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domingo, 12 abril, 2026
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‘O Povo Brasileiro’ é publicado em mandarim pela primeira vez

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Por Mauro Ramos – Brasil de Fato

“Entendimento é a primeira fase da cooperação”, disse ao Brasil de Fato a professora Yan Qiaorong (de nome brasileiro Silvia), tradutora ao mandarim do livro O Povo Brasileiro: A Formação e o Sentido do Brasil, de Darcy Ribeiro, lançado pela primeira vez na China na quinta-feira (9), na sede do Grupo de Comunicações Internacionais da China (GCIC), em Pequim.

O clássico do pensamento brasileiro foi editado em conjunto pela Blossom Press e o Centro Cultural de Publicações China-América Latina e Caribe do GCIC, em parceria com a Fundação Darcy Ribeiro, do Brasil. O lançamento faz parte das comemorações do Ano Cultural China-Brasil e inaugura um ciclo de apresentações da obra que percorrerá Xangai, Hangzhou, Suzhou e Macau nas próximas semanas.

O presidente da Fundação Darcy Ribeiro, José Ronaldo Alves da Cunha, discursou durante o lançamento, que para ele representa o cumprimento de um dos objetivos centrais do intelectual.

“Tenho certeza que Darcy estaria exultante. Me sinto cumprindo uma de suas metas, realizando esse sonho de trazer ‘O Povo Brasileiro’ para a China, exatamente neste momento” disse o presidente da fundação, também em entrevista ao BdF.

Para ele, a obra é “o melhor presente que o Brasil poderia dar para a China”, por oferecer ao leitor chinês tanto as realizações quanto os grandes desafios do país, assim como a aproximação “mais intensa, mais garantida e mais perene” que pode haver entre dois povos.

A antropóloga Gisele Jacon de Araújo Moreira qualificou o livro como “a melhor versão de quem somos nós, o povo brasileiro”, além de “a forma de apresentar o Brasil para os chineses, exatamente neste momento de maior aproximação” entre os dois países.

Hoje vice-diretora da Fundação Darcy Ribeiro, ela teve um papel fundamental na obra. Jacon foi assessora do intelectual brasileiro, quem a agradeceu especialmente no próprio livro: “Este livro é obra nossa”.

Segundo ela, “o que o Darcy vai construir, em termos de explicação e interpretação do Brasil, resulta numa utopia Brasil, aquilo que nós queremos ser, aquilo que nós queremos construir para o futuro”.

A obra representa a versão “mais generosa, mais solidária, mais justa” do povo brasileiro, e é “o que podemos compartilhar de melhor com a China”.

A edição é a primeira tradução do livro ao mandarim desde sua publicação original pela Companhia das Letras, no Brasil, em 1995.

O desafio de traduzir Darcy Ribeiro

A professora Yan Qiaorong, da Universidade de Comunicação da China, especialista em estudos brasileiros e tradutora com mais de 20 anos de experiência, diz que um dos principais desafios foi a tradução do próprio título.

Yan explicou que optou por “巴西人” (Bāxīrén, “brasileiros”) em vez de “巴西人民” (Bāxī rénmín, “povo brasileiro”), porque os dois termos podem carregar sentidos diferentes para um leitor chinês.

O termo 人民 (rénmín) tem, no contexto político da República Popular da China, uma conotação específica: designa o sujeito coletivo constituído, com definição concreta em termos políticos, diferente de “cidadão” ou simplesmente “pessoa”. 巴西人 (Bāxīrén), por sua vez, remete a uma identidade nacional mais descritiva, ao sentido de “quem é brasileiro”, próxima do 人 (rén) que a tradutora identifica no próprio argumento de Darcy: a ideia de “uma nova gente, um novo ser humano”.

“O Darcy está falando de um povo-nação, não de um grupo político. Trata-se de uma jornada de formação desse tipo de pessoas, essa comunidade, essa nação”, explicou. A trajetória que Ribeiro descreve, dos primeiros contatos coloniais até os brasileiros de hoje, é a de uma identidade ainda em processo. Daí a tradutora concluir que 巴西人 é “mais adequado” para o chinês.

