Por Cleber Lourenço
O Brasil mal havia terminado de contar os votos quando começou a contagem dos direitos que alguns gostariam de retirar dos brasileiros. O direito de votar, de trabalhar, de expressar uma opinião, de comprar comida e até de existir em paz. O candidato derrotado fugiu do país. O dólar disparou. A Bolsa despencou. Trabalhadores denunciaram ameaças de demissão, comerciantes viraram alvos de boicotes e comunidades indígenas enfrentaram episódios de violência. Tudo isso enquanto milhões de brasileiros tentavam fazer uma coisa aparentemente intolerável para determinados setores da sociedade: seguir a vida depois de uma eleição.
Bem-vindos ao terceiro turno dos malucos.
É uma competição curiosa. Não tem urna eletrônica, mesário ou horário eleitoral. Tem jatinho particular, terminal de negociação, patrão fiscalizando rede social de funcionário e gente convencida de que pode determinar quais direitos os outros merecem exercer.
Talvez o Partido Liberal tivesse encontrado um destino diferente se houvesse dedicado à conquista de eleitores a mesma energia que alguns de seus aliados dedicaram a dificultar o exercício do voto. Em 2022, operações da Polícia Rodoviária Federal, especialmente no Nordeste, foram investigadas por suspeitas de interferência no deslocamento de eleitores. Quatro anos depois, o transporte público voltou a produzir denúncias graves, desta vez em cidades como Salvador e São Paulo.
É uma inversão extraordinária da lógica democrática. Em vez de perguntar por que o eleitor não escolheu determinado candidato, discute-se por que ele conseguiu chegar à seção eleitoral.
Mas a eleição terminou. Lula venceu. E Flávio Bolsonaro (PL-RJ), que poderia ter reconhecido o resultado e reorganizado sua oposição, preferiu atravessar a fronteira com a Argentina e embarcar em um avião particular rumo aos Estados Unidos, depois de receber uma ordem judicial para entregar seus passaportes.
Já em território americano, divulgou uma carta contestando o resultado eleitoral. A cena tem alguma coisa de comédia política mal escrita. O sujeito disputa a Presidência, perde, deixa o país e passa a contestar a eleição a milhares de quilômetros de distância. A democracia brasileira, aparentemente, deveria funcionar como uma companhia aérea: se o destino não agrada ao passageiro, ele exige a alteração da rota.
Enquanto isso, na Faria Lima, outra modalidade de inconformismo encontrava expressão nos monitores do mercado financeiro.
Na segunda-feira, o Ibovespa despencou 13,88% e o dólar disparou mais de 8%. A reação refletiu preocupações fiscais, surpresa com o resultado e movimentos de investidores que precisaram rever suas apostas. Mas também expôs uma velha tensão brasileira: a tentativa de transformar preferências econômicas em exigências políticas.
A Faria Lima tem todo o direito de escolher seus investimentos. O que não tem é um voto adicional na eleição presidencial.
E quem paga a conta de uma instabilidade cambial prolongada não é apenas quem acompanha gráficos na corretora. Um dólar persistentemente mais caro pode pressionar combustíveis, alimentos e medicamentos. O operador financeiro pode comprar proteção cambial. A família que já compromete quase toda a renda com despesas básicas não dispõe da mesma alternativa.
Mas havia quem considerasse insuficiente manifestar descontentamento com o resultado. Era preciso descobrir em quem o funcionário havia votado.
O Ministério Público do Trabalho recebeu milhares de denúncias de assédio eleitoral ao longo de 2026, incluindo uma nova onda depois do segundo turno. Nas redes sociais, circularam campanhas incentivando empresários a identificar e demitir trabalhadores que apoiaram Lula. Comerciantes também passaram a integrar listas de boicote por suas supostas preferências políticas.
É uma concepção bastante peculiar de liberdade. O patrão pode defender suas convicções, financiar campanhas e publicar manifestos. O empregado, aparentemente, deveria consultar o departamento de recursos humanos antes de exercer os mesmos direitos.
E então chegamos à parte da semana em que o absurdo deixa de ser engraçado.
Em Mato Grosso do Sul, comunidades Guarani Kaiowá denunciaram ameaças e episódios de violência. Entre os casos levados às autoridades está um áudio atribuído a um servidor municipal que sugeria envenenar a água consumida por indígenas em represália ao resultado eleitoral.
A violência contra os povos indígenas não começou nesta eleição. Tem raízes históricas, disputas territoriais e uma longa trajetória de impunidade. Mas ameaçar pessoas por suas escolhas políticas, em comunidades que já enfrentam tantas violações, acrescenta uma dimensão particularmente brutal ao problema.
Talvez essa seja a conexão mais perturbadora entre acontecimentos tão diferentes.
Quando se dificulta o transporte de eleitores, ameaça-se o direito de votar. Quando a instabilidade financeira compromete o poder de compra, o direito de consumir fica pressionado. Quando um trabalhador é ameaçado de demissão por sua opinião, sua liberdade de expressão passa a depender da tolerância do patrão. Quando comerciantes são intimidados, até trabalhar e vender pode se tornar motivo de perseguição.
E quando comunidades indígenas são ameaçadas, já não estamos falando apenas do direito de votar, trabalhar ou falar. Estamos falando do direito de existir.
São episódios de naturezas e responsabilidades diferentes, mas que revelam como a intolerância política pode atingir dimensões cada vez mais fundamentais da vida.
Talvez alguns devessem ter dedicado mais tempo a convencer brasileiros a votar em suas propostas do que a tentar restringir direitos. Afinal, conquistar votos exige diálogo. Impor medo exige apenas encontrar alguém em posição de vulnerabilidade.
O Brasil foi às urnas para escolher um presidente, não para conceder a candidatos, empresários ou operadores financeiros o poder de decidir quais direitos seus concidadãos merecem conservar.
O terceiro turno dos malucos pode até não ter data para terminar. Mas há uma coisa que ele não tem o direito de fazer: transformar a derrota de alguns na perda de direitos de todos.



