As equipes técnicas do governo dos EUA tomaram a decisão de designar os grupos criminosos PCC e CV como organizações terroristas, abrindo o caminho para adotar sanções e mesmo medidas militares contra os criminosos. Ao classificar os grupos como terroristas, o governo dos EUA também transforma suas bases e operações em alvos legítimos de um ataque militar.
O trabalho técnico já foi realizado nos EUA e, agora, trâmites políticos ainda precisam ser adotados. Mas, segundo diplomatas ouvidos pelo ICL Notícias, a decisão dificilmente será revertida.
A medida foi revelada com exclusividade no domingo pela jornalista Mariana Sanchez. A reportagem do ICL Notícias confirmou que o Palácio do Planalto já havia sido alertado sobre o risco de tal decisão e buscava caminhos para reabrir diálogo com os EUA.
A decisão ameaça ainda a suposta “boa química” que existia entre os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump. O combate ao crime organizado seria um dos principais pontos da reunião entre os dois líderes, e que poderia ainda ocorrer entre março e abril.
Mas uma decisão dessa natureza ameaça descarrilhar o trabalho diplomático de aproximação. O governo brasileiro acreditava que havia neutralizado o risco ao propor um programa conjunto para lidar com o crime organizado.
Mas a pauta não se limitava ao crime. Entre diplomatas, o tema é também um instrumento político de pressão. A classificação como terroristas era uma reivindicação de bolsonaristas que, ao colocar o tema como centro da relação com o Brasil, buscam o envolvimento direto do governo Trump na agenda doméstica do país.
Ao ICL Notícias, a chefia da Polícia Federal confirmou que sequer aceitou receber uma delegação do Departamento de Estado norte-americano, em 2025, que queria convencer o Brasil a também classificar os grupos como terroristas. A delegação acabou sendo recebida pelo Ministério da Justiça e pelo Itamaraty e, em ambos, ouviu que o Brasil não seguiria na mesma linha.
Um dos temores das autoridades brasileiras é de que, com a designação, as operações do PCC e do CV se transformem em alvos legítimos de ataques militares dos EUA. Nas últimas semanas, o governo Trump lançou ofensivas contra o narcotráfico no México e no Equador. Em ambos, o discurso foi de que se tratou de uma operação conjunta. Mas, entre latino-americanos, a “cooperação” é apenas uma forma de os governos locais se justificarem diante de suas populações.
Neste fim de semana, Trump ainda sinalizou seu interesse em transformar o tema do narcotráfico num instrumento de controle da região. O americano, ao lado de uma dezena de países latino-americanos, anunciou a criação de uma “aliança” militar contra os grupos criminosos.
Seu discurso foi revelador. Num certo momento, ele explicou que fará com o narcotráfico o mesmo que os EUA fizeram com o Estado Islâmico. Ou seja, bombardear em territórios estrangeiros.
Em um tom de brincadeira, ele ainda avisou aos demais presidentes da região: “vocês querem mísseis? Posso também bombardear. Esses mísseis são precisos”.