Ela diz que essa discussão “só se baseia em uma leitura e entendimento aprofundado sobre esse livro, sobre o pensamento do próprio autor e a minha sensação pessoal sobre o Brasil”.

A decisão envolveu meses de consulta a acadêmicos brasileiros e uma leitura aprofundada da obra. Para Yan, a escolha reflete seu próprio entendimento da ideia central do intelectual brasileiro: a de que os brasileiros são uma entidade em formação, desde a invasão colonial até a identidade nacional contemporânea. “Parece que eu sempre estava com o autor”, disse a tradutora sobre o processo de trabalho.

Outros conceitos exigiram atenção equivalente. A palavra “cunhadismo”, central no sistema teórico de Darcy, foi traduzida como “联姻吸纳制” (literalmente “Sistema de Absorção Matrimonial”), após consulta a especialistas brasileiros. O conceito de “ninguendade”, que captura a suspensão identitária dos mestiços na história colonial, exigiu notas de tradução detalhadas.

Yan, que fez mestrado em Letras na UFRGS de 2005 a 2008, leu seis obras da historiografia brasileira para fazer este trabalho, incluindo “Raízes do Brasil”, de Sérgio Buarque de Holanda, entre outros clássicos, para enraizar a tradução num entendimento mais amplo da cultura e da história do país.

Para o presidente da Fundação, a dificuldade de traduzir Darcy é inseparável da originalidade de seu pensamento. “Darcy criou seu próprio esquema conceitual. Não tem referências em outros autores para explicar seus próprios conceitos. Ele inventa palavras, tipo ‘ninguendade’, ‘cunhadismo’, e você precisa entendê-los na tradução para adotar similaridades convenientes entre as duas culturas”, afirmou José Alves da Cunha.

A professora Gisele destacou a importância da tradução para além do evento de lançamento: Yan Qiaorong também acompanhará a delegação brasileira em todas as cidades do circuito de apresentações, auxiliando na mediação das falas e expondo ao público chinês os debates levantados na obra de Darcy Ribeiro.

“O Povo Brasileiro” de Darcy Ribeiro, em mandarim, é entregue a seis instituições chinesas, durante a cerimônia de lançamento do livro na sede do Grupo de Comunicações Internacionais da China (GCIC), em Pequim – 9 de abril de 2026. | Crédito: Jiang Chenxing / Brasil de Fato
“O Povo Brasileiro” de Darcy Ribeiro, em mandarim, é entregue a seis instituições chinesas, durante a cerimônia de lançamento do livro na sede do Grupo de Comunicações Internacionais da China (GCIC), em Pequim – 9 de abril de 2026. | Crédito: Jiang Chenxing / Brasil de Fato

Desigualdade, colonialismo e identidade brasileira

O Povo Brasileiro: A Formação e o Sentido do Brasil teve sua gênese no exílio, após o golpe militar de 1964, com uma primeira versão escrita no Uruguai em 1965 e uma segunda no Peru em 1972. A versão definitiva foi concluída décadas depois, quando Ribeiro, gravemente doente, saiu do hospital para terminar o manuscrito em Maricá, no estado do Rio de Janeiro.

José Alves da Cunha, que trabalhou com Ribeiro desde jovem, recuperou essa trajetória: “Chegou um determinado momento em que ele quase faleceu. Tinha um problema no pulmão [e ele só tinha um!]. Quando foi internado, pensou: não tenho mais tempo e preciso fechar aquilo que comecei lá atrás. Ele fugiu literalmente do hospital para terminar de fazer essa obra”.

Para além da importância do diálogo entre Brasil e China, o BdF questionou o presidente da fundação sobre a atualidade da obra. Ele afirma que “O Povo Brasileiro” constrói “uma plataforma para se pensar o futuro, o vir a ser”, não apenas um retrato cristalizado de um momento histórico.

