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sábado, 2 maio, 2026
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O manifesto sombrio da Palantir

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Por Bruno Natal*

A Palantir é uma empresa especializada em organizar volumes gigantescos de dados dispersos de diferentes de maneira clara para tomada de decisão. Foi fundada em 2003 por Peter Thiel, um dos integrantes da chamada “PayPal Mafia”, como foi apelidado o grupo de fundadores do sistema de pagamentos, do qual fazem parte Elon Musk (Tesla, SpaceX), Reid Hoffman (LinkedIn) e Steve Chen e Chad Hurdley (YouTube), entre outros.

O nome vem da saga Senhor dos Anéis. Os palantíri são objetos que permitem enxergar o invisível, uma metáfora que a Palantir sempre levou bem a sério. A empresa foi fundada em 2003 e ganhou tração logo após os atentados de 11 de setembro, quando agências do governo dos EUA se viram perdidas dados demais e sem conseguir conectá-los.

O primeiro produto criado integrou inteligência de localização, vigilância e relatórios numa interface única. A CIA foi cliente desde o início. Com a chegada da IA generativa, o modelo ficou ainda mais valioso, já que modelos de linguagem precisam de dados organizados e contextualizados, que é exatamente o que a Palantir vende. Com isso, a ação saiu de 7 dólares para mais de 200 dólares no auge de 2025.

Essa semana, no podcast RESUMIDO (https://www.resumido.cc), analisei o manifesto de 22 tópicos que a Palantir publicou em 22 tópicos no X (antigo Twitter), baseado nas ideias publicadas no livro The Technological Republic, do CEO Alex Karp.

O texto defende que o Vale do Silício tem uma dívida moral com os EUA e que essa dívida se paga participando ativamente da defesa nacional. Defende mais poder militar, integração entre tecnologia e Estado, serviço nacional compulsório e o uso inevitável de armas baseadas em IA. Algumas culturas, segundo o manifesto, são “avançadas”, enquanto outras são “disfuncionais e regressivas”.

Parlamentares britânicos chamaram o texto de “paródia de RoboCop” e “divagações de um supervilão”. A reação faz sentido, até porque a Palantir tem mais de 500 milhões de libras esterlinas em contratos no Reino Unido, incluindo 330 milhões com o NHS, o sistema público de saúde. Tem também acordos com polícia, forças armadas e órgãos reguladores.

E aqui está o ponto central da questão. Uma empresa que acessa dados sensíveis de milhões de cidadãos acaba de publicar um manifesto defendendo vigilância em massa e militarismo tecnológico como projeto de civilização.

O que o manifesto expõe não é a loucura de um CEO excêntrico. É uma mudança estrutural, em que empresas de tecnologia deixam de ser fornecedoras de infraestrutura para se posicionar como atores ideológicos com uma agenda explícita. Uma empresa que declara que a ética é um obstáculo, deixa a pergunta sobre o que faz com a quantidade de dados públicos que possui.

O risco da IA    não é a tecnologia em si. É quem a constrói, para que fim e com qual visão de mundo. A Palantir acabou de responder às três perguntas de uma vez.

*Bruno Natal é jornalista, documentarista e apresentador do podcast RESUMIDO (https://www.resumido.cc), sobre o impacto da tecnologia em todos os aspectos das nossas vidas. Disponível nas principais plataformas de streaming.





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