Os governos da região do Golfo fazem uma ofensiva diplomática para pressionar o Brasil a recalibrar sua posição na guerra no Irã. Nos últimos dias, representantes do Catar, Omã, Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Arábia Saudita e Bahrein proliferaram encontros na esperança de passar a mensagem ao governo Lula de que gostariam de ver uma condenação mais enérgica por parte do país sobre os ataques que vêm sofrendo a partir do Irã.
A guerra que começou em 28 de fevereiro com bombardeios israelenses e americanos contra o Irã e a morte de mais de mil civis foi respondida por parte de Teerã com ataques às bases dos EUA nos países da região. Centenas de drones e mísseis foram interceptados por esses países, ainda que parte deles tenham atingido principalmente a infraestrutura energética.
No mesmo dia, o governo brasileiro emitiu duas notas e considera que sua posição tem sido “equilibrada”. Na primeira manifestação, o Brasil “condenou e expressou grave preocupação com os ataques realizados por Estados Unidos e Israel contra alvos no Irã”.
“Os ataques ocorreram em meio a um processo de negociação entre as partes, que é o único caminho viável para a paz, posição tradicionalmente defendida pelo Brasil na região”, afirmou.
No mesmo dia, diante das resposta do Irã, o governo emitiu uma segunda nota. “O governo brasileiro manifesta profunda preocupação com a escalada de hostilidades na região do Golfo, que representa uma grave ameaça à paz e à segurança internacionais, com potenciais impactos humanitários e econômicos de amplo alcance”, disse.
Na nota, o governo faz um “apelo à interrupção de ações militares ofensivas, o Brasil insta todas as partes a respeitar o Direito Internacional e condena quaisquer medidas que violem a soberania de terceiros Estados ou que possam ampliar o conflito, tais como ações retaliatórias e ataques contra áreas civis”.
“Recordando que a legítima defesa, prevista no artigo 51 da Carta das Nações Unidas, é medida excepcional e sujeita à proporcionalidade e ao nexo causal com o ataque armado, o Brasil se solidariza com a Arábia Saudita, o Bahrein, o Catar, os Emirados Árabes Unidos, o Iraque, o Kuwait e a Jordânia – objetos de ataques retaliatórios do Irã em 28 de fevereiro”, disse.
Reuniões com embaixadores
Mas os governos do Golfo acreditam que o posicionamento não tem sido suficiente. No último dia 4, embaixadores da região, liderados pela representação do Bahrein, procuraram o senador Nelsinho Trad, presidente da Comissão de Relações Exteriores do Senado, para relatar o que estão enfrentando na região após a intensificação do conflito.
Durante o encontro, o senador indicou que os diplomatas apresentaram um relato “bastante duro” sobre os impactos dos ataques que vêm ocorrendo nos últimos dias em países do Golfo. Entre os episódios citados, um deles foi o caso de uma criança de 11 anos que teria sido morta em um ataque enquanto dormia em casa, na véspera de ir para a escola, no Kuwait.
Os representantes relataram ainda que aeroportos, portos, hotéis e outras estruturas civis em diferentes países da região teriam sido atingidos ou colocados sob risco durante essa escalada.
O que eles argumentam é que se trata de países que não estariam diretamente envolvidos no conflito. A versão é contestada pelo Irã, que insiste que apenas está atacando esses locais por conta de servirem de base para a ofensiva que estão sofrendo.
Os diplomatas também demonstraram preocupação com o impacto regional e global da escalada, inclusive sobre a segurança da navegação no Estreito de Ormuz e sobre o mercado internacional de energia.
Um dos pontos principais do encontro foi o pedido dos embaixadores para que comunidade internacional se manifeste “de forma mais clara” em relação aos ataques atribuídos ao Irã contra seus territórios.
A declaração do Brasil de 28 de fevereiro foi mencionada pelos embaixadores, mas indicaram que esperam que haja um posicionamento “mais firme também” em relação aos episódios relatados por seus países.
Por conta dos relatos e diante do impacto potencial da guerra na economia brasileira, o senador irá incluir o tema na agenda da Comissão de Relações Exteriores do Senado, que se reúne nesta terça-feira. A ideia é discutir um possível posicionamento da Comissão sobre esse tema.



