Depois de mais de cinco décadas de um hiato que fez a alegria e alimentou as mais delirantes teorias conspiratórias dos terraplanistas, a humanidade – ou pelo menos a parte dela que tem bilhões de dólares sobrando – resolveu que era hora de voltar à Lua. A missão Artemis II decolou, para o desespero de quem jurava que o espaço era um holograma projetado pela NASA. Quatro astronautas corajosos foram despachados em uma viagem de dez dias para dar uma voltinha ao redor do nosso satélite natural. Mas, vejam só a ironia: eles não vão pousar. Vão apenas dar uma “olhadinha”, tirar umas fotos bonitas e voltar. O pouso mesmo, aquele momento de fincar a bandeira e chutar a poeira lunar, ficou para depois. Quem sabe em 2028, se o orçamento de quase cem bilhões de dólares permitir e os atrasos não se acumularem ainda mais. É como viajar até Paris apenas para ver a Torre Eiffel pela janela do avião e voltar para casa.
Ora, além do inegável fascínio que remonta às nostálgicas e perigosas disputas da Guerra Fria, quando o espaço era o palco final para provar qual sistema econômico era o melhor, a nova corrida espacial tem motivações muito menos poéticas e muito mais pragmáticas. A missão é astronomicamente cara, mas os novos interesses justificam cada centavo aos olhos do mercado: terras raras, metais preciosos, Hélio-3 e água. Ao fim e ao cabo, aquelas romantizadas fotografias da Lua prateada e da nossa “pálida pérola azul” (cada vez mais cinzenta) vista lá do espaço – aquele vazio silencioso que não tem teto e não tem chão – escondem, mais uma vez, o óbvio ululante. A voracidade da atual corrida espacial nada mais é do que a mesmíssima voracidade pela disputa de recursos naturais que moldou a nossa história terrestre. Não bastasse esgotar os recursos daqui, perfurar nossas montanhas, poluir nossos rios e levar o meio ambiente à beira do colapso irreversível, o objetivo agora é exportar esse modelo de desenvolvimento predatório. O plano é fazer a mesma coisa na Lua, depois em Marte, e onde quer que a gravidade permita pousar uma broca de mineração. E, claro, Estados Unidos e China estão na linha de frente dessa nova e brilhante disputa neocolonialista extraterrestre, desenhando mapas de influência em crateras que até ontem só serviam para inspirar poetas e lobisomens.
E não se iludam, amáveis amantes da astronomia e sonhadores de plantão. Basta olhar com um pingo de atenção para as empresas que financiam e constroem as “máquinas tecnológicas” que vão ao espaço para perceber que a exploração espacial deixou de ser um esforço científico dos Estados Nacionais ou da utópica humanidade. Os foguetes e módulos de pouso de hoje levam as assinaturas de bilionários comprometidos até o pescoço com a indústria bélica e com seus próprios interesses quase trilionários. Estamos falando de figuras como Elon Musk, com sua SpaceX abocanhando contratos multibilionários, e Jeff Bezos, além de velhas conhecidas da máquina de guerra americana como Boeing e Northrop Grumman (a fabricante de refinados aviões de guerra). O espaço não é mais a fronteira final da exploração humana; tornou-se a nova bolsa de valores, um anexo do Vale do Silício orbitando a Terra, onde o lucro dita a trajetória de voo e a ciência é apenas o relações-públicas da empreitada.
Uma coisa é absolutamente certa: a Lua nunca mais será a mesma. Aquela esfera pálida e misteriosa que guiou navegadores, inspirou sonetos apaixonados e serviu de calendário para civilizações antigas está prestes a se tornar um gigantesco canteiro de obras a céu (ou vácuo) aberto. Nossas representações românticas sobre ela sobreviverão apenas nos livros de História, soterradas sob o peso de contratos de extração de platina e isótopos de hélio. Triste humanidade, esta nossa. Uma espécie que, incapaz de resolver a fome e a desigualdade no seu próprio quintal, decide exportar a loucura da sua razão econômica, fria e catastrófica, para o silêncio do cosmos. Pelo visto, o único verdadeiro limite para a ganância humana não é o céu; é a velocidade da luz. Que saudades de Catulo da Paixão Cearense e João Pernambuco em “Luar do Sertão”, era sim um outro tempo da lua e do mundo…
Não há, ó gente, ó não
Luar como esse do sertão
Não há, ó gente, ó não
Luar como esse do sertão
Oh que saudade do luar da minha terra
Lá na serra branquejando folhas secas pelo chão
Este luar cá da cidade tão escuro
Não tem aquela saudade do luar lá do sertão
Não há, ó gente, ó não
Luar como esse do sertão
Não há, ó gente, ó não
Luar como esse do sertão
Se a lua nasce por detrás da verde mata
Mais parece um sol de prata prateando a solidão
E a gente pega na viola que ponteia
E a canção e a lua cheia a nos nascer do coração
Não há, ó gente, ó não
Luar como esse do sertão
Não há, ó gente, ó não
Luar como esse do sertão



