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Por Cleber Lourenço
A denúncia que pede a suspensão dos mandatos dos deputados envolvidos no motim que paralisou o Congresso entra no Conselho de Ética diante de um cenário intrincado, onde a política e o regimento interno se entrelaçam para formar um campo minado.
O processo já passou pela Corregedoria Parlamentar — atualmente comandada por Diego Coronel (PSD-BA), aliado do governador Jerônimo Rodrigues (PT) e figura do Centrão raiz — e pela Mesa Diretora, mas agora enfrenta a etapa mais imprevisível: o julgamento por um colegiado cuja composição favorece partidos de centro-direita e que, historicamente, mostra baixa disposição para aplicar punições severas a seus pares.
O PL, legenda da maioria dos denunciados, detém quatro cadeiras titulares no Conselho, além de suplentes capazes de recompor votos em caso de impedimentos. O MDB e o PSD surgem como fiéis da balança, decidindo cada caso com base em cálculos políticos, enquanto União Brasil, Republicanos e PP formam uma base de votos inclinada a defender ou suavizar as penas contra os acusados. Sem a adesão de MDB e PSD a um entendimento por medidas duras, a chance de aprovar suspensões é mínima. Nesse contexto, advertências e censuras aparecem como alternativas mais prováveis.
O cenário ganha complexidade adicional porque alguns denunciados são integrantes do próprio Conselho, o que exige afastamento temporário e abre espaço para substituições estratégicas. Esse fator, combinado com o uso de manobras regimentais como pedidos de vista, produção adicional de provas e oitivas prolongadas, pode arrastar o caso por meses, até o ponto de reduzir o interesse político em punir.
Hugo Motta, presidente da Câmara, dificilmente teria tomado a decisão de enviar a lista de nomes para o Conselho sem algum grau de acerto político prévio. Sua imagem foi severamente desgastada após o episódio em que a cadeira da Presidência foi ocupada durante o motim, forçando-o a pedir licença, negociar e até implorar para retomar o assento.
Uma eventual desidratação da lista, com absolvições que deixem poucos ou nenhum punido, aprofundaria a percepção de fragilidade e poderia desencadear novas ofensivas contra sua liderança.
Na primeira etapa, na Mesa Diretora, Motta conseguiu apoio para encaminhar o caso, superando resistências como a do vice-presidente Altineu Côrtes (PL), apoiou o motim. Mas no Conselho de Ética, a disputa será travada voto a voto, com cada bancada avaliando o custo político de punir seus próprios membros ou aliados.
O resultado do processo não afetará apenas os parlamentares envolvidos, mas a própria autoridade da Presidência da Câmara. Uma decisão firme e abrangente poderia sinalizar recomposição de autoridade e disposição para impor limites à conduta parlamentar. Já um desfecho brando reforçaria a narrativa de que o motim rendeu dividendos políticos e que, no fim, a força da Presidência é insuficiente para conter atos que desafiam diretamente a ordem interna da Casa.



