão reciclados — o equivalente a mais de dois dias de trabalho sem remuneração. As perdas mensais por cooperativa são estimadas entre R$ 1,1 mil e R$ 3,7 mil, considerando apenas materiais que, em outros contextos, poderiam ter valor de mercado.
A pesquisa também aponta crescimento da taxa geral de rejeitos, sobretudo nas cooperativas da capital, indicando piora na qualidade dos resíduos recebidos pela coleta seletiva. Para a presidente do IDC, Tatiana Bastos, os dados evidenciam uma distorção estrutural no modelo atual. “O sistema transfere custo, tempo e desgaste físico para os catadores, que trabalham mais e ganham menos, enquanto a indústria continua produzindo embalagens inviáveis”, afirma.

Outro ponto destacado é a concentração de marcas entre os resíduos analisados. Apesar de quase 200 empresas terem sido identificadas, um grupo reduzido de grandes companhias aparece com frequência nas embalagens descartadas. O dado reforça críticas à ausência de responsabilização efetiva da indústria, especialmente em relação à logística reversa e ao redesenho de produtos.
Os resultados da pesquisa embasam o Projeto de Lei nº 5.392/2025, em tramitação na Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj), que propõe a eliminação progressiva de plásticos não recicláveis, regras mais rigorosas de rotulagem e a remuneração direta de catadores pelos serviços ambientais prestados.
O debate ocorre em um contexto de crescente questionamento sobre o conceito de reciclabilidade. O estudo aponta ainda práticas de “greenwashing”, em que produtos são comercializados como sustentáveis sem possibilidade real de reaproveitamento. “Não há reciclagem possível quando o produto já nasce como rejeito. Sem mudanças estruturais, o sistema continuará penalizando quem sustenta a reciclagem no país”, conclui Bastos.
Criado em 2017, o IDC atua em áreas como direitos coletivos, inclusão social, meio ambiente e transparência pública. Nos últimos anos, a organização tem ampliado sua atuação na cadeia de resíduos, com foco na relação entre produção industrial e desigualdade socioambiental.




