Os pastores investigados Roraima por suspeita de crimes sexuais contra adolescentes utilizavam uma regra prevista no estatuto da igreja para desencorajar denúncias e manter vítimas em silêncio, segundo a Polícia Civil. A investigação aponta que o casal se valia da posição de liderança religiosa para exercer controle psicológico sobre fiéis e adolescentes, que temiam ser expulsas da congregação caso denunciassem os abusos.
O caso ganhou novos desdobramentos após a conclusão do inquérito policial. As investigações identificaram ao menos 11 adolescentes, com idades entre 12 e 17 anos, como possíveis vítimas. O relatório foi encaminhado ao Ministério Público e ao Poder Judiciário, enquanto o pedido de prisão preventiva dos investigados tramita sob sigilo. A defesa do casal nega as acusações e afirma que os dois são inocentes.
Investigação aponta uso da fé para controlar vítimas
De acordo com a Polícia Civil de Roraima, o ambiente religioso teria sido utilizado como instrumento de aproximação, manipulação e silenciamento das adolescentes.
Segundo a delegada responsável pelo caso, a confiança depositada nos líderes religiosos dificultou a identificação dos crimes e retardou o surgimento das denúncias. Ainda conforme a investigação, os suspeitos recorriam a interpretações religiosas para convencer as vítimas de que os abusos faziam parte de um suposto propósito espiritual.
Além disso, a polícia afirma que o estatuto da igreja previa punições para membros considerados “rebeldes” ou que desafiassem a autoridade religiosa. Conforme o inquérito, esse mecanismo teria sido usado para intimidar adolescentes e impedir que procurassem as autoridades.
Polícia identificou adolescentes e apura possível rede de manipulação
A investigação começou em abril, depois que adolescentes procuraram espontaneamente a Delegacia de Proteção à Criança e ao Adolescente (DPCA) para relatar os supostos abusos.
Ao longo da apuração, policiais ouviram dezenas de testemunhas e localizaram outras possíveis vítimas. Segundo a Polícia Civil, algumas adolescentes permaneceram sob influência dos investigados durante anos. Em determinados casos, a investigação aponta que os abusos evoluíram para violência sexual envolvendo outros homens, que teriam participado dos crimes sem serem identificados pelas vítimas, que permaneciam vendadas.
Os investigadores também afirmam que o casal utilizava benefícios, cargos religiosos e outras formas de recompensa para fortalecer o vínculo de dependência emocional e dificultar a ruptura das vítimas com a igreja.
Pedido de prisão e destruição de provas também são investigados
Além das suspeitas de crimes sexuais, a Polícia Civil concluiu que houve tentativa de ocultar provas durante a investigação.
Uma mulher foi indiciada por suspeita de fraude processual e corrupção de menores após, segundo a polícia, participar da destruição de um telefone celular que poderia conter elementos de prova. O inquérito também aponta que uma vítima teria sido orientada a registrar falsamente o desaparecimento do aparelho.
O pastor foi indiciado por suspeita de estupro de vulnerável, importunação sexual, favorecimento da exploração sexual de adolescente ou pessoa vulnerável, registro não autorizado de intimidade sexual, fraude processual e falsidade ideológica. Já a pastora foi indiciada por suspeita de estupro de vulnerável, importunação sexual e fraude processual. O Ministério Público analisará o inquérito antes de decidir sobre eventual denúncia à Justiça.
Caso segue sob análise da Justiça
Os processos tramitam sob sigilo. A defesa informou que aguarda acesso integral ao relatório final da investigação para apresentar manifestação detalhada e sustenta que o casal é inocente.
Caso o Ministério Público ofereça denúncia e ela seja aceita pelo Judiciário, será aberta uma ação penal para apurar as responsabilidades dos investigados. Até eventual condenação definitiva, ambos são considerados inocentes, conforme o princípio constitucional da presunção de inocência.



