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sexta-feira, 3 abril, 2026
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O nosso retrato

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Quando Yuri Gagarin, em 1961, se transformou no primeiro homem a entrar em órbita, levava consigo o sonho e a loucura de séculos. Ao retornar, confessou que sua maior surpresa não foi ver a vastidão do universo, mas a beleza do planeta. Ele estava apaixonado pela Terra.

Ele não foi o único a entender que, ainda que sua missão fosse desbravar o cosmo, a maior descoberta que estava fazendo era de nossa própria casa, do “errante navegante”. Com base nos relatos dos astronautas, anos mais tarde, o filósofo Frank White cunharia o termo “overview effect”, uma capacidade de reflexão sobre a visão do mundo de uma posição privilegiada e única. Um abalo sísmico na história da humanidade.

O retrato divulgado nesta sexta-feira pela Nasa me trouxe sentimentos contraditórios. Extasiado e apaixonado por sua beleza, mas profundamente triste diante dos ventos gelados do autoritarismo e militarismo que sopram entre os continentes.

No nosso retrato, os sons dos canhões parecem ecoar pelos formatos das nuvens que, envergonhadas, ensaiam uma coreografia para tentar encobrir os crimes contra a humanidade perpetrados hipocritamente por “homens de bem”. Sempre eles.

A imagem também é repleta de enigmas. Será que não existe nada maior que uma bandeira e uma vida organizada na base de identidades construídas? O nacionalismo é mesmo o instrumento adequado? Será que nossa maior defesa como espécie é a fronteira? Ou seria ela nossa limitação?

Se Gagarin foi ao espaço para entender que somos um só, agora foram os confinamentos, o medo, as guerras e o reconhecimento da vulnerabilidade que nos proporcionaram um daqueles momentos históricos de mudança cognitiva da consciência.

Repararam com na foto não existem muros? Gargalhei de desespero ao ver como, na imprensa britânica, um alerta foi feito indicando que a imagem trazia o planeta “de cabeça para baixo”. Em que século estamos?

Mas nosso retrato de 2026 é esse. Paradoxal, complexo, deslumbrante e assombroso.

Em minha ingenuidade persistente, quero acreditar que essa imagem nos fez relembrar, diante da névoa da guerra, quem somos. Cada um de nós se define como humano. Mas precisamos dos demais para comprovar que o somos. Só existimos como força coletiva.





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