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Por Cleber Lourenço
As alegações finais apresentadas pelo Ministério Público Federal (MPF) na ação penal que trata da tentativa de golpe de Estado trazem detalhes contundentes sobre a participação de militares de alta patente na articulação e execução do plano. O documento, protocolado no Supremo Tribunal Federal (STF), sustenta que generais e oficiais compuseram um “núcleo crucial” da organização criminosa, encarregado de usar sua influência e estrutura para dar viabilidade à ruptura democrática após a derrota eleitoral do então presidente Jair Bolsonaro.
Entre os réus militares estão figuras centrais como Almir Garnier Santos, comandante da Marinha à época; Paulo Sérgio Nogueira de Oliveira, então Ministro da Defesa e general do Exército; Augusto Heleno Ribeiro Pereira, general da reserva e chefe do Gabinete de Segurança Institucional; Walter Braga Netto, general da reserva e ex-ministro da Defesa; e Mauro César Barbosa Cid, coronel e ex-ajudante de ordens da Presidência.
Eles respondem por crimes como organização criminosa armada, tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito, tentativa de golpe de Estado e danos qualificados ao patrimônio público.
O MPF descreve que esses oficiais participaram de reuniões para discutir minutas de decretos golpistas, além de pressionarem ativamente os comandos das Forças Armadas — especialmente Exército e Aeronáutica — para aderirem ao movimento. Embora os denunciados tenham tentado mobilizar as tropas e criar um ambiente favorável à intervenção, o plano não se concretizou.
“O golpe tentado não se consumou pela fidelidade do Exército — não obstante o desvirtuamento de alguns dos seus integrantes — e da Aeronáutica à força normativa da Constituição”, afirma o texto.
Além das articulações formais, as alegações finais destacam que o núcleo militar teve papel na propagação de narrativas de descrédito do processo eleitoral e na coordenação de campanhas de intimidação contra oficiais que resistiam à conspiração. Para o MPF, a atuação deliberada desse grupo visava enfraquecer a resistência institucional e legitimar, perante a opinião pública e a tropa, uma intervenção de força.
PGR pediu condenação de militares de alta patente, que, segundo eles, foram cruciais para a trama golpista (Foto: Reprodução)
Acampamentos como peça-chave na pressão
Outro elemento central do plano golpista, segundo a denúncia, foram os acampamentos organizados diante de quartéis em diversas cidades, com destaque para o Quartel-General do Exército em Brasília. O MPF argumenta que esses acampamentos não foram movimentos espontâneos da base bolsonarista, mas sim uma estratégia planejada para intensificar a pressão sobre os comandos militares.
“O apoio da organização criminosa a acampamentos em frente a quartéis (…) se insere no contexto da atuação efetiva por atitude de ruptura democrática por meio da violência”, diz a peça.
Os manifestantes nesses acampamentos pediam abertamente por “intervenção militar” e “intervenção federal”, fortalecendo a narrativa de que a sociedade demandava a quebra da ordem constitucional. Para o MPF, os oficiais denunciados eram plenamente cientes dessa engrenagem e a estimularam como parte de um mecanismo de coação indireta contra os altos comandos.
Resistência da cúpula
O fracasso da tentativa de golpe, segundo a PGR, decorreu principalmente da recusa dos comandos institucionais do Exército e da Aeronáutica em aderir à conspiração, mesmo sob forte pressão política e social. As alegações finais sublinham que, embora tenha havido desvio de conduta de alguns generais, as Forças Armadas como instituição permaneceram leais à Constituição. “A fidelidade do Exército e da Aeronáutica à força normativa da Constituição impediu a consumação do golpe”, diz o texto.
O caso avança agora para a fase de julgamento no STF, que decidirá a responsabilidade penal de cada réu e o grau de participação individual no conjunto de ações denunciadas. Especialistas ouvidos pela reportagem apontam que as provas e os depoimentos colhidos indicam um método articulado de subversão institucional, cuja base técnica e operacional dependia justamente do envolvimento de militares da ativa e da reserva.
Perguntas que ficam
O MPF deixa claro que a tentativa de golpe não foi apenas uma série de manifestações de rua ou falas políticas inflamadas, mas uma operação bem planejada, que incluiu a mobilização de setores do Estado. As alegações levantam ainda dúvidas importantes: o que pesou mais para a recusa dos comandos? Qual será o impacto para a imagem das Forças Armadas de ver generais no banco dos réus? E qual a real eficácia dos acampamentos como ferramenta de pressão?
Respostas a essas perguntas poderão surgir no julgamento, mas desde já a denúncia escancara a tentativa de transformar as Forças Armadas em instrumento político, expondo divisões internas entre lealdade institucional e adesão a um projeto de poder.



