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domingo, 1 março, 2026
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O miliciano universal – ICL Notícias

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Uma das mais bem sucedidas criações dos criminosos cariocas nas últimas décadas, as milícias começaram a surgir no início dos anos 2000. Herdeiros diretos dos assassinos comandados por Tenório Cavalcante, na década de 1950, e do Esquadrão da Morte, nos 70, os bandidos atuais têm em relação a seus antecessores diferenças fundamentais. Nos nossos dias, os agentes de Estado, detentores legais da força, não são apenas contratados pelos chefões fora da lei. Na milícia, os próprios policiais são os “empreendedores” do crime.

Além disso, os milicianos não atuam apenas na matança, como acontecia há sete décadas. Hoje, eles usam o poder de decidir quem vive e quem morre para lucrar em todo tipo de comércio ilegal: venda de gás, Internet clandestina, venda de cigarros falsificados, taxa de “segurança” e várias outras modalidades de “negócio”.

O êxito do modelo miliciano foi tal que alguns levantamentos mostram que atualmente há mais comunidades do Rio oprimidas por bandidos desse tipo do que por traficantes de drogas. Algo que contraria frontalmente a previsão do ex-prefeito carioca César Maia, que em 2005, nos primórdios da milícia, chegou a dizer que era um “mal menor”. Ou seja: para Maia, valia ter um grupo marginal dentro do próprio Estado desde que os criminosos convencionais fossem combatidos.

Deu no que deu.

Não se sabe se Donald Trump costuma acompanhar o noticiário policial carioca, mas a verdade é que o presidente dos Estados Unidos está colocando em prática em escala global o mesmo padrão de domínio marginal que os milicianos aplicam em Rio das Pedras, Campo Grande ou Curicica, áreas da zona Oeste do Rio.

Apesar de ser o representante maior de um governo baseado em um consenso legal, Trump resolveu jogar no lixo todas as leis, sejam nacionais ou internacionais– especialmente estas. Foi assim que agiu logo que começou o segundo mandato, ameaçando de invasão governantes do Canadá, México, Dinamarca e outros países.

Da mesma forma que o miliciano dobra o preço do gás e da gatonet nas favelas e ameaça de morte o cliente que buscar alternativa para pagar mais barato, Trump impôs ao mundo um tarifaço aleatório, baseado em equações disparatadas saídas de sua própria cabeça laranja.

Agora, ele simplesmente desaloja de seus postos os governantes que considera ruins. Foi assim com Nicolás Maduro, sequestrado, e também com o Aiatolá Khamenei, assassinado.

E quanto ao intrincado arcabouço legal negociado pelas nações para garantir décadas de mínima estabilidade, depois da Segunda Guerra?

O presidente dos Estados Unidos simplesmente não dá a mínima para isso. Ignora qualquer autoridade que não seja ele próprio e segue à risca a lei do mais forte, o mais antigo de todos os códigos, que a humanidade se esforçou tanto para superar.

Impotentes diante das barbaridades perpetradas por esse presidente facínora e seu assecla Netanyahu, os outros governantes torcem para não serem notados por Trump. Assim como um morador de uma comunidade da zona Oeste carioca rezava para ser esquecido por Jerominho, o fundador da primeira milícia, a Liga da Justiça.

Enquanto isso, o presidente dos EUA manda e desmanda, cria e executa suas próprias regras. Pior: como aconteceu com César Maia no nascimento da milícia, ainda há quem aplauda os desmandos de Trump. O Estadão é um bom exemplo de puxa-saquismo, pelo editorial “Ninguém vai chorar pelo Irã”, em que louvou os crimes do presidente norte-americano e previu que o mundo ainda agradecerá a ele pelo ataque.

Nem mesmo o fato de que o bombardeio ordenado pelos EUA contra Teerã e executado por Israel matou 150 meninas em um colégio sensibilizou o editorialista do Estadão. O jornal celebra os ataques ao governo do Irã e a sua população, mesmo ao arrepio da legislação internacional. Festeja o vale-tudo.

Os acontecimentos dos dias atuais se desenrolam como um pesadelo, sem prazo determinado para acabar.

É tudo realmente preocupante, para dizer o mínimo.

Mas a história costuma surpreender, volta e meia prova que não há tirania que dure para sempre. Cedo ou tarde, Trump pode encontrar adversários que desafiem seu poder. Ou seus próprios compatriotas podem se cansar das atrocidades e apeá-lo da presidência.

A história da milícia conta a ascensão de criminosos pela força, mas também mostra que alguns deles foram derrotados fragorosamente, de forma trágica. Como Adriano da Nóbrega ou Jerominho.

Vejamos até onde o miliciano Trump consegue chegar.





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