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O ministro do Supremo Tribunal Federal, José Antônio Dias Toffoli, excede o direito de errar na escolha das más companhias com as quais anda em Brasília. Quando se divulgou que ele havia voado para Lima, no Peru, no último dia 28 de novembro, num jatinho “do empresário” Luiz Oswaldo Pastore na companhia do advogado Augusto de Arruda Botelho, ocorreram reações de indignação por causa da dupla de caronistas aéreos de Pastore: Botelho é advogado de Luiz Antônio Bull, diretor do Banco Master preso junto com o chefe, Daniel Vorcaro, e o sócio dele, Augusto Lima, na Operação Compliance Zero em 19 de novembro. Três dias depois de retornar derrotado da capital peruana (Toffoli é palmeirense), o ministro deu vitória a Botelho numa ação que ele co-patrocinava junto ao Supremo Tribunal Federal e que terminaria com a libertação de Vorcaro, Lima e Bull.
A canetada suprema do ministro gerou justa indignação em parte da sociedade, mas só agora se joga luz no caronista daquela caravana holiday que singrou os céus do Brasil e do Peru. Luiz Oswaldo Pastore, 76 anos, é sócio-controlador da Indústria Brasileira de Metais (Ibrame) e um dos maiores produtores e mineradores de cobre do país. Também produz alumínio. Atua no Espírito Santo, onde coleciona contenciosos jurídicos por causa de sua vida empresarial. Especializou-se no esquisito ramo de ser “suplente de senador” com o objetivo de permanecer nas franjas do poder em Brasília. Foi suplente do senador Gerson Camata, nome histórico do PMDB capixaba. Depois, foi suplente da senadora Rose de Freitas, também do Espírito Santo, e assumiu o mandato dela em 2019. Ficou por quase três anos no Senado sem jamais ter tido um voto.
Mas, naquele ano de 2022 em que o Brasil derrotou a tentativa de perpetuação do fascismo no poder, Pastore mudou o domicílio eleitoral para o Distrito Federal e se tornou candidato a suplente da então ministra da Articulação Política, Flávia Arruda. Foi o principal financiador de Flávia na pessoa física – doou (em on, pelo menos) R$ 380 mil para a campanha dela. Derrotada na eleição pela ex-colega de ministério sob Jair Bolsonaro, Damares Alves, a amiga de Luiz Oswaldo Pastore largou o casamento de 20 anos com o ex-governador José Roberto Arruda e assumiu o namoro com o banqueiro Augusto Lima, sócio de Daniel Vorcaro no Banco Master. Os dois casaram em 2023 e Flávia mudou o sobrenome – passou a se chamar Flávia Peres. Ou seja, em apertada síntese (como adoram escrever os causídicos em suas peças eivadas de juridiquês), o dono do jato que levou Dias Toffoli ao Peru e o trouxe de volta ao Brasil depois de o Palmeiras ser derrotado pelo Flamengo na final da Libertadores foi mantenedor da esposa do sócio de Vorcaro em 2022.
PASTORE É DELFIM DA EXTREMA-DIREITA MUNDIAL
Essa, entretanto, é só uma das relações perigosamente explosivas de Luiz Oswaldo Pastore com a política que recomendariam Dias Toffoli jamais pisar na escadinha de acesso aos jatinhos dele. Em 2018, exercendo a dupla cidadania italiana, Pastore foi candidato ao Senado da República da Itália pela “Lega Per Salvini”, legenda de ultradireita que dava sustentação a Matteo Salvini, ex-ministro de relações exteriores que se tornou um dos porta-vozes do terraplanismo (sim, ele é confessadamente terraplanista desde 2012, pelo menos), do obscurantismo anti-vacina, da repulsa medieval da Itália aos imigrantes que chegavam na Península Itálica… Salvini, o link de Pastore com a política italiana, é hoje o vice-primeiro-ministro da ultradireitista Georgia Meloni. Em 2019, no livro “Os Engenheiros do Caos”, o italiano Giuliano Da Empoli descreve como Salvini esteve no epicentro do furacão de mentiras, chantagens, distorções e crimes cometidos pela extrema-direita na Itália, no Reino Unido e nos Estados Unidos por meio da Cambridge Analytica. Foi a partir dali que vicejou o discurso de ódio responsável por nos legar Jair Bolsonaro na presidência da República, eleito em 2018, quando Toffoli ocupava a presidência do STF, e redundando no golpe de Estado de 8 de janeiro de 2023.
José Antônio Dias Toffoli, advogado formado na Faculdade de Direito do Largo de São Francisco em São Paulo, ex-assessor da bancada do PT na Câmara dos Deputados, ex-secretário de Assuntos Legislativos da Casa Civil sob o comando de José Dirceu, ex-advogado-geral da União no segundo mandato do presidente Lula, ministro do Supremo Tribunal Federal que dentro de pouco menos de três anos ascenderá ao decanato da Corte Constitucional brasileira, não podia ter aceitado aquela carona infame. Não podia. Em nome da biografia que pretende construir (e que já encomendou a um excelente biógrafo), não podia.
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