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sexta-feira, 6 março, 2026
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Operação apura policiais civis de SP suspeitos de destruir provas por propina

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Uma operação do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), do Ministério Público de São Paulo, em conjunto com a Polícia Federal, investiga um esquema de corrupção e lavagem de dinheiro que teria sido montado dentro da Polícia Civil paulista. De acordo com os investigadores, policiais civis, advogados e doleiros formaram uma rede criminosa responsável por interferir em investigações, destruir provas e receber propina para beneficiar investigados.

A Justiça autorizou o cumprimento de 11 mandados de prisão e 25 mandados de busca e apreensão. Até o momento, nove pessoas foram presas. Entre os alvos das buscas estão unidades da própria Polícia Civil. Também foi determinado o bloqueio de bens de investigados. As identidades de todos os presos ainda não foram divulgadas oficialmente.

Segundo o Ministério Público, o grupo atuava em diferentes departamentos da corporação. Um dos principais focos do esquema seria o Departamento Estadual de Investigações Criminais (Deic). Há ainda indícios de irregularidades envolvendo o 16º Distrito Policial da Vila Clementino e o Departamento de Polícia de Proteção à Cidadania (DPPC).

As investigações indicam que pelo menos sete policiais civis da ativa participavam do esquema. Um ex-policial, que atualmente atua como advogado, também seria integrante do grupo. A Justiça solicitou a prisão de quatro desses agentes: o investigador Roldnei Eduardo dos Reis Baptista, apontado como um dos principais articuladores da organização; o investigador Rogério Coichev Teixeira; o escrivão Ciro Borges Magalhães Ferraz; e o delegado João Eduardo da Silva. As defesas dos citados ainda não foram localizadas.

Em nota, a Secretaria de Segurança Pública de São Paulo afirmou que a Polícia Civil não tolera desvios de conduta de seus integrantes. Segundo a pasta, todas as medidas legais e administrativas cabíveis serão adotadas caso as irregularidades sejam confirmadas. A Corregedoria da corporação foi acionada e deverá realizar um pente-fino em unidades policiais citadas na investigação.

Investigação começou após operação contra doleiros

O suposto esquema foi descoberto após análise de materiais apreendidos durante a Operação Recidere, deflagrada em 2023 pela Polícia Federal em conjunto com a Receita Federal. A ação tinha como alvo um grupo de doleiros que utilizava empresas de fachada para enviar dinheiro ilegalmente ao exterior.

Durante a análise das mensagens encontradas nos dispositivos apreendidos, os investigadores identificaram conversas que indicavam a tentativa de ocultar ou destruir provas relacionadas a operações conduzidas pela própria Polícia Civil. Uma das investigações citadas nas mensagens é a Operação Fractal, deflagrada em outubro de 2022 pela 1ª Delegacia da Divisão de Investigações sobre Crimes contra a Administração, Combate à Corrupção e Lavagem de Capitais.

Segundo o Ministério Público, o inquérito da Operação Fractal está em andamento há quase cinco anos e ainda não teve conclusão. Nas mensagens analisadas, advogados aparecem como intermediários entre integrantes do grupo criminoso e policiais que teriam acesso às investigações.

O empresário Leonardo Meirelles, um dos doleiros investigados na operação (Foto: Nilson Bastian / Câmara dos Deputados)

Pagamentos para interferir em investigações

Entre as conversas interceptadas, há relatos de pagamentos feitos a agentes da polícia para interferir em apurações. Em uma das mensagens analisadas, um investigado afirma ter pago a um agente do DPCC para “resolver o problema” de dois doleiros investigados: Meire Poza e Leonardo Meirelles.

Dias após o suposto pagamento, os dois compareceram para prestar depoimento na sede do departamento responsável pela investigação da Operação Fractal. Segundo o Ministério Público, uma mensagem enviada à doleira indicava que a situação já estaria resolvida. “Já está tudo acertado com os caras lá dentro”, dizia o texto interceptado.

A Justiça também decretou a prisão preventiva de Leonardo Meirelles e de Meire Poza na operação deflagrada nesta semana. As defesas dos dois ainda não foram localizadas.

Meire Poza teve a prisão preventiva decretada pela operação (Foto: Lúcio Bernardo Jr. / Câmara dos Deputados)

Troca de HD com provas em delegacia

Em um dos episódios considerados mais graves pelos investigadores, integrantes do esquema teriam se encontrado com policiais dentro de uma delegacia para substituir um HD apreendido durante a Operação Fractal. O equipamento contendo provas teria sido trocado por outro dispositivo vazio.

De acordo com o Ministério Público, o encontro ocorreu na sede do Departamento de Polícia de Proteção à Cidadania, localizada no centro da capital paulista.

Outro local usado pelo grupo para encontros e pagamentos de propina teria sido o hangar da Polícia Civil no aeroporto Campo de Marte, na zona norte de São Paulo. Em uma das ocasiões investigadas, um suspeito teria entregue R$ 50 mil em dinheiro diretamente a um policial.

Além disso, um dos agentes teria enviado um áudio a um investigado informando que nenhum material comprometedores havia sido encontrado nas mídias apreendidas durante as operações. As conversas também mencionam discussões sobre delegacias consideradas estratégicas e possíveis mudanças em equipes policiais que investigavam crimes relacionados ao grupo.

Propina disfarçada como vale-alimentação

Para ocultar os pagamentos ilegais, os investigados teriam criado um sistema para transformar dinheiro em créditos de vale-alimentação. Segundo o Ministério Público e a Polícia Federal, o mecanismo servia para lavar valores obtidos com atividades criminosas, incluindo o tráfico de drogas.

O esquema utilizava estabelecimentos comerciais fictícios, como padarias e pequenos mercados, que registravam compras inexistentes. Dessa forma, o dinheiro de origem ilícita era convertido em saldo em cartões de benefício, dificultando o rastreamento da propina.

Em relatórios paralelos do grupo criminoso, os pagamentos eram registrados como “despesas ticket delegacia”. Um dos envolvidos chegou a ser apelidado pelos demais integrantes de “Cleber do ticket”, em referência ao método utilizado para ocultar os valores.





ICL Notícias

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