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Exu expôs um pouquinho antes dos alemães e dos franceses alguns problemas do conhecimento do fato com grande competência, em um dos mitos mais famosos do corpo literário de Ifá; o conjunto dos poemas da criação revelado aos homens e mulheres pelo sábio Orunmilá.
Refiro-me ao dia em que Exu resolve desafiar os sabichões que garantiam portar a verdade sobre determinado acontecimento. O compadre, então, diz que a verdade está com aquele que consegue dizer qual é a cor do filá que ele levará na cabeça no próximo dia do mercado.
O poema é longo, relativamente conhecido, e aqui vai o resumo: Exu propõe o desafio, coloca os sabichões em lados diferentes do mercado e passa pelo meio dos dois grupos. Acontece que a carapuça do grande orixá é vermelha de um lado e preta do outro. Quem olha pela direita enxerga o preto; quem olha pela esquerda observa o vermelho.
Um sábio grita “é preta!” , o outro afirma que é vermelha. Os dois acabam se matando em nome da versão verdadeira, enquanto Exu solta a gargalhada zombeteira e continua seu caminho, em busca de um bode para descarnar, realizando assim uma de suas funções mais sofisticadas: a de gerar a confusão que, no fim das contas, pode nos redimir da auto-combustão no fogo sagrado das certezas inabaláveis.
A polêmica que envolve a cor da carapuça de Exu, o andarilho, destrói a pretensão dos sábios em relação ao domínio da verdade e expõe a sofisticada e ancestral visão de Ifá sobre os fatos; é a ela que também recorro quando penso a História.
Quem quiser saber mais sobre esse mito – e não tem acesso ao corpo literário dos poemas da criação – fica aqui uma dica: leiam “Os sábios de Tombuctu”, conto que faz parte de Elegbara, o livro em que Alberto Mussa, escritor e babalaô (sacerdote do segredo), profundo conhecedor de mitologias diversas, recria e reinventa, com imaginação prodigiosa, a famosa história do corpo literário de Ifá. O conto magistral propõe o enigma que perpassa a fascinante literatura de Mussa, sintetizada na frase de Elegbara (penso nela sempre como um recado de Exu para mim, no trabalho com a História):
– Como julgam dominar a verdade se não podem acordar sequer sobre a cor de uma carapuça?
Escutar a lição de Exu é ensaiar outras miradas antes de arrotar sentenças, matar ou morrer por causa de alguma verdade indiscutível. Elas nos paralisam e nos impedem de dançar na grande canjira ritual, enquanto os atabaques tocam e a carne do bode é digerida, para fortalecer o axé das mulheres e dos homens, na pimenta forte do tempero de Bará, o senhor das encruzilhadas do mundo.
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