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Aí, onde está agora, o Brasil é mais do que ele próprio. O mundo segue com atenção o desenvolvimento da disputa tarifária para saber se também a nação brasileira se vai render. Não haja engano: não é o só o Sul global, mas uma larga parte do Ocidente que espera do Brasil uma posição firme. Julgo que podemos dizer, sem exagerar, que uma boa parte (senão a maior parte) da Europa e dos Estados Unidos esperam que o Brasil não capitule perante medidas injustas, discriminatórias e impostas unilateralmente. Já bastou a própria Europa. Alguém tem de mostrar dignidade.
E, por favor, nada de ilusões: o chamado “tarifaço” começa por ser um problema para o próprio Ocidente – para a “ordem ocidental”, mais exatamente. Estas medidas (que, não esqueçamos, não têm qualquer mérito ou razão econômica), põem em causa o direito internacional e as instituições internacionais que o próprio Ocidente criou para regular a globalização. Não, não foi a China que criou a OMC, nem o FMI, nem Banco Mundial. Estas instituições são ocidentais, com leis escritas por ocidentais e com dirigentes ocidentais. O comportamento da administração americana nada deixa de pé no mundo do comércio mundial – nem lei, nem ordem, nem justiça. A partir daqui as potências econômicas podem fazer o que quiserem, quando quiserem, a quem quiserem. Recua o direito, regressa a força. O “tarifaço” é um tiro na “ordem ocidental”, não noutra, porque não existe outra. Por enquanto.
Vejo para aí inúmeros apelos ao governo para que aceite negociar. Mas, com franqueza, algum dia o Brasil se fechou ao diálogo? Alguma vez o governo brasileiro se recusou a negociar? Certamente que não. A questão não é essa – e todos os atores políticos brasileiros sabem que a questão não é essa. Os que pedem uma negociação, estão a aceitar imediatamente os termos e as condições de partida: haverá tarifas, mas podem ser menores, se se portarem bem. Está proibido perguntar porque é que tem de haver tarifas. Parece que também não é permitido perguntar quem tem déficit comercial e quem é que deveria suportar mais tarifas. Será essa a negociação que desejam? Será essa uma negociação séria, leal e justa? No fundo: será essa uma negociação entre Nações soberanas ou será que o Brasil deve olhar para as tarifas como um tributo imperial que a periferia deve pagar à Nação mais rica e mais poderosa do mundo? Sem querer dar conselhos a ninguém, que, aliás, tem mostrado que não precisa deles, gostaria de lembrar que os países podem viver com a dificuldade económica, mas é mais difícil conviver com a humilhação nacional. Muito mais. Além do mais, o Brasil nunca, no passado, humilhou ninguém – e isso torna mais difícil aceitá-la.
Finalmente, a questão do juiz Alexandre de Moraes. Os políticos e analistas que para aí vejo defender uma negociação “pragmática” (é assim que lhe chamam, como se os outros, os que falam de soberania, fossem radicais fanáticos), parece que julgam possível pôr o assunto de lado e negociar só as tarifas. Não, não é assim. O pragmatismo, isto é, a ação com base em avaliação de resultados, é muito estimável na condução da política externa, mas tem limites – e um deles é a honra nacional. Os Estados Unidos deixaram esse ponto absolutamente claro desde a primeira hora: as tarifas destinam- se a exigir que a Justiça brasileira abandone a ação penal contra o golpe de Estado e contra o antigo presidente Bolsonaro. Podem, por favor, explicar então como se responde a este ultimato político absolutamente irresponsável? Ignorando o assunto e falando de tarifas, de metais raros e de cooperação econômica, como se o que foi dito não tivesse importância? Pensemos o que pensemos do juiz Alexandre de Moraes, uma coisa é certa e segura: é assunto de brasileiros, que será discutido e decidido por brasileiros, não por estrangeiros. A política brasileira pode ser complexa, mas, neste caso, o Brasil não é diferente dos demais países do mundo: perante um ataque externo tão injusto e inesperado o dever da oposição é colocar-se ao lado do governo sem hesitações. A hora é de responsabilidade.



