As primeiras sinalizações da pré-campanha de Flávio Bolsonaro (PL) para a área econômica já demonstram que a população mais vulnerável terá que pagar a conta para que a Faria Lima fique satisfeita. Embora ainda não haja um plano formal apresentado, declarações de aliados e integrantes da equipe indicam que o caminho pretendido pode envolver cortes relevantes em gastos sociais e mudanças estruturais que afetam diretamente aposentados, trabalhadores e serviços públicos.
O coordenador da campanha, senador Rogério Marinho (PL-RN), afirmou recentemente que o modelo atual “está estourando” e defendeu a necessidade de revisitar tanto a Previdência quanto a legislação trabalhista. A fala, no entanto, deixa clara a intenção da retomada de reformas que podem reduzir direitos, especialmente em um contexto de alta vulnerabilidade social.
Nos bastidores, a equipe econômica trabalha com um ajuste fiscal inicial de cerca de 2% do PIB. Embora apresentado como um “recado ao mercado”, economistas apontam que esse tipo de estratégia costuma vir acompanhado de medidas que recaem de forma desproporcional sobre a população de menor renda.
Entre as propostas em discussão estão:
- Desvinculação de gastos com saúde e educação dos pisos constitucionais, o que, na prática, pode limitar o crescimento real de investimentos nessas áreas essenciais;
- Mudanças na política do salário mínimo, separando os reajustes reais dos benefícios previdenciários e assistenciais;
- Revisão das regras da Previdência, incluindo possíveis alterações na forma como os benefícios são corrigidos.
Na prática, essas medidas abririam espaço para que aposentadorias e benefícios sociais fossem reajustados apenas pela inflação — sem ganhos reais — o que pode significar perda gradual de poder de compra ao longo do tempo.
Plano de Flávio Bolsonaro traz risco para aposentados e serviços públicos
Os impactos potenciais são significativos. Hoje, cerca de 70% dos beneficiários do INSS recebem até um salário mínimo. Qualquer mudança na regra de reajuste pode afetar diretamente milhões de brasileiros que dependem desses recursos para despesas básicas.
Especialistas também destacam que a política de valorização do salário mínimo, adotada pelo governo Lula, teve papel importante na redução da pobreza e na dinamização da economia. Alterar essa lógica pode ter efeitos negativos tanto no consumo quanto na distribuição de renda.
Além disso, a proposta de desvincular investimentos mínimos em saúde e educação levanta preocupações sobre o sucateamento progressivo desses serviços, especialmente em um país marcado por desigualdades regionais e sociais.
Hoje, despesas com saúde estão condicionadas a um mínimo constitucional de 15% da receita corrente líquida (RCL); o mesmo na educação em relação aos atuais 18% da receita líquida de impostos (RLI).
Discurso de austeridade de Flávio Bolsonaro não inclui taxação de super-ricos
Outro ponto que chama atenção é a forma como o debate fiscal tem sido conduzido. Enquanto se discutem cortes em despesas sociais, o partido de Flávio Bolsonaro atuou contra propostas de aumento de arrecadação, como a tributação mínima sobre rendas mais altas — medida que atingiria uma parcela muito pequena da população de maior renda.
Essa postura evidencia uma assimetria nas prioridades, em que o ajuste das contas públicas recai mais sobre o corte de gastos do que sobre a ampliação de receitas de quem pode pagar mais.
As sinalizações feitas até agora são vistas como um aceno ao mercado financeiro, que há anos pressiona por contenção de gastos obrigatórios. Ao mesmo tempo, a campanha evita detalhar publicamente as propostas, em uma estratégia para reduzir desgaste político em meio à disputa eleitoral.
A cautela não é à toa: medidas que envolvem cortes em benefícios, mudanças na Previdência e redução de investimentos sociais costumam enfrentar forte resistência da população.



