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sexta-feira, 13 fevereiro, 2026
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O mito da fragilidade feminina e a nossa epidemia de agressão

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Não, este não é um chamado inconsequente à agressão gratuita ou a reação descuidada a violências. É o contrário. Este é um chamado responsável à consciência corporal, ao aprendizado de técnicas de proteção e a derrubada da ideia de que mulheres devem ser criadas para serem “bibelôs de penteadeira” ou porcelanas facilmente quebráveis. O país que agride 26 mulheres por hora, acha que pode prescindir de ensinar técnicas de autodefesa às meninas.

Por isso, como roteirista da série ‘Capoeiras’, que estreia amanhã, 29/08, na Disney+, quis colocar no jogo uma adolescente preta que não se rende ao imaginário geral do que é próprio ou impróprio para ela. A jovem atriz Dhara Lopes será Ventania, dando vasão ao seu talento para esta luta tão brasileira, patrimônio imaterial nosso, mas que parece mais visível fora do que dentro do país. Quantos pais ou mães pensam em colocar a filha na capoeira, no judô, enfim, no aprendizado de alguma arte marcial?

A política de Educação Física, o ensino e acesso aos equipamentos esportivos são caóticos no Brasil.  Não somos uma potência olímpica por pura visão míope de que esta é uma questão de segunda categoria. Não é. A condução do esporte com a devida atenção e seriedade melhoraria índices de saúde, de qualidade de vida, vício de tela, atenção e aprendizado. Ter uma atividade esportiva no cotidiano das crianças e adolescentes não é tarefa fácil e quando isso ocorre, a escolha da prática é atravessada por todas as nossas mazelas sociais. O machismo é uma delas.

A culpa por uma violência nunca é da vítima. A sociedade é responsável pelo cultivo da fragilidade — seja ela subjetiva ou física — como um adjetivo feminino. Isso tem levado homens a negá-la em si da pior forma possível e mulheres a afirmá-la em si também da pior maneira imaginável.

Por incrível que pareça, menino fazer dança e menina jogar futebol ou praticar alguma arte marcial ainda é um tabu para grande parte das famílias. No entanto, com os números vergonhosos que temos de olhos roxos, braços e maxilares femininos quebrados, aprender técnicas de autodefesa não deveria ser algo fora de questão.

Segundo os dados do Forúm Brasileiro de Segurança Pública, 21,4 milhões de mulheres sofreram algum tipo de agressão em 2024. Este número representa 24,2% da população brasileira e, apenas para citar algumas nações, isto significa mais que o dobro do número de habitantes de Portugal, Grécia e Suécia e é três vezes o vizinho Paraguai. Muito precisa ser feito no campo da legislação, das estruturas de segurança pública e da educação para combater este mal que mata mais que tantas epidemias e guerras. No entanto, há um trabalho a ser feito no terreno da autoestima, cuidado e proteção do próprio corpo. Pensar em educar os corpos para outro significado às falaciosas noções de fragilidade e força também deveria estar no radar.

Como tudo neste país tem propósito e método, manter o mito da fragilidade feminina parece ser apenas mais uma artimanha pensada e muito bem manipulada para os adoecidos sentimentos de posse e dominação.

 

 

 

 

 

 



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