“Qual é o país que nós queremos para nós? Qual é o país que a juventude brasileira vai lutar para ser dona do seu próprio nariz? Todas essas questões estão colocadas no livro, são como desafios”, diz José Alves da Cunha.

Darcy Ribeiro considerava falso o conceito promovido sobre o Brasil por Gilberto Freyre, entre outros autores, de “democracia racial”. “Darcy mostra que nós, brasileiros, somos frutos do genocídio e do etnocídio”, afirma José Ronaldo Alves da Cunha.

A miscigenação, nessa leitura, não deve apagar conflitos: as lutas dos povos indígenas e das comunidades negras são, para José Alves da Cunha, justas e parte constitutiva desse mesmo processo. “Nada disso contradiz esse outro movimento”, disse.

Porém “isso tudo faz parte de um caldo de formação de sociedade que tem que estar muito bem alinhado, porque o inimigo está fora” alerta Cunha.

“A gente tem que ter clareza de quais são os objetivos que a gente tem pela frente para não fazer com que os grupos se desfaçam das lutas necessárias: educação gratuita de qualidade para todos, reforma agrária para todos, saúde pública, trabalho, alimentação”.

A antropóloga Jacon relacionou essa preocupação central de Ribeiro com a China. “Ele considerava a Revolução Chinesa a última revolução que avançava com perspectivas mais significativas no campo dos povos mundiais, e que podia ser um espelho para o Brasil no futuro”, afirmou. Para ela, o diálogo entre Brasil e China é especialmente fértil porque “a China também pode nos olhar como exemplos de povos colonizados, que ainda buscamos um caminho para um potencial civilizador mais justo para a maioria da população”.

Darcy Ribeiro: trajetória e método intelectual

A obra lançada nesta quinta em mandarim é, para o presidente da Fundação Darcy Ribeiro, o ponto de chegada de uma série de estudos que Ribeiro iniciou no exílio. O percurso intelectual começou com O Processo Civilizatório, no qual o autor desenvolveu uma teoria do desenvolvimento histórico a partir da América Latina, sem recorrer às referências do processo civilizatório europeu ou norte-americano. Em seguida, vieram As Américas e a Civilização e os estudos sobre os povos indígenas brasileiros, antes do retorno ao Brasil e da atuação política como vice-governador do Rio de Janeiro e senador da República.

“Eu era apenas um garoto recém-formado que ia trabalhar com ele, mal sabendo o que viria pela frente, achando que ele já estava cansado de ter feito tanta coisa. Pelo contrário, ele estava com um apetite danado”, lembrou José Alves da Cunha. Ribeiro dizia frequentemente: “Me ajuda a colocar no chão do mundo as ideias”. Era, na avaliação do presidente da Fundação, “um intelectual voltado para a realização”, para quem o pensamento e a ação política eram inseparáveis.

A professora Yan Qiaorong afirma que a nova obra para o público chinês preencherá uma lacuna: “O Brasil foi muito bem traduzido na área literária, com autores como Machado de Assis. Mas na área acadêmica, que representa o pensamento do Brasil, os títulos são muito raros. Chegou a hora em que a China quer entender o Brasil de maneira profunda, não só em nível comercial, mas em nível cultural, não é só samba e futebol, mas como entendemos melhor esse povo, essa nação”.

“A amizade não se estabelece apenas em nível estatal, entre as grandes autoridades, mas também entre as pessoas comuns. São as pessoas comuns que conversam, se entendem, e é isso que melhora a amizade entre diferentes países”, disse Yan.

Para ela, chineses e brasileiros compartilham histórias marcadas pelo sofrimento e culturas que cresceram na diversidade, e é esse fundo comum que torna o entendimento mútuo possível e necessário.

A relação entre os dois países, para ela, “não só [ocorre] quando o presidente Lula visita a China ou o presidente Xi Jinping visita o Brasil, mas [quando] nós, pessoas comuns, nos aproximamos também”.





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